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Babilônia: a violência como legado

A partir do vácuo de políticas públicas básicas, os traficantes tornaram-se os responsáveis pela gestão das áreas "abandonadas" pelo poder público

01:30 | 09/10/2017

Babilônia era uma cidade rica e próspera. Conforme um dos muitos mitos que cercam sua história, a soberba fez com que o lugar entrasse em decadência e terminasse em ruínas. A “Babilônia” localizada às margens do antigo aterro sanitário do Jangurussu, no Barroso II, nunca soube o que foi glória muito menos esplendor, tendo se erguido sob o signo da desolação. Para entender a violência que assola o conjunto habitacional e, por extensão, toda a Cidade, é preciso levar em consideração as limitações da política habitacional de Fortaleza.

A “Babilônia”, cujo nome oficial é Novo Jardim Castelão, surge no contexto do Programa de Requalificação Urbana com Inclusão Social (Preurbis), que tinha como objetivo proporcionar melhor qualidade de vida aos moradores de áreas de risco. A ação integrava uma série de melhorias urbanas na esteira da Copa do Mundo, como a implantação de um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) e a reforma das avenidas que davam acesso à futura Arena Castelão. A proposta era deixar um legado urbano para além do caráter de evento esportivo.

Os futuros ocupantes do Novo Jardim Castelão residiam às margens do rio Cocó, numa comunidade conhecida como Boa Vista. Com as obras, contudo, a área do entorno do Castelão tornou-se supervalorizada. Tratou-se de um eldorado imobiliário de breves proporções. Um efeito perverso dessa especulação foi a elevação do preço dos terrenos daquela região, fazendo com que o destino das famílias ribeirinhas acabasse sendo uma área de baixíssimo valor econômico e social, ou seja: morar a 100 metros do antigo aterro sanitário de Fortaleza. Muitos moradores relutaram em sair do local em que moravam para viver ao lado de um lixão desativado, mas suas demandas não foram atendidas. O quadro se agravou com as constantes invasões a imóveis não finalizados. Um levantamento da Prefeitura, de 2014, revelava que apenas 20% dos moradores dos apartamentos eram proprietários de fato dos imóveis. O impasse permanece até hoje. Com apenas 64% do empreendimento concluído, a população cobra que os benefícios prometidos ao conjunto, como quadras esportivas, centro de convivência, creche, área de lazer, estacionamento, parque e ciclovia, saiam finalmente do papel. O que teria sido um novo jardim no Castelão tornou-se a “Babilônia”.

O período em que Fortaleza sediou a Copa do Mundo marca também o início de uma reordenação no mercado de drogas ilícitas. A venda de cocaína no Grande Jangurussu, por exemplo, baseava-se em um modelo de microtráfico bastante fragmentado e violento. Esse foi o cenário que encontrei em minha pesquisa de mestrado. Em apenas dois anos, esse quadro alterou-se de forma radical. O assunto foi tema da primeira coluna Segurança Pública, de 13 de janeiro de 2014: “Conforme informações divulgadas na imprensa, traficantes de fora do Estado estariam tentando impor sua presença por meio de execuções (...) No segundo dia do ano, quatro jovens de uma mesma família que moravam em um conjunto habitacional no Barroso II [a Babilônia] foram vítimas de uma chacina.”

O tráfico começava a se reorganizar territorialmente, mas naquela época ainda não tínhamos a menor noção dos desdobramentos que se seguiriam. A partir do vácuo de políticas públicas básicas, os traficantes tornaram-se os responsáveis pela gestão das áreas “abandonadas” pelo poder público. Eles definem quem entra e quem sai dos imóveis e cobram comissão por prestação de serviços no local, fazendo com que o tráfico deixe de ser sua única fonte de renda, conforme revelou uma fonte à coluna. A instalação de uma rede de videomonitoramento, bem como a criação de um local específico para o “tribunal do crime” na Babilônia não são obras do acaso, mas resultado de anos de omissão.

O ano em que a Arena Castelão sediou os jogos da Copa do Mundo foi, paradoxalmente, o período em que mais pessoas foram assassinadas no Ceará. O dispositivo montado para garantir que os torcedores entrassem e saíssem com segurança do estádio não surtiu efeito algum em se tratando dos crimes contra a vida. Da mesma forma que vieram, os turistas foram embora do Ceará: ilesos. Quem ficou por aqui teve de arcar com a conta de uma escalada inédita nos índices de violência. Do ponto de vista social, esse foi o nosso maior e mais duradouro legado.

RICARDO MOURA