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Alguém vai se dar mal

01:30 | 24/10/2017

O primeiro governo de Cid Gomes (2007-2010) alimentou a utopia de pactuação que agradasse todos os grandes grupos políticos do Ceará. Estavam lá, sob comando dos Ferreira Gomes, Luizianne Lins e José Guimarães (PT), Tasso Jereissati (PSDB), Eunício Oliveira (PMDB) e Domingos Filho (peemedebista à época), Inácio Arruda (PCdoB), Moroni Torgan (DEM), Tin Gomes (PHS) e por aí vai. Só estavam de fora Lúcio Alcântara (PR), que ficou sem espaço no PSDB, e o Psol. Já na eleição seguinte, porém, ficou claro que não seria possível atender os interesses de todo mundo e o acordo ruiu.

Eunício, desta vez, negocia com PT e PDT, declara voto em Lula, enquanto conversa também com a oposição. Alguém vai se dar mal nessa conversa. Quem menos tem a perder é a base governista estadual: se estiver com Eunício bem. Se não, é o plano que segue. Já a oposição e Eunício podem se dar mal. PSDB e PR podem ser abandonados pelo peemedebista. Eunício pode ser largado pelos governistas. Os destinos estão atrelados, por isso as pressões por respostas e prazos.

O que a história demonstra é que esse negócio de tentar composição ampla demais e neutralizar adversários pode agradar todo mundo por algum tempo e algumas pessoas o tempo todo. Mas, não tem como contemplar todo mundo o tempo todo. Uma hora a casa desmorona na cabeça de alguém.

O QUE É INTIMIDADE?

Gilmar Mendes já considerou que o fato de ser padrinho de casamento da filha de alguém não configura relação íntima. Por isso, não se furtou a mandar libertar o empresário Jacob Barata Filho. Agora, foram reveladas pelo menos 23 ligações telefônicas via WhatsApp entre o ministro e o senador Aécio Neves (PSDB-MG), além de outras 20 que não teriam sido completadas. Isso no intervalo de dois meses.

Gilmar argumentou que tratava do projeto de lei sobre abuso de autoridade. Como o Senado tem outros 80 parlamentares, é o caso de saber se o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) também conversou tanto pelo menos com alguns outros. Ou se dedicou tanta conversa apenas a quem desfruta de alguma… intimidade.

Fica, inclusive, interrogação se eles realmente não trocaram ao menos duas palavras sobre a decisão de Gilmar, tomada no mesmo dia de uma das conversas, que dispensou Aécio de depor à Polícia Federal em um dos inquéritos da Lava Jato. Estava mesmo o senador preocupado com abuso de autoridade enquanto o mesmo ministro com o qual conversava pelo menos uma vez a cada três dias decidia se ele iria ou não depor à PF? Pode ser que sim.

A questão que fica é: o que configura intimidade, relação pessoal? Ser padrinho de casamento da filha não basta. Aliás, Jacob Barata Filho mandou flores para Gilmar. Presentear com flores tampouco indica relação pessoal. Dezenas de ligações também não. Será necessário que o julgador seja pai do réu para se julgar impedido? Ou precisarão ser casados para haver suspeição?

A independência do magistrado é um dos pilares da Justiça. Quase sempre em episódios que envolvem Gilmar Mendes, os instrumentos de impedimento e suspeição têm sido desmoralizados.

A propósito: a Procuradoria Geral da República pediu a suspeição de Gilmar no caso Jacob Barata. Nunca houve decisão.

O ministro tinha atrito pessoal com o ex-procurador geral, Rodrigo Janot. A substituta de Janot, Raquel Dodge, agora pediu a cassação das liminares e o retorno do empresário à prisão preventiva. Gilmar fez pouco caso, disse que a decisão está tomada e a manifestação da substituta de Janot não tem efeito.

O QUE FAZER?

A tragédia de Goiânia traz oportuna reflexão em momento no qual se discute, de novo, aumentar a maioridade penal. O jovem de 14 anos foi raro caso de atirador pego com vida. O que fazer com ele?

a) Matar, enforcar, mandar para a cadeira elétrica. Ou mandar para prisão perpétua, ou pelo menos trancafiar por uns 30 anos, até que ele tenha 44 anos.

b) Puni-lo, sim, mas também tratá-lo. Entender o drama pelo qual passou, ajudá-lo a lidar com os antigos e o novo trauma. Tentar dar a ele condições de seguir com sua vida, livre do estigma na medida do possível. Tentar, enfim, salvá-lo.

Qual a coisa correta, humana a fazer?

Em tempos tão sombrios, temos oportunidade de mostrar que temos perspectivas como civilização.

O PRINCÍPIO E O FIM

É curiosa a defesa da ração que se pretende usar em São Paulo para alimentar crianças de escolas públicas e pessoas pobres. Fala-se de gerar riqueza e evitar desperdício. Não desperdiçar é importantíssimo e riqueza é ótimo, mas as coisas estão invertidas. Os propositores parecem mais interessados em dar destinação a alimentos que iriam estragar do que em alimentar crianças e quem passa fome. Alimentar essas pessoas parece mais o instrumento encontrado para se chegar ao objetivo, e não o inverso. A lógica está pelo avesso.

 

ÉRICO FIRMO