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"Muito prazer em me conhecer"

Letícia Lanz nasceu aos 50 anos. Do meio século vivido, 30 anos foram dedicados aos números: economista e mestre em Administração, ela perdeu todos os clientes quando transicionou. Mas Letícia, outrora conhecida por Geraldo Eustáquio de Souza, não ganhou apenas um novo nome e outra profissão - conquistou o direito a uma existência plena de si. Aos 67 anos, a escritora, pós-graduada em Sociologia e psicanalista mineira radicada no Paraná não se diz nem freudiana e muito menos lacaniana. É "leticiana", repleta de narrativas para partilhar. Casada com a psicóloga Angela Dourado há mais de 40 anos, elas têm três filhos e três netos enchendo a casa e o coração. Letícia esteve em Fortaleza para participar da 1ª Festa Literária da Diversidade Sexual (FLIDS). Em entrevista ao Vida&Arte, ela retomou o importante - e cada vez mais indispensável - debate sobre gênero e defendeu que "todo mundo nasce gente. O resto é rótulo".

O POVO: A senhora foi socialmente designada como pertencente ao dito gênero masculino ao nascer. Como foi o processo de se reconhecer enquanto Letícia?

Letícia Lanz: É um processo muito antigo na minha vida porque, quando eu era criança, descobri que não tinha afinidade nenhuma com o mundo masculino - nos brinquedos, nas roupas… Eu me esforçava muito, tanto em casa quanto na escola, e era muito cruel pra mim. "Por que eu não posso usar um vestido, como as meninas?", "porque você é um menino, porque Deus não quer, é pecado". Foi um processo começado na infância e, por falta de informação dos mais velhos, ninguém sabia o que estava acontecendo comigo. Eu achava normal, eu não via problema nenhum naquilo, mas eles viam um problemão danado. Eu entrei na adolescência assim e vivi coisas piores: além de me identificar com o mundo feminino, eu nunca quis nada com homens, a vida inteira minha atração foi por mulheres. Hoje isso tem nome, chama-se de pessoa trans lésbica. Tive que conviver com isso, eu tinha que reprimir para poder sobreviver... A minha sorte é que encontrei uma companheira extraordinária com quem vivo até hoje, há 43 anos estamos juntas. Eu tinha muitas dúvidas porque, pra mim, casar com outra mulher era normal. Até que as coisas se complicaram, minha vida sofreu uma série de percalços e eu fui parar na UTI. Com todas essas questões vindo à superfície, eu tinha duas alternativas - ou morrer, ou lidar. Optei pela segunda. Foi aos 50 anos, hoje eu tenho 67.

OP: Nós vivemos em uma sociedade marcadamente heteronormativa e binária. Não é raro ouvir que pessoas trans "nasceram no corpo errado". Como desconstruir esse imaginário que é o corpo - e não a sociedade - o problema?

Letícia: Essa é uma importante fala: eu não nasci no corpo errado, eu nasci na sociedade errada. O que determina gênero não é a sua herança biológica, é a herança cultural e sociopolítica. O sexo é imutável - do ponto de vista histórico temos machos, fêmeas, intersexuados e nulos, quatro modalidades fornecidas pela natureza e que são enquadradas nas regras de condutas sociais que os chamam de masculino/feminino, homem/mulher, esse binário. É daí que deriva a conversa fiada de "nascer no corpo errado", é assim que a sociedade trata: como doença ou transgressão. Na verdade, é apenas uma expressão do indivíduo. Há muito ouvimos um discurso atrasado que é uma "escolha da pessoa". Não se trata de escolha, o processo psicológico está em jogo, é o que se chama de identificação. Esse discurso de escolha é dito por pessoas atrasadas - eu chamo de atrasadas porque conservador é quem tem alguma coisa pra conservar; atrasado é alguém que não quer saber. Conservador sou eu, que tô casada há 43 anos. Existe um modelo masculino e feminino? Por que o pênis tem que escolher o modelo masculino? Por que uma vagina tem que escolher o modelo feminino? Por que eu não posso ser os dois? Por que eu não posso escolher um terceiro, um quarto, um quinto? A única forma de atualizar esse debate é através da educação, de se apropriar das pesquisas científicas, dos avanços que nós fizemos, dos estudos que promovemos. Isso fez com que a Idade Média se tornasse Renascença, é isso que faz com a gente saia da escuridão da caverna do Platão e consiga ver o mundo e não repita bobagens como "quem nasceu com pênis gosta de azul". Essa declaração (proferida por Damares Alves, a Ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos no governo de Jair Bolsonaro, em vídeo que circula nas redes sociais) se insere da pior maneira possível na sociedade, porque é um debate que hoje representa o poder instituído. Quando a ministra faz uma afirmação tola, vulgar e tosca a respeito do que chama de ideologia de gênero, isso gera um prejuízo de entendimento atrasado e despreparado.

OP: Ao longo da última campanha eleitoral, ouvimos constantemente o discurso sobre uma suposta ideologia de gênero. Estudiosos da área, entretanto, discordam desse termo. Por quê?

Letícia: O conceito de gênero é muito novo na história da humanidade. Ele só começa a se esboçar no final dos anos 1940, com aquela famosa colocação da Simone de Beauvoir: "Ninguém nasce mulher, aprende-se a ser". Ela deveria ter escrito "Ninguém nasce homem também, aprende-se a ser", mas ela seria defenestrada se o fizesse. Quando Beauvoir diz isso, ela coloca uma perspectiva de vida que é paralela à vida biológica. Ao afirmar isso, ela abre uma perspectiva que então o feminismo começa a pensar: "Até agora nós defendemos uma igualdade entre sexo, mas existe outra coisa que ainda não tem nome". Só ganhou nome no final dos anos 1960 e foi a partir de uma historiadora norte-americana, a Joan Scott, que diz que o gênero pode ser uma categoria muito útil de análise histórica e revolucionou tudo. Ela coloca uma questão: por quem essa história foi escrita? Por homens ou por mulheres? Hoje esse artigo é até simplório, mas foi ele que deu as bases para que a gente começasse a discutir sexo diferentemente de gênero. O sexo de natureza biológica e o gênero, cultural. Isso tudo se refere ao debate sobre ideologia de gênero. Eu não posso falar de ideologia de um conjunto complexo de atributos que são construídos em sociedade e na qual os indivíduos são submetidos em função do espectro genital com o qual eles nascem. Todos os desígnios de gênero são produzidos por esse processo de identificação com um complexo sistema de atributos sociais, políticos, econômicos. É por isso que não é correto falar em ideologia de gênero. Por que se fala? Se fala num sentido justamente de desqualificar o gênero e dar uma super atribuição ao sexo biológico, coisa que não faz sentido.

OP: No início deste mês, a senhora participou da 1ª Festa Literária da Diversidade Sexual (FLIDS) em Fortaleza. Como sua relação com a literatura começou? Quais suas obras publicadas?

Letícia: Começou desde que eu me conheço por gente, exatamente por ser tão impedida de viver o mundo real. Eu fui empurrada para as margens da sociedade e tive que ler, então a minha vida sempre foi povoada pela literatura. A literatura foi um suporte para que eu não enlouquecesse, então essa relação foi de nutrição. Sem a literatura, eu teria morrido de inanição. Eu sempre escrevi muito e tenho alguns livros publicados - como Eu, Comigo, Aqui e Agora e Muito Prazer em Me Conhecer, este na área do que eu chamaria de poesia psicológica ou uma poesia da psique. Outros livros meus são Pronto para viver e Diante de mim. Voltei a escrever quando fiz a dissertação sobre as pessoas transgêneras (apresentada ao curso de Pós-Graduação em Sociologia da UFPR). Eu trouxe uma construção teórica, que é um marco referencial, contando que o que existe é a condição transgênera: é aquela que coloca em xeque as estruturas, transgride normas, muda as regras. Essa questão retoma o debate sobre "nascer no corpo errado". Não existiria um "corpo errado" em uma sociedade que não diferenciasse homens e mulheres, em que o gênero não fosse essa economia baseada em dois polos. Meu sonho é justamente queer, em que não haja mais gênero nenhum - ou, pelo contrário, que existam 7 bilhões de gêneros.

OP: Letícia, quais são suas indicações de leitura sobre a questão do gênero?

Letícia: Uma obra-prima fundamental é o livro Inventando o Sexo, do biólogo e historiador Thomas Laqueur. Outro livro básico é Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, Judith Butler - importante pelos marcos conceituais. Um texto interessante também é A Epistemologia do Armário, da Eve Kosofsky. Além disso, indico uma obra que não circula muito no Brasil, mas é essencial: The end of gender, da Shari Thurer. O último que eu gostaria de indicar chama-se My gender work book, da Kate Bornstein. A autora é uma mulher trans, como eu, e o livro é uma obra fantástica em cima da teoria queer. Vale a pena referir que queer não é uma identidade: é uma maneira de destruir essa identidade.

OP: Por fim, como a senhora avalia a representatividade trans nas artes?

Letícia: Tradicionalmente, as pessoas trans são usadas e abusadas na indústria pornográfica, na indústria sexista. Sabemos que a mídia, por exemplo, promove qualquer mulher trans que ganha concurso de beleza enaltecendo a forma física dela. Mais recentemente, passaram a ser admitidas também se cantam ou realizam performances no palco. São casos excepcionais como o da cartunista Laerte Coutinho, que já tem um histórico de produção invejável. Ou as pessoas trans aparecem lá na base social tomando porrada, como é o caso de Dandara nas páginas policiais, ou aparece nesse mundo de celebridades do pop. Nas espaços de produção intelectual dentro da universidade, por exemplo, eu não tenho lugar de fala. Existem excelentes profissionais trans em todas as áreas: advogados, médicos, profissionais de engenharia, de informática; enfim, pessoas que são sequer mencionadas. É uma existência completamente anulada e invisibilizada, porque ao território ao qual ainda se permite a entrada das pessoas transgêneras é o pop. Precisamos ir além disso para expressar o mundo também para pessoas que não são trans e, muitas vezes, nem
as conhecem.

| diversidade | Psicanalista, mestre em Sociologia e escritora transgênera Letícia Lanz defende transformação social e liberdade de gênero

00:00 | 11/02/2019

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