A misteriosa cantora com milhões de reproduções nos serviços de streaming – mas quem (ou o que) é ela?
Ela tem milhões de ouvintes no Spotify, mas os fãs não sabem se ela é uma cantora de verdade ou uma criação gerada por inteligência artificial.
15:27 | Jan. 25, 2026
Janeiro está sendo um bom mês para Sienna Rose.
Três das suas canções soul com toques de jazz estão no Top 50 Viral do Spotify. A mais popular delas, uma balada sonhadora chamada Into the Blue, foi executada mais de cinco milhões de vezes.
Se mantiver esta trajetória, Rose poderá se tornar uma das maiores revelações do ano.
Só há um problema: tudo indica que ela não é real.
O serviço de streaming Deezer, que desenvolveu ferramentas para lidar com músicas criadas por inteligência artificial, declarou à BBC que "muitos dos seus álbuns e canções na plataforma foram detectados e marcados" como tendo sido gerados por computador.
Um olhar mais detalhado encontrará indicações de uma artista criada por IA.
Rose não está presente nas redes sociais, nunca fez um show, não tem vídeos e publicou uma quantidade de canções quase inacreditável em um curto espaço de tempo.
Entre 28 de setembro e 5 de dezembro de 2025, ela lançou pelo menos 45 faixas nos serviços de streaming. Até mesmo Prince (1958-2016), conhecido pela sua criatividade incessante, teria dificuldades para igualar esta marca.
Sua conta no Instagram, atualmente desativada, apresentava uma série estranha e homogênea de fotos do seu rosto. Todas elas mostravam a iluminação diáfana e irreal, característica dos softwares geradores de imagens por IA.
E existe a música de Sienna Rose em si.
Canções como Into the Blue e Breathe Again estão muito próximas de Norah Jones ou Alicia Keys, repletas de sequências de guitarra em estilo de jazz e vocais suaves e aveludados. Mas muitos ouvintes afirmam ter identificado "artefatos de IA" em suas faixas.
Em Under the Rain e Breathe Again, por exemplo, existe um silvo denunciador presente ao longo das faixas.
Esta é uma característica comum de músicas geradas por aplicativos como Suno e Udio — em parte, porque eles começam com ruído branco, que é gradualmente refinado, até atingir a forma de música.
Esta peculiaridade permite ao Deezer marcar as canções produzidas com IA.
"Quando o software reúne todas as camadas e instrumentos, ele introduz erros", explica o cientista e pesquisador Gabriel Meseguer-Brocal, da companhia de streaming.
"Eles não são perceptíveis, não conseguimos ouvi-los, mas é fácil identificá-los com algumas operações matemáticas."
Estes erros agem como impressões digitais, explica Meseguer-Brocal. Sua "assinatura exclusiva" significa que é possível detectar qual software foi usado para criar determinada canção.
Para o ouvinte casual, existem outros sinais, como padrões inconsistentes de bateria, letras fracas e uma cantora que nunca foge da melodia, nem improvisa no verso final.
Este som "genérico" é o sinal que mais chamou a atenção de alguns ouvintes de Sienna Rose.
"Eu senti que gostava daquilo, mas havia algo muito 'vale da estranheza'", que não parece natural aos nossos ouvidos, afirmou o crítico de música Elosi57 no TikTok. "Por isso, fui olhar o seu perfil e passei a acreditar que aquilo é IA."
Outro usuário postou no X, antigo Twitter:
"Comecei a ouvir Olivia Dean (fantástica). Em questão de dois dias, o Spotify recomendou Sienna Rose, que tem um som parecido, mais genérico. Precisei de algumas canções para perceber que ela é IA."
A apresentadora de rádio e TV Gemma Cairney declarou à BBC Rádio 4 que "suas fotografias, de fato, parecem um tanto irreais... E, ouvindo a música dela, parece estar faltando um pouco de alma no soul".
Mas é preciso observar que muitas outras pessoas apreciam as canções de Rose.
Uma delas é a estrela do pop Selena Gomez. Ela usou a faixa Where Your Warmth Begins, de Rose, como fundo musical para uma postagem sobre o Globo de Ouro de domingo (11/1) no Instagram.
A canção foi removida quando as questões sobre a identidade de Sienna Rose se espalharam pela internet. Mas a postagem de Gomez levou o interesse por Rose e sua identidade para um patamar superior.
Muitos ouvintes das músicas de Rose reagiram decepcionados quando souberam da possibilidade de que ela não exista.
"Por favor, me digam que ela é de verdade," postou um deles na plataforma Threads.
"Estou decepcionado porque ouvi duas de suas canções e sua música não é RUIM", concordou outro, no Bluesky. "[Mas] alguém disse que, quando você a conhece, ela parece não ter alma e eu concordo."
Royalties a custo zero
É claro que é totalmente possível que todos tenham entendido errado e que Sienna Rose seja uma cantora real que não quer ficar em evidência.
Talvez ela esteja em um programa de proteção a testemunhas. Talvez ela seja uma cantora real, presa em uma disputa contratual com sua gravadora, lançando canções com um pseudônimo.
Se for o caso, peço desculpas. Deve ser arrasador ter sua música rotulada como um "trabalho malfeito de IA", sem alma.
Mas é uma indicação dos problemas enfrentados atualmente por toda a indústria musical. Os programas de IA estão ficando tão sofisticados que artistas artificiais estão competindo com músicos de verdade.
Na Suécia, uma canção que estava no topo das paradas foi recentemente proibida, quando os jornalistas descobriram que o artista responsável por ela, Jacub, não existe.
Muitas pessoas querem ver a IA ter sucesso, tanto nas empresas de tecnologia quanto no lado comercial do setor musical.
Os custos de lançamento de uma cantora como Sienna Rose são praticamente zero, mas os royalties estimados de suas músicas atingem 2 mil libras (cerca de R$ 14,5 mil) por semana.
Podemos comparar estes resultados com a indústria do K-pop, por exemplo. Suas gravadoras investem, em média, US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,4 milhões) por membro de banda, anualmente.
Com estes números, fica fácil observar o porquê do apelo da inteligência artificial.
É interessante observar que várias das canções de Rose aparentemente têm como crédito a gravadora independente americana Broke, conhecida por transformar artistas virais em astros das paradas, como bbno$ e Ndotz.
No website da gravadora, Rose não aparece como uma de suas contratadas. Mas o site menciona o grupo de dança Haven, que enfrentou problemas no final do ano passado, ao criar uma música usando a voz da cantora britânica Jorja Smith, clonada por IA.
Os serviços de streaming removeram a canção, intitulada Run, seguindo ordens de retirada emitidas por organismos ligados à indústria musical.
Eles alegaram que a faixa violava direitos autorais, mas ela foi regravada com vocais humanos e chegou ao top 10 das paradas britânicas no início de janeiro.
A BBC entrou em contato com a Broke para saber mais sobre sua relação com Sienna Rose, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
A BBC também entrou em contato com outra gravadora, a Nostalgic Records, que relaciona Rose no seu website.
A biografia da cantora publicada pela Nostalgic Records afirma que ela "mora em Londres" e "não é apenas uma intérprete, mas uma contadora de histórias do coração".
A plataforma Deezer afirma que 34% das canções enviadas para publicação no seu serviço de streaming (cerca de 50 mil por dia) são geradas por IA.
"Dezoito meses atrás, eram cerca de 5% ou 6%", segundo Meseguer-Brocal. "A rapidez desse aumento é um tanto alarmante."
Mas o Deezer não chegou ao ponto da loja de música online Bandcamp, que anunciou em meados de janeiro a proibição de todas as músicas geradas por IA.
O Spotify não comentou diretamente sobre Sienna Rose, mas havia afirmado anteriormente sua preocupação em identificar conteúdo "prejudicial" criado por IA, como spam e faixas que personificam outros artistas de forma fraudulenta.
Paralelamente, a revolta contra a música gerada por IA está crescendo.
No ano passado, artistas como Paul McCartney, Kate Bush, Damon Albarn, o grupo Pet Shop Boys e Annie Lennox lançaram um "álbum silencioso", em protesto contra as empresas que treinam seus modelos de IA com base em trabalho protegido por direitos autorais, sem autorização.
Durante a cerimônia de entrega do Prêmio Ivor Novello em 2024, a estrela do pop britânica Raye declarou à BBC acreditar que os fãs sempre preferem músicas de verdade sobre o material gerado pelos algoritmos.
"Não há motivo para se sentir ameaçado", disse ela. "Não componho porque estou tentando ser a melhor compositora. Componho porque estou tentando contar a minha história."
"Estou tentando me livrar de parte do peso que estou carregando ou tentando me expressar e me sentir melhor."
No mesmo evento, o músico britânico Kojey Radical disse não estar preocupado com a IA, já que não confia nem mesmo na sua máquina de lavar para iniciar a operação na hora certa.
"Por que todos tentam me deixar assustado com os robôs?", disse ele, rindo. "Não tenho medo dos robôs. Vou vencê-los."
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