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Jornal

Uma flor nasceu na rua

Felipe Rima encontrou no rap a porta de saída do mundo do tráfico

09/04/2018 01:30:00
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Aos oito anos, a expectativa de se tornar um jogador de futebol foi alimentada por poucos minutos enquanto a bola que tinha acabado de ganhar ainda durava. Ribamar Felipe Souza foi para casa chorando depois de ter tido seu bem mais precioso furado. Foi recebido por seu pai com a resposta de que homem não deve chorar e com o peso de uma arma na mão pela primeira vez. Afinal, isso sim era coisa de homem.
 

Com novas referências, seu sonho de se tornar um Romário perdeu espaço. Aos 14 anos, queria comandar o tráfico de oito comunidades de Fortaleza. 

 

“Esse sonho só foi interrompido, porque houve uma intervenção poética”, revela. Assim, nasceu Felipe Rima, seu nome artístico. Seria Felipe Rima a flor que furou o asfalto em meio ao caos a que Carlos Drummond se referia? Foi o poeta quem seduziu o menino da comunidade da Zareia, localizada no Papicu, a trocar a arma pela poesia.
 

No projeto social Enxame, começou a criar suas rimas. Logo depois, agregou a melodia. “Há dez anos, rap e hip hop eram à margem da sociedade. Minha mãe tinha medo que eu fosse o estereótipo do bandido, e meu pai achava que rap não dava dinheiro, então… que eu fosse cantar forró”, conta.
 

O novo sonho de viver da música se consolidou quando começou a viajar para fazer shows e vendeu 10.000 cópias do disco Entre os Batuques do Coração e a Poesia da Vitória de mão em mão em 2011, que foram embalados um de cada vez. “A gente trabalha (manualmente) com o que a gente aprendeu no crime, mas a gente ressignificou isso”, confessa. O primeiro disco oficial de sua carreira, gravado no estúdio da Red Bull Station, será lançado no semestre que vem.
 

Hoje, aos 30 anos, Felipe Rima é rapper, autor do livro Sonhos e as Pedras do Caminho e idealizador do grupo Batuque do Coração, criado em 2012 e formalizado em 2017. Além de escrever e gravar suas músicas, a equipe realiza ações que difundem a cultura hip hop, ocupam centros culturais e fazem palestras motivacionais para empresas e escolas. “A nossa visão é inspirar as pessoas através dos sonhos. A ferramenta que a gente usa é a arte”, afirma. Essencialmente, a equipe é formada por ele e outros dois amigos, Salmos Rafael e Bulan Grafitti, o total de integrantes beira os 50.
 

A história de Felipe Rima prova que não é preciso estar dormindo para sonhar. O livro lançou. O CD gravou. O verso rimou. E agora, Felipe?

 

MULTIMÍDIA


Confira vídeo do Perfil Profissional

com Felipe Rima em: https://bit.ly/2Fq8ZYK

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RITMO DE SONHOS

SOFREU FRUSTRAÇÃO COMO MÚSICO?

Eu sou um cara muito otimista. Dificilmente, alguma coisa vai me fazer parar, me dar aquele sentimento de querer desistir. Frustrações eu tive no percurso por falta de conhecimento mesmo. Eu venho de uma origem que você não é educado a lidar com dinheiro, você não é educado a lidar com contabilidade, você nem sabe que existe contador. Você não entende o que significa marketing. Você vai vivendo o fluxo. À medida que a gente chegava a determinado ponto e precisava avançar, batia uma frustração porque a gente não sabia lidar com aquilo. E a gente aprendeu. Por exemplo, a gente se tornou um nome relevante dentro do cenário de palestrantes do País, mas a gente nem sabia que existia esse mercado de palestra, quanto valia, que tinha que emitir nota e como fazer para emitir nota. Isso gerava uma frustração.

QUAIS OS PRÓXIMOS PASSOS ?
 

Criar um espaço com estúdio de música, tanto para ensaio quanto para gravação. Um espaço de convivência, em que a gente possa receber convidados de várias frentes, artistas, empreendedores, amigos, palestrantes, estudantes. A gente passou os últimos três anos indo em várias instituições de ensino. Agora a gente quer propor o contrário, que elas venham até nós. Esse espaço novo é uma das possibilidades que estamos investindo. Ainda estamos de mudança. O primeiro passo de 2018 foi mudar de casa, onde a gente tivesse um QG (quartel general) que pudesse aglutinar todos os nossos sonhos. Oficina de grafitti, oficina de poesia, oficina de rap. Os próximos passos são esses e, claro, o lançamento do disco que a gente pretende fazer no próximo semestre.

QUAL FOI O PONTO DA CARREIRA QUE VOCÊ MAIS SE SENTIU REALIZADO?

Tem vários momentos, mas eu acho que aquele momento do TEDx, ele é muito simbólico para mim. Eu não diria que foi o ponto mais alto, mas eu diria que se a gente conseguisse mensurar, é como se eu tivesse conseguido dar a volta no mundo e parado no mesmo lugar, que foi exatamente isso que aconteceu. Eu fui pelo Ceará, por 100 cidades, 10 estados, dois países, voltei para Fortaleza, no shopping RioMar, no teatro que o muro era a cervejaria Brahma, que eu brincava com os meus amigos ali dentro. Aí eu dei essa volta e trouxe todas as pessoas da minha família, amigos e colaboradores para o palco e fomos aplaudidos de pé duas vezes.

lorena marcello

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