PUBLICIDADE
Shows e Espetáculos
Grupo Experimental de Teatro

Peça "Os Demônios" explora o improviso no Teatro Dragão do Mar

Inspirado na obra de Dostoiévski, Os demônios traz para cena o elemento do improviso a partir de atores que não ensaiaram o texto previamente

11:03 | 02/08/2018
Foto: Divulgação

Sem ensaio prévio, um ator sobe ao palco e lida com a ausência de marcação, fala definida e personagem construído. É nesse ambiente de estranhamento que se constrói Os Demônios, novo espetáculo do Grupo Experimental de Teatro. A obra, que estreia nesta sexta no Teatro Dragão do Mar, é inspirada no realismo trágico do romance homônimo de Fiódor Dostoiévski (1821-1881).

"Nós usamos esse dispositivo cênico de incluir um ator que não conhece o trabalho e colocamos ele como o personagem principal da peça. É um risco, uma armadilha. Não sabemos como ele vai reagir com a situação", detalha a diretora Ângela Moura, que compõe o elenco fixo, ao lado de Edgleison Sousa, George Hudson, Getsêmane Machado e Sara Síntique. O cenário para o desenrolar da história é apenas um sofá desgastado e um pedestal com microfone.

A obra original, escrita pelo russo em 1872, foi motivada por um episódio verídico: um atentado contra estudante por parte de um grupo niilista em 1869. Dostoiévski desenvolveu, a partir daí, uma narrativa que desvela um estudo profundo do pensamento político, social, filosófico e religioso de seu tempo. Esse material denso e complexo é a base fundamental para a releitura do grupo de artes cênicas cearense. Segundo a diretora, a narrativa escrita há mais um século exala atualidade. "Considero a obra profética. É muito contemporânea ao falar sobre conspirações políticas, delações e corrupções", traça.

A dramaturgia encontra no momento político atual brasileiro uma oportunidade para refletir sobre conspirações políticas num paralelo entre passado e presente. "A gente atualiza a obra pensando em tudo o que temos visto nesse processo louco que é a política partidária. A gente consegue ver partidos brigando e a gente no meio, a direita e a esquerda", reflete Ângela, reforçando que o jogo político da obra de 1872 ainda é replicado hoje.

"Muito dessa busca pelo poder e dessa ganância, a gente encontra na nossa sociedade e não só no nosso País. Esse desvio de caráter reverbera ainda mais hoje", reitera Sara Síntique. Para a atriz, esse jogo de poder próprio da política ganha sentidos ainda mais ampliados em cena a partir do elemento surpresa que é o ator convidado de cada apresentação. "É realmente ter de estar muito atento ao jogo. (A peça) propõe toda essa confabulação em torno do jogo de poder, de quem engana quem",reflete.

Sara narra se sentir desafiada a partir da encenação da obra. "É um processo realmente desafiador enquanto atriz. Por mais que o grupo saiba como é o jogo cênico, o ator convidado muda tudo. A gente tem que estar sempre aberto ao jogo do improviso. É uma energia diferente a cada apresentação", diz. Nesse jogo, cada um dos personagens da história é apresentado por um retrato moral e social, de acordo com a função que desempenha na conspiração niilista apresentada. Uma é mais excêntrica e possessiva, outro disfarça a perversão com o requinte intelectual.

Assim como Os Demônios, os trabalhos anteriores do Grupo Experimental de Teatro mergulham fundo nos clássicos. A companhia já montou obras como Ensaio Sobre Hamlet (2013), da obra de William Shakespeare, e O Maligno Baal, o associal (2006), de Bertolt Brecht, primeira montagem do grupo surgido no Instituto Federal do Ceará (IFCE). "Já estamos estudando outro texto do Dostoiévski, Notas do Subsolo", antecipa a diretora.

Peça Os Demônios

Quando: estreia amanhã, 3, às 20 horas e segue às sextas-feiras de agosto

Onde: Teatro Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema)

Quanto: R$ 20 (inteira)

Informações: 3488 8600

 

RENATO ABê