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FHC, a pinguela e o governo Temer

01:30 | 17/06/2017

FHC está tão perdido quanto a pinguela de Michel Temer, apelido dado pelo tucano à ponte para o futuro do peemedebista no já distante dezembro de 2016. Naquele momento, o ex-presidente criou uma metáfora para se referir a um governo cujo propósito era servir como travessia para sair da crise política, institucional e econômica na qual a antecessora Dilma Rousseff (PT) havia mergulhado o País.

Pelo menos esse era o pretexto oficial alegado para apoiar Temer, que só chegou aonde chegou com o suporte do PSDB. Logo, tucanos e peemedebistas estão, desde o início, imbricados no processo de impeachment e na manutenção da agenda que se seguiu - reformas, sim, mas também as investidas contra a Operação Lava Jato (a cabeça de Aécio Neves hoje é moeda de troca com o PMDB).

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Passou-se pouco mais de um ano, e a tempestade perfeita, responsável pela queda da petista (manifestações, crise e falta de apoio parlamentar) continua a assombrar o novo ocupante do Planalto. Mas, diferentemente de então, FHC já minimizou a pinguela. Disse que não era para tanto. Depois voltou usá-la, como fez antes de ontem, quando enviou nota à Agência Lupa comentando a decisão do próprio partido de continuar na base de Temer, tomada na última segunda-feira.

Nela, Fernando Henrique diz que “preferiria atravessar a pinguela, mas, se ela continuar quebrando, será melhor atravessar o rio a nado”. E acrescenta que Temer perdeu condições de governar para, em seguida, pedir que o presidente faça um gesto de grandeza, que seria a convocação de eleições diretas. É fato novo no PSDB, que vem adiando o desembarque do governo.

FHC: ex-presidente faz sua aposta na saída do governo
FHC: ex-presidente faz sua aposta na saída do governo

Ora, FHC não estava na reunião da sigla, quando se confrontaram os “cabeças-pretas” (na maioria deputados federais) e os “cabeças-brancas” (senadores e também governadores), mas ele sabe que as reformas trabalhista e da Previdência foram para as cucuias - Temer não irá aprová-las agora, ainda no primeiro semestre, e terá dificuldades para levar essa agenda adiante a partir de agosto, quando a queda de braço com o procurador-geral da República Rodrigo Janot entrará na sua fase mais aguda.

De modo que, quando condicionam sua permanência à estabilidade econômica, os tucanos acenam para algo impalpável na esperança de que o tempo passe e com ele se resolva um impasse que paralisa a legenda hoje: ficar ou sair? Por maioria, o partido decidiu ficar, mas com um pé fora. É exatamente nesse pé do lado de fora que FHC parece ter começado a apostar a partir desta semana.

O ex-presidente não defendeu a convocação de eleições diretas à toa. E seu site não lançou a campanha virtual #voltaFHC por acaso. Tampouco endossou o nome de Tasso Jereissati de graça - o senador cearense tem posição similar à do ex-presidente. FHC sabe que o governo, embora tenha maioria na Câmara para rejeitar uma denúncia oferecida por Janot, já acabou. E que a tendência é que essa agonia se arraste até o ano que vem, como ocorreu com Dilma, cuja via-crúcis se prolongou por muitos meses antes do baque final, sozinha no seu bunker palaciano. Temer vem repetindo cada passo da ex-aliada com acentuado rigor. E talvez não possa mesmo escapar ao mesmo final da petista.

A CULTURA SOB TEMER

O governo Temer já pode se orgulhar de uma marca: nunca antes um presidente demonstrou tanto desapreço pela cultura. A contar pelo número de ocupantes que passaram pelo Ministério da Cultura (MinC) desde o início do governo, pelo menos. Mas não é apenas. O cartão de visitas do presidente foi a extinção da pasta, depois recriada, mas como secretaria - que seria ocupada meteoricamente por Marcelo Calero, o mesmo que, em poucos meses, se desentenderia com o também ministro Geddel Vieira Lima por causa de interesses relacionados à construção de um prédio na Bahia. Depois de Calero, veio Roberto Freire, cuja grande obra à frente do Ministério foi o gesto de deselegância com o escritor Raduan Nassar. Também pediu para sair. Em seu lugar, assumiu interinamente João Batista Andrade, que ontem enviou carta ao presidente dizendo que não fica mais. Motivo: corte de quase 50% do orçamento do MinC. 

 

Henrique Araújo

Jornalista, editor-adjunto de Conjuntura do O POVO

Escreve esta coluna interinamente de terça a sábado