Saúde
Estudo da Fiocruz aponta defasagem entre registro da covid e boletins
Estudo do projeto MonitoraCovid-19, realizado por pesquisadores do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz), e divulgado hoje (20), alerta que a divulgação de casos da doença pode apresentar mais
17:23 | 20/08/2020
Estudo do projeto MonitoraCovid-19, realizado por pesquisadores do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz), e divulgado hoje (20), alerta que a divulgação de casos da doença pode apresentar mais de 50 dias de diferença entre o registro no sistema de saúde e a publicação nos boletins epidemiológicos, em alguns estados.Â
No Amapá, Maranhão, ParaÃba, Rio de Janeiro e Rondônia, os dados oficiais registraram o número máximo de casos da covid-19 até sete semanas depois de ele ter acontecido efetivamente. O que significa que medidas importantes de saúde pública podem ter demorado a ser tomadas, prejudicando o combate à epidemia, alerta o estudo.Â
O epidemiologista do Icict Diego Xavier explicou à Agência Brasil que foi feita uma análise considerando os dois sistemas de referência do Ministério da Saúde que abrangem a covid-19: o Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe) e o e-SUS VE, criado para atender à elevada demanda de notificações de casos devido à epidemia.Â
âE a gente identificou essa diferença no tempo. Em alguns estados, a gente tem essa variação grande em número de dias entre a data que ocorreram a máxima de casos e os óbitos. Em última análise, é issoâ.
Diego Xavier ressaltou que o sistema de saúde também foi bastante afetado pela pandemia do novo coronavÃrus (covid-19), principalmente nos estados onde a covid chegou primeiro.Â
âAs maiores diferenças a gente observa exatamente nesses estadosâ, apontou. à o caso, por exemplo, do Rio de Janeiro, Amazonas e Pará. Outros estados em que foi identificada diferença grande entre as datas real e oficial em relação ao número máximo de casos foram Paraná (30 dias), Rio Grande do Norte e EspÃrito Santo (27 dias cada), Goiás (25 dias), Distrito Federal (26 dias), Rio Grande do Sul (22 dias), Roraima (21 dias), Santa Catarina (20 dias) e Amazonas (19 dias).
O epidemiologista explicou que a doença leva um tempo para se confirmar por exame laboratorial e que, no inÃcio da pandemia, havia pouca capacidade de testagem, o que, segundo ele, também influenciou, além do volume muito grande de notificações.Â
Diego Xavier disse que os sistemas de atendimento de pacientes não estavam preparados, o mesmo ocorrendo com os sistemas de notificação. âIsso acabou resultando nesse problema, nessa defasagemâ.
SintomasOs dados, contudo, continuam entrando no sistema e boa parte deles está sendo informada nos boletins estaduais. Quando os pesquisadores compararam os dois sistemas de dados de saúde, consideraram todos os casos de covid, desde a data informada pela pessoa como sendo o inÃcio dos sintomas quando chegava a uma unidade de saúde, até a confirmação da doença. âNos casos que foram confirmados, a gente está comparando a data do inÃcio dos sintomas com os dados que saem no boletimâ, informou.
O infectologista disse que quando a capacidade e a velocidade de testagem aumentaram, essa defasagem começou a diminuir. âOs dados aparecem. O grande problema é que, quando os dados apontavam que estávamos em uma situação um pouco mais confortável em alguns estados, a gente estava exatamente passando pelo pior perÃodo epidêmico. A gente estava com uma alta de casos e óbitos, mas a informação que estava chegando é que a doença ainda estava subindo. Na verdade, a gente já estava na altaâ.Â
Diego Xavier estimou que essa diferença de informações pode ter prejudicado algumas polÃticas de flexibilização de atividades, naquele momento, em algumas localidades.
Já os estados da Região Sul do paÃs, onde a doença chegou mais tarde, tiveram tempo para se estruturar, diz o estudo. âAli, nota-se que a defasagem de informações é muito menor.â
RecomendaçõesOs pesquisadores do Icict/Fiocruz recomendam aos estados que é necessário que os gestores acompanhem mais de perto a data em que ocorreu o evento, a partir dos primeiros sintomas em diante, bem como a data do óbito, para que possam tomar medidas mais adequadas.Â
âAlém disso, a gente precisa também investir mais e evidenciar a importância que têm os nossos sistemas de vigilância epidemiológica, desde a captura do dado lá na ponta do serviço. A gente precisa melhorar a cultura de coleta de dados. A ficha precisa ser muito bem preenchida pelo profissional de saúde que está lá na ponta, porque essas informações servem para fazer polÃticas de saúde depois. Mas desde a coleta do dado até a estruturação tecnológica do sistema, a gente precisa de sistemas que respondam mais rápidoâ, recomenda Diego Xavier.
O epidemiologista alertou, no entanto, que não é viável que os estados mudem a forma de divulgação dos boletins, porque a população já se acostumou a ela. âMudar a forma como se divulga só vai trazer mais confusãoâ. Segundo ele, trata-se mais de uma questão interna e técnica das secretarias de Saúde. A recomendação da Fiocruz é que as divergências apontadas no estudo devem ser levadas em conta pelos gestores públicos.
O epidemiologista destacou que o sistema criado por ocasião da pandemia da gripe H1N1 (Sivep-Gripe) apresenta uma qualidade dos dados muito melhor e com defasagem menor, além de oferecer outras oportunidades de análise usando as informações.Â
âA gente precisa criar sistemas nessa perspectiva, robustos, mais dinâmicos, para a gente saber o que está acontecendo no momento em que a doença está atingindo a população, porque tem vários aspectos que fizeram a doença acontecerâ.Â
Diego Xavier alertou que, se os pesquisadores forem trabalhar apenas com informação que sai nos boletins e que se vê na televisão, âprimeiro a gente está defasado no tempo e, provavelmente, tomando decisões não adequadas, como no caso da flexibilização do isolamento socialâ.
Diego Xavier disse que é preciso ter cuidado quando se analisa os dados de um estado porque, na realidade, eles se referem a uma média de municÃpios. Na realidade, segundo Diego Xavier, cada cidade está em um tempo epidêmico diferente. Por isso, acrescenta, a recomendação da Fiocruz continua a mesma, a de continuar mantendo o isolamento social, usar máscara, sair de casa somente quando for necessário, aliadas a medidas mais complexas, como a volta à s aulas, que precisam de planos mais estruturados porque, senão, os casos vão voltar a subir.
DesafioOs pesquisadores da Fiocruz consideram que os dados sobre a covid-19 no Brasil, tanto em nÃvel estadual como municipal, são fundamentais para a tomada de decisões sobre as polÃticas públicas e medidas de emergência para conter a epidemia. Mas salientam que esses dados dependem de sistemas e painéis que têm cobertura e qualidade bastante variáveis no paÃs. Consideram que esse é um dos desafios para o combate à pandemia do novo coronavÃrus.