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O machismo na segurança pública

01:30 | 10/07/2017

Há um componente pouco observado quando nos deparamos com as elevadas estatísticas de assassinatos no Ceará: vivemos em uma cultura onde os conflitos são solucionados muitas vezes por atos violentos em vez de práticas conciliatórias. Os estudiosos sobre o tema ressaltam que a violência pode ser um elemento importante na formação pessoal, possuindo valor simbólico e cultural de pertencimento a um grupo. Em um contexto impregnado pela violência, agir de modo violento pode vir a ser uma ação de reforço de uma determinada identidade social.

A antropóloga Alba Zaluar constatou a existência de um “ethos guerreiro” ou “ethos da masculinidade” entre os jovens envolvidos com o narcotráfico no Rio de Janeiro. De maneira bem rudimentar, ethos pode ser definido como os costumes e hábitos fundamentais e comportamentais de uma cultura. Portar arma, resolver as “tretas” por meio da imposição da violência e o destemor em matar ou morrer seriam, portanto, traços constituintes de “ser homem” em tais contextos sociais. Há um elemento explícito de exacerbação da masculinidade em tais práticas a ponto de o revólver na cintura ser considerado como um símbolo fálico e uma mostra inequívoca de poder.

Em nossa cultura, é possível identificar traços ancestrais dessa hipermasculinidade na figura do sertanejo como cabra valente e destemido que não leva desaforo para casa e não se sujeita às ordens de ninguém. Trata-se de um ethos incorporado desde cedo: quando o beijo no pai passa a ser malvisto pela família, nas manifestações de valentia nos corredores da escola ou na delimitação entre coisas de “homem” e coisas de “mulherzinha”. O filme Moonlight, vencedor do Oscar deste ano, ilustra perfeitamente o que quero dizer.

Ao fim e ao cabo, o machismo é uma prática que mata as pessoas tanto simbólica quanto fisicamente. O ódio às diferenças é um exemplo bem-acabado de como uma cultura machista é, no fundo, assassina.

Dandara, Ketlin, Hérica e Salomé são nomes que provam o quanto a nossa sociedade não sabe acolher quem pensa e age de modo diferente.

Todas morreram simplesmente por ser quem eram. Segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), o Brasil é o País em que mais se matam travestis e transexuais no mundo.

O Estado tem um papel fundamental tanto na erradicação de práticas machistas no seio da sociedade quanto na constituição de sociabilidades não-violentas. Para tanto, é preciso propor e fortalecer políticas de igualdade de gênero e de combate ao preconceito sexual. Dois passos nesse sentido foram dados pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) ao abrir a possibilidade de que travestis sejam atendidas na Delegacia da Mulher e, principalmente, pelo acerto firmado para a criação de um Comitê de Segurança Pública para a população LGBT. Mas tudo isso é ainda muito pouco diante da tarefa gigantesca que é a de transformar uma cultura.

Nesse processo de mudança, os agentes estatais têm de ser os primeiros a dar o exemplo. Não é mais possível que o debate político seja uma disputa entre quem é “valente” e quem é “frouxo”, bem como também não serão demonstrações de virilidade nas redes sociais que irão resolver a questão. Segurança Pública é um tema por demais complexo para ser tratado apenas com voluntarismo ou gestos heroicos.

É preciso ainda que o machismo seja combatido nas instituições policiais e que o uso da violência seja visto como um recurso a ser empregado em situações críticas e não como mera demonstração de poder e de exacerbação da masculinidade. Mais que o emprego da força física, a Inteligência tem se mostrado uma ferramenta mais decisiva na redução dos homicídios em todo o mundo.

O que mais vemos, contudo, é a disseminação de um discurso belicoso na busca de mostrar quem manda mais: se é a polícia ou se são os bandidos. Embora possa ter efeitos midiáticos e políticos, tal postura pouco afeta as estruturas socioculturais que alimentam a criminalidade.

Pelo contrário, uma política de segurança pública “machista” só acirra ainda mais o “ethos guerreiro” da própria população que passa a ver no uso indiscriminado de métodos violentos contra as populações mais vulneráveis a solução final para a insegurança que vivemos. A construção de uma política de segurança pública menos machista passa pela escuta das mães, irmãs e esposas de quem morre nessa guerra sem fim. Somente com a ajuda delas podemos encontrar um caminho para sairmos dessa espiral de violência.