A confissão inesperada sobre sequestro que se tornou um dos maiores mistérios da Malásia
Nove anos após o desaparecimento do marido, Susanna Liew conquistou uma vitória judicial histórica em um dos casos mais enigmáticos da Malásia
19:29 | Jan. 12, 2026
Quando Susanna Liew se colocou diante das câmeras de TV na Suprema Corte de Kuala Lumpur (Malásia) em novembro, ela descreveu o momento como um "marco histórico e emocionante".
"Hoje… a Suprema Corte proferiu uma decisão que confirma o que há muito acreditávamos: que o pastor Raymond Koh foi vítima de uma grave injustiça", afirmou a mulher de 69 anos, com a voz trêmula, naquela noite.
Foi uma vitória jurídica duramente conquistada e ao mesmo tempo impressionante em um caso que se tornou um dos maiores mistérios da Malásia.
Quase nove anos antes, o marido de Liew havia sido sequestrado por homens mascarados, em plena luz do dia. O rapto foi registrado por câmeras de vigilância e manteve o país em dúvida por anos.
A Suprema Corte decidiu que a divisão especial da polícia levou Raymond Koh e responsabilizou tanto a polícia quanto o governo da Malásia pelo primeiro caso de desaparecimento forçado da história do país analisado por um tribunal.
Durante anos, Liew lutou para descobrir o que aconteceu com o marido, passando de esposa de um pastor comum para uma ativista incansável.
Ela talvez nunca saiba ao certo por que o seu marido foi levado, mas duas investigações oficiais independentes concluíram que a polícia via o pastor como uma ameaça ao islã, religião majoritária na Malásia.
Em entrevista à BBC pouco depois da vitória judicial, Liew disse que foi movida pela busca por justiça.
"Uma voz [dentro de mim] disse… 'Então eles o levaram em segredo, eu vou contar isso ao mundo inteiro'."
Em 13 de fevereiro de 2017, pouco depois das 10h, o pastor Raymond Koh, então com 63 anos, saiu da casa da família para encontrar amigos.
Quando ele deixava a residência, em um bairro tranquilo de Kuala Lumpur, uma fila de veículos utilitários esportivos e motocicletas avançou rapidamente em direção ao seu carro.
Homens mascarados, vestidos de preto, saltaram dos veículos. Estilhaços de vidro voaram por toda parte quando eles quebraram uma das janelas do carro de Koh e arrancaram o pastor de dentro do veículo. Em seguida, eles o colocaram à força em um dos carros do grupo e fugiram, levando também o carro de Koh.
O sequestro durou apenas alguns segundos. Foi tão dramático que uma testemunha que dirigia logo atrás de Koh afirmou mais tarde que pensou se tratar da gravação de um filme.
Nos dias seguintes, os filhos de Koh bateram de porta em porta em busca de pistas sobre o desaparecimento do pai e descobriram que câmeras de vigilância de duas casas haviam registrado todo o incidente.
Ao assistir às imagens, a família percebeu que não se tratava de um sequestro comum. A ação foi meticulosa e bem coordenada. Além disso, eles não receberam pedido de resgate nem foram contatados por sequestradores.
Alguns meses antes, em novembro de 2016, um ativista chamado Amri Che Mat, do Estado de Perlis, no norte do país, havia sido sequestrado de maneira quase idêntica.
A família de Koh procurou a imprensa, e as imagens das câmeras de segurança se espalharam rapidamente após serem publicadas online por um jornal local.
A pressão da opinião pública por respostas levou a Comissão de Direitos Humanos da Malásia, órgão independente criado pelo Parlamento, a abrir uma investigação. Posteriormente, o governo também instaurou uma apuração separada.
Muitos passaram a especular que a divisão especial da polícia, principal agência de inteligência e segurança interna da Malásia, estivesse envolvida.
A polícia, no entanto, negou qualquer participação, e seu chefe chegou a pedir publicamente que as pessoas "por favor, se calassem" para que as autoridades pudessem investigar o desaparecimento em paz.
Meses depois, ao fim das investigações, a polícia afirmou que Koh havia sido levado por uma quadrilha de tráfico de drogas. Em outro desdobramento, um motorista de Uber chegou a ser preso sob acusação de sequestro, mas a denúncia acabou sendo arquivada. Ambas as linhas de investigação foram posteriormente consideradas não críveis pela comissão de direitos humanos no relatório final do caso.
Enquanto isso, o desaparecimento de Koh cobrou um preço alto da família.
Liew passou a vender joias artesanais para pagar as contas, ao mesmo tempo em que recorreu às economias e a doações para custear a universidade da filha mais nova.
Ela afirma que esperava encontrar solidariedade por parte da polícia. Em vez disso, na noite em que registrou o desaparecimento do marido, diz ter sido interrogada por cinco horas sobre a possibilidade de Koh ter tentado converter muçulmanos ao cristianismo. "Fiquei muito traumatizada."
Mais tarde, durante a audiência da investigação da comissão de direitos humanos, o policial responsável pelo interrogatório declarou que havia recebido ordens de seus superiores para seguir essa linha de apuração porque Koh era pastor.
Em 2011, Koh havia sido acusado de apostasia, abandono público de uma religião ou renúncia da fé, o que é crime em um país de maioria muçulmana como a Malásia, após organizar uma festa em uma igreja da qual participaram também alguns muçulmanos.
Ele foi investigado por autoridades islâmicas, mas nenhuma medida foi adotada. Koh e a família sempre negaram que ele estivesse tentando converter muçulmanos.
Nos anos seguintes ao desaparecimento do marido, afirma Liew, ela sentiu que "a polícia não foi transparente na investigação e, em alguns momentos, chegou a nos atrapalhar na busca pela verdade, criando pistas falsas".
A família sustenta há muito tempo que as teorias apresentadas pela polícia foram tentativas de encobrir o envolvimento das próprias autoridades no sequestro.
A BBC procurou a polícia da Malásia para comentar as acusações. Até a publicação da reportagem, não houve resposta.
À medida que a busca por respostas se arrastava, todos na família passaram a enfrentar quadros de depressão, diz Liew. Ela ainda sofre de crises de pânico e transtorno de estresse pós-traumático.
Mas então houve uma reviravolta.
O carro e a confissão
Numa noite de maio de 2018, um homem apareceu na casa de Norhayati, esposa de Amri Che Mat, o ativista que havia sido sequestrado em 2016.
Identificando-se como sargento da polícia, ele trouxe uma informação chocante: a divisão especial da polícia da Malásia havia, de fato, sequestrado o marido dela (Amri Che Mat) e também Raymond Koh.
Segundo o policial, a polícia acreditava que Koh tentava converter muçulmanos ao cristianismo e que Amri Che Mat estava difundindo o islamismo xiita, proibido na Malásia, país de maioria sunita.
O sargento da polícia afirmou que decidiu contar o que havia acontecido porque considerava errado o que a divisão especial tinha feito.
O relato de Norhayati sobre essa confissão foi investigado pela comissão de direitos humanos e acabou considerado crível. Embora o sargento tenha negado posteriormente ter feito a confissão, a comissão concluiu que a negativa estava repleta de inconsistências.
Depois, surgiu um carro dourado.
Uma testemunha do sequestro de Koh relatou ter visto um Toyota Vios dourado, um veículo semelhante havia sido avistado perto da casa de Amri Che Mat antes de seu desaparecimento. O sargento também mencionou a presença de um carro dourado nos dois sequestros.
Os investigadores da comissão de direitos humanos rastrearam o veículo até um homem em Kuala Lumpur que trabalhava para a divisão especial.
Em abril de 2019, a comissão concluiu que a divisão especial foi responsável pelos sequestros de Raymond Koh e Amri Che Mat. Segundo o relatório, os dois homens foram "alvos das autoridades religiosas e da polícia por alegações de envolvimento em atividades contrárias ao islã na Malásia".
O documento chocou os malaios, e parte da população passou a exigir responsabilização. Meses depois, o governo abriu sua própria investigação, cujo conteúdo só se tornou público após Liew e Norhayati entrarem na Justiça para ter acesso aos dados.
A investigação governamental chegou a uma conclusão semelhante, atribuindo o caso a "policiais desonestos e irresponsáveis".
O relatório também apontou um "principal suspeito": Awaludin bin Jadid, alto funcionário da divisão especial que chefiava a unidade responsável por combater o extremismo social. O texto registra que ele tinha "visões extremas" contra o islamismo xiita e o cristianismo e que, em discursos públicos, retratava ambas as religiões como ameaças ao islã.
A BBC tentou contato com Awaludin, hoje aposentado, para comentar as conclusões. Até a publicação da reportagem, não houve resposta.
Anteriormente, Awaludin havia negado qualquer envolvimento no desaparecimento de Amri Che Mat e afirmou que a força-tarefa governamental responsável pelo relatório era "tendenciosa" contra ele.
Em 2020, Liew entrou com uma ação civil em seu nome e no do marido desaparecido contra vários altos oficiais da polícia, a Polícia Real da Malásia e o governo do país.
Ela os responsabilizava pelo desaparecimento forçado de Koh — que envolve o sequestro e a ocultação de seu paradeiro — e exigiu que revelassem onde ele está.
No mês passado, um juiz da Suprema Corte concluiu que, entre os oficiais de polícia citados na ação e a Polícia Real da Malásia, "um ou mais" foram responsáveis pelo sequestro de Raymond Koh e por uma "conspiração que resultou em danos".
Como se tratava de funcionários públicos atuando sob a autoridade do Estado, "o governo deve responder pelos danos causados" e, portanto, tinha "responsabilidade indireta", afirmou o juiz.
Além de conceder a Liew uma indenização de vários milhões de ringgits (moeda oficial da Malásia) por danos emocionais, o juiz determinou o pagamento de 10 mil ringgits (cerca de R$ 11 mil) por cada dia de desaparecimento a um fundo fiduciário até que seu paradeiro seja revelado.
Até o momento, esse valor já ultrapassou 32 milhões de ringgits (cerca de R$ 35 milhões), e o montante final deve se tornar a maior indenização da história da Malásia. Os recursos do fundo, que só serão liberados quando o paradeiro de Koh for divulgado, provavelmente irão para Liew e seus filhos.
Norhayati, que também entrou com uma ação judicial, venceu o processo e recebeu uma indenização de vários milhões de ringgits.
O governo, no entanto, recorre das decisões, alegando haver "questões relacionadas a obrigações financeiras" e a necessidade de "defender o princípio da justiça universal".
Também afirmou que a polícia segue investigando os sequestros.
A BBC procurou a polícia para comentar o veredicto. Até a publicação da reportagem, não houve resposta.
'Paralisados pelo luto'
Liew espera que o governo desista do recurso. "Eu me sentiria muito cansada se tivesse de passar por tudo isso novamente", disse à BBC.
A família já está exausta pela "incerteza de não saber onde o pastor Raymond está… é como se estivéssemos paralisados pelo luto e não conseguíssemos seguir em frente".
"Se soubéssemos que ele está morto e tivéssemos o corpo, ao menos poderíamos enterrá-lo e seguir. Mas, neste momento, estamos em um limbo. Não sabemos: ele está morto ou vivo? E isso nos afeta muito."
Liew se emocionou ao pensar na possibilidade de o marido estar morto. "Vai ser muito difícil aceitar isso", afirmou, acrescentando que "quer manter a esperança" de que o marido esteja vivo.
Mas o tempo tem ajudado a família a se recompor. Inspirada pelos terapeutas que a ajudaram a enfrentar a depressão, Liew vem se preparando para se tornar uma terapeuta.
Contar sua história também foi uma "catarse", disse. Ao longo dos anos, ao viajar pelo mundo para chamar atenção para o caso do marido, ela se tornou uma crítica contundente dos desaparecimentos forçados. Em 2020, os Estados Unidos concederam a ela a medalha internacional Mulheres de Coragem.
"Eu nunca imaginei que estaria neste lugar. Oito anos atrás, eu era apenas uma dona de casa e uma pessoa discreta", disse.
Liew também chegou a um momento de virada no plano pessoal: ela perdoou os homens que acredita terem levado o seu marido.
Durante o julgamento, ao ver os réus da ação prestarem depoimento, no início "eu sentia vontade de apertar o pescoço deles. Eu estava com raiva".
"Mas percebi que, quando fiquei frente a frente com o principal suspeito, não senti ódio… Quero estar realmente correta e pura diante de Deus, sem nenhuma sombra ou escuridão na minha vida."
O perdão, no entanto, não significa que ela vá interromper a busca por justiça.
Ela agora pede que as autoridades criem um órgão disciplinar para fiscalizar a conduta policial, além de uma comissão de inquérito e uma força-tarefa para identificar todas as pessoas envolvidas no sequestro do marido.
Até agora, nenhum dos policiais citados na ação judicial foi preso ou punido. Um deles chegou a ser promovido.
"O que realmente queremos é que a verdade e a justiça prevaleçam, que os responsáveis sejam responsabilizados e que possamos ter um encerramento adequado", afirmou. "Isso significa saber onde está o pastor Raymond Koh."