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Sentença bomba-relógio

17:00 | 15/07/2017

A semana foi cheia de fatos dolorosos: a condenação do ex-presidente Lula pelo juiz Sérgio Moro, a aprovação da reforma trabalhista neoliberal e a negação da abertura de investigação de Michel Temer pela Comissão de Constituição de Justiça (CCJ), na Câmara dos Deputados. Nenhum dos três episódios unifica o País: antes, aprofunda sua divisão. No primeiro caso, o que se viu foi a condenação, sem provas consistentes, do líder popular mais importante da atualidade. Ora, um dirigente político de grande envergadura não é apenas um indivíduo, mas representa um coletivo, alguém que é referencial para tomada de decisão de uma sociedade inteira, cujo papel é fundamental para dar coesão e direcionamento à própria Nação. Quando falta, abre um vácuo na sociedade. No caso em vista, há a questão adicional de se tratar de um declarado postulante à cadeira presidencial e líder nas pesquisas de opinião. Por isso, as provas que acompanham a condenação requerem uma consistência inquebrantável, que não deixe lugar a dúvidas. E essa condição não foi preenchida pelos acusadores. O pior para a paz pública é deixar instalada na cabeça de muitos a suspeição de que foi cometida uma injustiça por motivos políticos. Uma potencial bomba-relógio a explodir em algum momento. Um dia a burguesia vai ter saudades de um líder popular moderado como Lula.

REFORMA TRABALHISTA

Pouca gente – até entre as próprias centrais sindicais – nega a necessidade de uma adequação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) às transformações ocorridas na sociedade contemporânea, no que tange à forma de organização do trabalho, trazidas pelo desenvolvimento da tecnologia. Isso afetou a própria relação dentro do mundo do trabalho. A sociedade brasileira, que já caminhava em direção a uma proposta equilibrada, foi atropelada pelo radicalismo da proposta atual, aproveitando-se da deposição da presidente Dilma Rousseff. Ora, é preciso ter bom-senso da parte do mercado. Este se aproveita de um momento de enfraquecimento das organizações laborais (em decorrência da crise) para impor seu próprio modelo, que será fonte constante de conflitos e que prejudicará os próprios empresários, devido a consequente retração do poder aquisitivo dos trabalhadores.

 

OVELHAS

Já a negação da CCJ ao pedido da PGR para investigar Temer é mais um desses episódios degradantes que o Parlamento brasileiro vem protagonizando, sem nenhum pudor, nos últimos anos, perante os olhares impotentes da sociedade. Algo só visto em banana republics. Entretanto, não se ouve uma única batida de panela como as que acompanhavam os pronunciamentos de Dilma Rousseff, uma mulher digna e honesta. A opinião pública parece dopada, caminha para o matadouro como um rebanho de ovelhas, sem emitir um único balido. Passividade que vai exigir incontáveis explicações dos estudiosos nos anos vindouros.

 

REFERÊNCIA

Sim, provavelmente, ainda teremos de conviver com o capitalismo por um longo período histórico – até que o socialismo possa brotar de suas entranhas (como previa Marx). Mas, isso estará longe significar rendição ao neoliberalismo, mas, adequação das táticas dos partidos progressistas a esse dado da realidade. Até lá, a luta será para reconquistar o Estado de Bem-Estar Social, aprofundar a democracia e obter o máximo de conquistas para o andar de baixo, e não apenas através das urnas, mas também nas ruas e fábricas. Desde que o Consenso de Washington retomou o capitalismo selvagem do século XIX (neoliberalismo), esse programa mínimo se impõe, com os acréscimos de cada realidade nacional. Se é prematuro romper com o capitalismo, enquanto este dominar as relações mundiais, resta lutar para submetê-lo, ao máximo, aos interesses da maioria social. O papel dos partidos ainda é indispensável para a realização desse programa. A propósito, em 3/5/2003, esta coluna trazia o seguinte intertítulo:

TÁTICA E ESTRATÉGIA

“Partido é uma organização destinada à conquista do poder político. Ele tem um programa máximo, onde são expostos os princípios doutrinários e os objetivos estratégicos que persegue (no caso do PT, o fim último é a construção de uma sociedade socialista). Contudo, para atingir esse objetivo ele tem de lançar mão de meios táticos, adequados a cada situação, pois a realidade social não é estática. Assim, um partido necessita também de um programa mínimo para atender às realidades conjunturais (aí é que entra a política de alianças). Ele deve ser inflexível nos princípios, mas maleável na tática. Sempre houve tensão entre maximalistas (guardiões do programa máximo) e minimalistas (articuladores do programa mínimo, isto é, da tática adequada a cada situação) e é essa tensão que enriquece a vida partidária. Os maximalistas estão sempre vigilantes para que os minimalistas não neguem os princípios. Os minimalistas, por sua vez, estão atentos para que a fidelidade principista não seja confundida com imobilidade tática. Quem não tem a dialética como instrumento de análise se perde ao confundir alho com bugalho, isto é, confunde os dois momentos da ação partidária: o tático e o estratégico”.