Agência BBC

'Trump não deve usar sanção na eleição brasileira. Ambiente cordial com Lula é verdadeiro', diz ex-diplomata dos EUA

Em entrevista à BBC News Brasil, Ricardo Zuniga, ex-cônsul americano em SP e e ex-conselheiro para Américas de Barack Obama diz achar que EUA devem 'apoiar um candidato' na eleição brasileira, como fizeram em eleição recente em Honduras, mas que 'Brasil é mais complexo em seu contexto político doméstico'.

06:48 | Jan. 09, 2026

Por: Luiz Fernando Toledo - Da BBC News Brasil, em Londres

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A resposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao ataque dos Estados Unidos à Venezuela só veio sete horas depois da operação que prendeu Nicolás Maduro.

Lula disse que a ação ultrapassou uma linha inaceitável e falou em um "precedente extremamente perigoso" para a comunidade internacional.

A reação crítica de Lula ocorre justamente em um momento em que sua relação com o presidente americano parecia estar melhorando, depois de um tarifaço, sanções a ministros do STF e declarações críticas ao Brasil.

Em entrevista à BBC News Brasil, o ex-diplomata dos EUA Ricardo Zuniga diz que acha improvável que os EUA apliquem qualquer tipo de sanção ao Brasil no ano eleitoral e que a reação de Lula ao ataque à Venezuela era esperada.

Mas faz um alerta: o governo brasileiro deve atuar com calma e reconhecer que a situação com os EUA mudou.

Ao longo de três décadas, Zuniga atuou como diplomata dos EUA e ocupou cargos de chefia em embaixadas nas Américas e na Europa, incluindo um período de cinco anos como cônsul-geral dos EUA em São Paulo. Ele foi ex-secretário assistente adjunto principal no Departamento de Estado para o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental na gestão de Joe Biden e foi conselheiro para Américas de Barack Obama de 2012 a 2015.

Leia a entrevista a seguir.

Arquivo pessoal
O ex-cônsul dos EUA em São Paulo, Ricardo Zuniga

BBC News Brasil: O presidente Lula condenou esse ataque à Venezuela, disse que é inaceitável e que gera um precedente perigoso. Na sua avaliação, isso pode estremecer as relações entre o Brasil e os Estados Unidos de novo?

Ricardo Zuniga: A postura que ele anunciou é bem conhecida por parte do Brasil, em diferentes governos. Uma posição conhecida quando se está falando de intervenção na América do Sul.

Governos de centro, direita, de esquerda, mais ou menos, como forma estratégica, são contra utilização de forças estrangeiras na América do Sul.

Neste momento, a verdade é que o presidente Trump nem deve ter percebido essa reação.

Claudia Sheinbaum (presidente do México), uma figura relevante para o Trump em termos de proximidade, também condenou (a prisão de Maduro), mas com mais cautela, porque ela tem que manter uma relação muito mais próxima com os EUA do que com o Brasil.

Pode haver, sim, um efeito negativo. Mas o Brasil tem que balancear muitos interesses. Um deles é a questão de quem está controlando o governo em Caracas e como chegaram a esse controle.

Ninguém vai lamentar a saída do Maduro. Isso é outra verdade. A forma como foi feito está levantando dúvidas, no entanto, em outras partes do mundo.

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Lula afirmou que atos dos EUA 'representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional'

BBC News Brasil: A reação na Europa, de países como Reino Unido, Alemanha, França, foi mais cautelosa. Como interpretar essa cautela?

Ricardo Zuniga: A Europa tem que se preocupar com um possível ataque contra a Groelândia e Dinamarca. Eles não vão lamentar a saída de Maduro; também estavam contra ele e têm forte interesse numa mudança política na Venezuela. Boa parte da droga que sai da Venezuela vai para a Europa.

É também por causa do momento.

Eles estão focados em avaliar se vale a pena criticar os Estados Unidos quando existe um problema muito mais sensível e grave para eles dentro de casa.

BBC News Brasil: Trump voltou a falar de Groelândia, fez ameaças à Colômbia e Cuba. É possível que haja uma onda maior de intervencionismo por parte dos EUA?

Ricardo Zuniga: Oliver Stuenkel [analista político e professor da FGV] fez uma observação muito astuta de que os governos democráticos também têm que se preocupar com a possibilidade de um ataque dos Estados Unidos, tanto quanto os governos autoritários.

Isso representa uma mudança no cálculo dos governos em toda a região.

Os interesses dos Estados Unidos aparecem claramente em mensagens públicas da Casa Branca, como a afirmação de que "the Western Hemisphere is ours", ou seja, "o Hemisfério Ocidental é nosso".

É uma mensagem muito diferente de dizer que são parte das Américas e do hemisfério ocidental e que vão trabalhar para assegurar [estabilidade].

A interpretação correta é que os Estados Unidos estão preparados para atuar de forma bélica para proteger e avançar os seus interesses, sejam ou não conforme os interesses dos seus aliados.

Isso é algo muito novo.

BBC News Brasil: Temos eleição no Brasil em 2026. Há alguma chance de Trump tentar influenciar eleições no país ou em outros da América Latina?

Ricardo Zuniga: Ele obviamente interferiu em Honduras e vai interferir em outras. Ele vai tentar, provavelmente no caso da Colômbia, apoiando a oposição de direita.

É possível que ele faça a mesma coisa no Brasil.

Devo dizer: esse ambiente cordial entre o presidente Lula e Trump é verdadeiro também. E ele é uma pessoa guiada pelas relações pessoais que ele tem.

Então é possível que [a tentativa de influenciar a eleição] não tenha a mesma forma.

No Brasil este vai ser um fator na campanha, mas há outros fatores que poderiam ser muito mais importantes que essa relação.

BBC News Brasil: Que tipo de influência eleitoral podemos esperar?

Ricardo Zuniga: Eu duvido muito que os EUA utilizem algum tipo de sanção, no contexto atual, nas eleições brasileiras.

Pelo que estão fazendo em outros países, é possível que apoiem um candidato ou outro. Isso é uma grande possibilidade no Brasil.

Mas o Brasil não é Honduras. Os eleitores vão ter uma atitude diferente.

Sem dúvida, [o apoio de Trump] ajudou o candidato que ganhou as eleições em Honduras, mas o Brasil é mais complexo em seu contexto político doméstico.

(Trump apoiou publicamente o candidato conservador Nasry "Tito" Asfura, que foi declarado vencedor da eleição presidencial de Honduras em dezembro de 2025, após controversa apuração dos votos que se arrastou por mais de três semanas.)

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Apoiado por Trump, o conservador Nasry "Tito" Asfura foi declarado vencedor das eleições de Honduras em 2025

BBC News Brasil: Se a intervenção na Venezuela não der certo, qual é o risco para a imagem de Trump?

Ricardo Zuniga: O caso da Venezuela já é muito positivo para Trump.

Ninguém está falando do caso de Epstein. Ninguém está falando da elevação do custo da saúde pública, do seguro de saúde para os americanos. Isso, sim, é muito importante.

E a Venezuela não importa muito para a população dos EUA. Eles não têm nenhum interesse.

Mas a verdade é que é muito impopular a ideia de intervenção.

Ele ganhou (as eleições) com o argumento de que os democratas queriam colocar os Estados Unidos em mais conflitos internacionais e que ele era o presidente da paz.

Ele fala de conflitos que resolveu e queria até o Prêmio Nobel. Mas a verdade é que ele também liderou intervenções em seu primeiro ano e começou 2026 com uma invasão, um ataque à Venezuela.

Essa ideia de manter uma política quase colonial nas Américas também é impopular nos EUA. Há apoiadores que eram contra conflitos internacionais e agora os apoiam por serem liderados por Trump.

Mas uma importante parte de seus eleitores é contrária a qualquer intervenção, ainda mais se for para favorecer empresas petrolíferas. É um erro doméstico.

BBC News Brasil: É viável atrair capital privado para a Venezuela neste momento?

Ricardo Zuniga: O secretário de Estado, Marco Rubio, falou de um período de três fases.

Primeiro: estabilizar o país trabalhando com os governantes atuais. Segundo, melhorar a condição na economia, principalmente no setor energético. E terceiro, no final de tudo, seria uma transição política.

A verdade é que seria difícil levar a cabo uma transição política na Venezuela por razões que todo mundo sabe. É um regime que não quer mudar.

Mas a capacidade de influência dos Estados Unidos neste momento é enorme.

Podemos ver isso com o anúncio de que a Venezuela vai ceder 50 milhões de barris de petróleo para os EUA distribuírem.

Isso é uma mensagem muito clara de que as autoridades querem negociar com os Estados Unidos e ceder.

O que não vai ser fácil é que essas autoridades cedam o poder. O que vemos agora na rua é uma repressão contra a oposição, jornalistas, qualquer pessoa que, na visão deles, favoreceu o ataque contra Maduro.

BBC News Brasil: Essa forma de intervenção na Venezuela é diferente de outras, sem uma ocupação de território. É um aprendizado dos EUA com outros episódios?

Ricardo Zuniga: Foi um ataque espetacular, com o objetivo de capturar uma pessoa. E conseguiram.

É uma operação que será analisada não só na Venezuela, mas também em Cuba, Nicarágua, na Rússia, na China.

Puderam ver que a capacidade militar dos Estados Unidos se mantém enorme.

O que os EUA conseguiram com isso? Uma relação com o mesmo regime, agora com mais influência. Mas não sabemos o que acontece agora, como isso vai acabar.

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Delcy Rodríguez fez parte do núcleo de poder de Maduro

BBC News Brasil: A ONU diz que a operação dos EUA violou, de forma clara, um princípio fundamental do direito internacional. Como fica o papel da ONU nesse conflito?

Ricardo Zuniga: As Nações Unidas não importam para os Estados Unidos neste momento.

Essa é a política deles, a estratégia internacional apresentada pela administração. Fica muito claro que eles vão fazer o que estiver dentro de sua capacidade militar e a lei não importa.

BBC News Brasil: Há análises de que a prisão de Maduro e a intervenção na Venezuela indicam uma estratégia de Trump para reforçar o controle dos EUA sobre a América Latina, deixando a Ásia para a China. Essa leitura faz sentido?

Ricardo Zuniga: É um olhar do século 19. O fundamento do pensamento do presidente Trump. Ele tem a visão de que o século 19 foi o século dourado dos EUA, com controle continental.

Ele acha que essa foi a melhor época dos Estados Unidos e está recriando isso agora.

Não há dúvidas de que o objetivo da administração Trump é desmantelar o sistema de alianças dos Estados Unidos e impor esse mundo dividido em três partes: uma parte para os Estados Unidos, outra para a Rússia, outra para a China.

Isso não condiz com os interesses do país moderno que são os EUA, que têm interesses fortes em nível mundial.

A economia não é a que existia no passado e os Estados Unidos não podem viver num mundo de hostilidades permanentes, nem com os vizinhos nem com os parceiros a nível global.

Essa agressividade e esse tom, que são emblemáticos desta administração, não são sustentáveis para além da administração do presidente Trump.

O fato de os Estados Unidos serem um ator dominante não quer dizer que eles podem atuar sem freios no mundo inteiro.

Precisam de amizades, de parceiros verdadeiros, não só de países que têm medo dos Estados Unidos.

Eles ainda não entendem isso e não vão entender.

A Otan é o centro disso. Querem desmantelar a Otan porque consideram a Europa como um adversário cultural. Do mesmo nível que a Rússia. Mas a grande maioria das pessoas na elite americana não acredita nisso.

Essa vai ser a parte mais difícil de comunicar ao mundo após este governo. Que jamais voltaremos ao mundo de antes de Trump. Mas também os EUA não serão os mesmos depois dele. Não seria sustentável.

Para Trump, acho que o longo prazo não é importante. Ele quer obviamente incrementar a riqueza dele e de seus amigos e vai conseguir isso.

Está desmantelando as amizades tradicionais dos EUA e dominando o cenário político no seu país. Para ele, as coisas vão muito bem.

Mas essa visão dele vai contra o sentimento público. A aprovação dele neste momento é muito baixa. Ele não tem o apoio da população.

BBC News Brasil: Alguns analistas avaliam que a China poderia se aproveitar dessa situação para isolar os EUA e se apresentar como parceira confiável. Como avalia isso?

Ricardo Zuniga: A China já está fazendo isso. É a política estratégica apresentada pela China em 2025 para as Américas. Foi para contrastar com os Estados Unidos que eles estão se apresentando como o sócio, o parceiro confiável.

E a verdade é que, para muitos países, essa vai ser a mensagem que estão recebendo dos EUA.

Esse enfoque dos EUA em sua capacidade coercitiva, bélica, esse tom, no curto prazo, vai influenciar de forma impressionante nas Américas.

Países vão ter de evitar conflito com os EUA. Vão se conformar até certo ponto com as políticas da administração Trump.

Mas todos sabemos que, a longo prazo, quando um país é visto como ameaça estratégica, os outros países procuram outros sócios como resposta. É um risco enorme para os EUA, que outros países os vejam com risco elevado e a China, como parceiro preferencial, estável e confiável.

A China, neste momento, tem um argumento muito forte.

BBC News Brasil: No caso da Rússia, o senhor espera alguma reação também?

Ricardo Zuniga: Primeiro houve um choque com a capacidade militar dos EUA de levar a cabo tudo isso. Eles têm de reconhecer essa capacidade militar forte.

Ao mesmo tempo, para eles, um mundo dividido, onde os EUA já não têm essa capacidade global, em que estão em conflito com antigos aliados, é um mundo bom para a Rússia. Onde eles podem operar, de forma estratégica, favorável em comparação aos EUA.

O problema é que essa administração [dos EUA] confunde o medo com a influência. Os EUA podem causar medo aos outros. Mas qualquer país precisa de amigos, não de reféns.

BBC News Brasil: Voltando ao tema inicial da conversa para encerrarmos, qual é a forma ideal do Brasil lidar com este conflito na região?

Ricardo Zuniga: Com calma e dentro do marco da política histórica do país. Mas também reconhecendo que a situação mudou no momento. Têm de ser muito pragmáticos.

Por exemplo: o Brasil é uma potência no âmbito mineral. Deveria procurar uma relação, neste momento, preferencial com os EUA.

Estados Unidos procuram e precisam ter acesso a minerais que o Brasil tem.

A China é uma competidora do Brasil no âmbito mineral. Ter uma formação pragmática sempre vai ser o melhor. Ficar fora do combate político, não ser um fator político nos EUA.

Eu fui diplomata por muito tempo, cinco anos no Brasil. Os meus esforços sempre foram para deixar os Estados Unidos fora do debate político no Brasil. Serem só um ator internacional, um parceiro internacional.

Para o Brasil, essa é a linha a seguir. E acho que estão tentando fazer isso.

Obviamente, o que acontece na Venezuela é muito importante para o Brasil, por causa da fronteira. Não é uma questão apenas política, mas prática também.

O Brasil tem o direito de se preocupar com o que acontece com o vizinho. A dinâmica regional vai ser muito importante e o Brasil é o ator mais importante nessa questão.