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A surpreendente criatividade criminosa

01:30 | 18/03/2017

O Brasil não para de surpreender pela diversidade de ramos em que produz escândalos. Já houve punhado de casos de leite e de suco contaminados até com soda cáustica. Dessa vez, um dos mais caros produtos da refeição está envolvido em assustadora sequência de irregularidades. Foi identificada, segundo a Polícia Federal, carne estragada e contaminada com bactérias, uso de produtos químicos para maquiar o cheiro de podre, água injetada para aumentar o peso. Até produtos para merenda escolar foram adulterados. Não havia limites na atuação dessa gente.

Esse escândalo afeta a população de maneira particularmente sensível. As pessoas até ficam indignadas com casos de corrupção como os revelados na Lava Jato. Porém, não é tão palpável a forma como o dia a dia é afetado. No caso da operação Carne Fraca, creio que todo consumidor de carne ficou a se perguntar se chegou a comer os produtos nos quais foram constatados problemas.

Não se trata de empresas de fundo de quintal. São potências econômicas, que produzem para o mercado internacional. Como ocorre na Lava Jato, potências do setor privado nacional se veem envolvidas num esquema constrangedor para ludibriar o consumidor. Como consequência, risco à saúde de quem cometeu o desatino de comprar a porcaria que, conforme as investigações, estava sendo vendida como produto de grife.

Gigantes do mercado brasileiro não se consolidaram pela qualidade do que fazem. Os estratagemas para crescer e dominar o mercado são diversos. Muitos à margem da legalidade. Isso é amadurecimento que as mais recentes operações contra a corrupção tem explicitado: não só o setor público é corrupto. E raramente os desvios dos governos ocorrem sem conluio com a iniciativa privada. Pelo contrário, a forma de consolidação dos grandes negócios particulares no Brasil muitas vezes passa pela relação parasitária com o poder público.

No caso da Carne Fraca, parte central do esquema é a corrupção dos fiscais. O esquema é privado, mas dependia de conivência criminosa dos agentes estatais. Talvez aí esteja parte da explicação para a generosidade eleitoral de algumas das empresas envolvidas. Não necessariamente por fraude, mas seguramente pela busca de boas conexões.

RELAÇÕES POLÍTICAS

Parte da propina paga pelas empresas ao Ministério da Agricultura abastecia PMDB e PP, segundo a Polícia Federal. Os investigadores disseram não saber as razões para os partidos receberem favorecimento pela fraude na comercialização de carne. É assunto que merece ser bem aprofundado. Pode ser o fio de uma meada bastante perigosa.

FRIBOI E OS POLÍTICOS DO CEARÁ

A JBS, dona da marca Friboi, é uma das maiores doadoras de campanhas eleitorais pelo Brasil. E no Ceará também.

Na campanha de 2014, foram R$ 7,3 milhões para a campanha do hoje governador Camilo Santana (PT). E R$ 3,5 milhões para a candidatura do hoje presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB).

As doações não significam, em absoluto, que tenha havido irregularidade. Até onde se sabe, não há qualquer indicação disso. Mas, são sintomáticas das relações políticas que a empresa busca estabelecer no plano local.

ANTONIO CRUZ/AGÊNCIA BRASIL
ANTONIO CRUZ/AGÊNCIA BRASIL

PREOCUPAÇÕES E PRIORIDADES

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi (foto), demonstrava preocupação ontem com o posicionamento do Brasil no mercado internacional. Claro que o impacto econômico é relevante, mas pega mal o responsável pelo setor no Brasil demonstrar como prioridade a forma como tão grave problema interno será encarado fora do País. Antes de mais nada, a questão a ser atacada é de saúde. Foram afastados 33 servidores do ministério do doutor Maggi e ele pensa na repercussão internacional. Precisa olhar para dentro de casa primeiro. É da qualidade do que está sendo entregue pelo Brasil aos consumidores, dentro ou fora do País. Efeitos econômicos e de imagem são consequência.

ÉRICO FIRMO