Participamos do

Que amanhã o Brasil seja a Argentina

00:00 | Nov. 05, 2017
Autor O POVO
Foto do autor
O POVO Autor
Ver perfil do autor
Tipo Notícia

A Argentina serve em algo como referência política para o Brasil? Esta é uma velha questão. Historicamente, prevalece lá um cenário talvez mais complexo que o brasileiro. A intimidade dos argentinos com o populismo é ainda mais enraizada do que aqui. O mesmo com o autoritarismo. Não fosse, é certo que a prosperidade plena já teria alcançado a Argentina.


O jornalista Clóvis Rossi tem larga experiência na cobertura da política do nosso vizinho. Em seu último artigo publicado na Folha de S.Paulo, Rossi lança algumas luzes sobre a questão que abre esse texto. “Tomara que continue valendo o efeito Orloff, aquela pressuposição dos anos 1980 de que o Brasil de amanhã seria a Argentina de hoje”, afirma.
 

Certamente, os mais jovens não vão entender a relação entre uma consequência política e o nome de uma vodca. Explica-se: na década de 1980, uma propaganda da bebida ressaltava a ideia de que a Orloff não provocava ressaca. No comercial, um sósia muito bem disposto dizia “eu sou você amanhã” para o sujeito à mesa de um bar logo após pedir uma dose da bebida.
 

Seja assinante O POVO+

Tenha acesso a todos os conteúdos exclusivos, colunistas, acessos ilimitados e descontos em lojas, farmácias e muito mais.

Assine

O slogan foi apropriado pelo jornalismo político em forma de um conceito (“efeito Orloff”) que passou a ser usado em analogias entre o Brasil e a Argentina: hiperinflação, escândalos de corrupção, a gangorra do dólar, planos econômicos mirabolantes eram comuns aos dois. Naqueles tempos, o que primeiro acontecia em um país acabava se reproduzindo no outro.


O “efeito Orloff” não deixou de acontecer até hoje. Quando o populismo tomou conta da Argentina, o Brasil seguiu essa linha anos depois. Os Kirchner lá. O petismo cá, mesmo que, com Lula, principalmente no primeiro mandato, isso tenha se dado em menor grau.
 

Para Rossi, se o efeito Orloff continua valendo, “então o presidente argentino Mauricio Macri acaba de pôr na roda uma agenda revolucionária que, se copiada no Brasil para a campanha eleitoral de 2018, pode alçá-la a um patamar enriquecedor”.
 

O experiente jornalista avalia que “Macri está oferecendo aos argentinos um conjunto de reformas (trabalhista, tributária, previdenciária, entre outras) com nítido fundo liberal. Como no Brasil, aliás, mas com muito mais profundidade e com um amparo popular de que não goza seu colega Michel Temer”.
 

Lá como cá, nem o capitalismo e muito menos o liberalismo vigoraram em algum período de suas histórias. No entanto, a Argentina já apresentou longas fases de prosperidade que permitiu ao País uma qualidade de vida similar a países da Europa. Isso, antes do  populismo peronista, claro.


Daí Rossi citar o filósofo Santiago Kovadloff que, em artigo no La Nación disse o seguinte: “Não creio que, na história da América do Sul, haja outro país que se tenha exposto à decadência nos termos em que esteve a Argentina...Seus notáveis acertos sociais e econômicos viraram fumaça”. Pois é.
 

Agora, como escreveu Clóvis Rossi, parece haver uma “mudança no estado de espírito” ao ponto de um liberal como Mauricio Macri apresentar agenda que vai além das reformas pontuais: “O ponto de chegada do programa do presidente é uma profunda reforma do Estado, o que é igualmente revolucionário. Na Argentina (como no Brasil), há uma fortíssima coligação de amantes das gordas tetas do Estado, no empresariado, no sindicalismo e, claro, na política”.
 

Continua o jornalista: “Seria formidável se a campanha eleitoral de 2018 debatesse o formato da sacudida. Um ponto é essencial: a obsessão de Macri é reduzir a pobreza, chaga permanente no Brasil e que, na Argentina, só sangrou devido à decadência”.
Sendo assim , que o “efeito Orloff” se precipite entre nós.
 

 

NA TERRA DO PADRE CÍCERO
Por falar em populismo, nossos governantes, com honrosas exceções, são reincidentes em fazer do setor de transportes um laboratório de políticas malfadadas em nome do povo. Logo numa área essencial, prevista na Constituição como responsabilidade dos governos e que só atenderá da melhor maneira aos cidadãos se for bem organizada e inserida em regras claras e públicas.
 

Aqui e acolá, emerge a irresponsabilidade. É o caso de Juazeiro do Norte, uma importante cidade que nasceu e cresceu de forma desorganizada e que vem, na última década, buscando um padrão adequado de desenvolvimento urbano.
 

Até recentemente, Juazeiro era conhecida pelo péssimo serviço de transporte público. Havia duas empresas que mantinham ônibus em péssimas condições, desconfortáveis, inseguros e poluidores. A idade média superava os 15 anos. Três anos é o tempo considerado ideal.
 

Em 2016, a Prefeitura da cidade decidiu, enfim, fazer licitação para instalar um serviço de transporte adequado. Tudo como manda o figurino, incluindo as audiências públicas. Porém, o setor anda combalido e os empresários do ramo reticentes. Resultado: somente uma empresa topou concorrer.
 

A referida empresa (Via Metro) já é conhecida por operar no sistema metropolitano do Cariri e o de Fortaleza. Lá, começou a atuar com frota de idade média abaixo dos 3 anos, sistema eletrônico de pagamento, aplicativo para permitir a localização e tempo de chegada. Ou seja, um padrão igual ao de qualquer cidade que tenha serviço de referência.
 

Mas o populismo sempre vinga. Após seguidos mandatos federais, Arnon Bezerra assumiu a Prefeitura. Em 2017, o contrato público completou um ano e a cláusula de reajuste foi solenemente ignorada. Não é uma novidade. É usual os gestores não respeitarem os contratos de concessão.
 

Isso mesmo: o poder público, que antes o implorou para fazer o investidor fazer o investimento passa a ignorar as cláusulas contratuais que sustentam o sistema. Qual a ideia subjacente? Politizar uma questão técnica e fazer com que os concessionários entrem na roda viva da dependência em relação ao plantonista do poder. Ora, ora! O País já sabe muito bem onde isso costuma acabar.
Hoje, já se considera a rescisão do contrato. Sabem quem vai pagar a conta? Claro, os de sempre. Tudo o que foi conquistado vai implodir e o caos urbano vai se impor. Creiam, senhores. A concessão
desenfreada de direitos e gratuidades que se junta ao desrespeito dos contratos é a desgraça que destrói um dos serviços públicos mais importantes para a vida dos cidadãos.
 

Aguardem: as vans e lotações vão se fazer
valer na terra de Cícero Romão Batista.

Dúvidas, Críticas e Sugestões? Fale com a gente