A primeira noite de muitas que virão
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A primeira noite de muitas que virão

30/05/2018 17:55:00
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Vinte e cinco de maio de dois mil e 2018. Nove e quinze da noite. Teatro Riomar. Este dia e este local entram para a história da música cearense e, potencialmente, para a música nacional, no mínimo. Depois de quase vinte anos de existência restrita à cidade de Fortaleza, os Argonautas se lançam realmente em mares novos. O espetáculo que inaugurou o projeto Argonautas Convida teve como primeira convidada Mônica Salmaso, cantora premiada já indicada ao Grammy latino e que já esteve na cidade antes para uma apresentação no cineteatro São Luiz.
 
Este primeiro grande passo para uma carreira de contornos nacionais proporcionou uma experiência artística arrebatadora, com um set que mesclava músicas autorais do quarteto cearense com canções do repertório da cantora escolhidas por eles e mais com algumas canções inéditas para ambos, a apresentação cumpriu sua proposta ao encaixar arranjos inovadores potencializados pela voz de Mônica.
 
A primeira música executada foi Plataria, primeira composição do grupo e que, na verdade, criou o conjunto. De autoria de Ayrton Pessoa, o Bob, a partir de poema de Alan Mendonça e que está no repertório das apresentações e recitais do grupo desde sua primeira vez nos palcos em 1999. Tocar esta composição abrindo esta nova fase fez o grupo imprimir sua identidade como anfitrião musical da noite.
 
Cataventos foi a segunda canção, não somente da noite, mas também a segunda composição da história deles. Também com poema de Alan Mendonça, mas dessa vez com música de Rafael Torres, ela continua dando sequência à lógica da apresentação que finaliza sua abertura com Fortaleza, canção também de Rafael presente no disco recém lançado, Jangada Azul, e que fala das dificuldades de ser artista na cidade e, também, de suas escolhas em permanecer aqui apesar de tudo. Essa última música praticamente explica o porquê da noite especial com convidada tão ilustre.
 
Quando Mônica Salmaso entra, ela que organizou toda a sequência do show a partir dali, já mostra a que veio cantando uma música que nem ela, tampouco o quarteto, executara antes. Biscate, de Chico Buarque. Uma música alegre e que realmente lembra Chico em tudo. Retirada do álbum Paratodos, o dueto vocal de Rafael Torres, que também toca flauta na música, e Mônica relembra Chico e Gal em antológica apresentação de 1993. E pela primeira vez na história vemos um membro do grupo cantando de pé. Os instrumentistas-cantores são conhecidos por sempre fazerem suas apresentações sentados, mas nada mais educado que levantar para receber alguém, e foi o que ocorreu. A música conseguiu colocar a plateia em alerta para o que viria a seguir.
 
A partir daí Mônica contou histórias de cada uma das canções com simpatia e um visível sentimento de gratidão por estar ali. O que se seguiu foi um pequeno cancioneiro que sintetiza a nata da Música Popular Brasileira que quase não chega a ser popular, tamanha erudição das letras, arranjos, melodias e referências ao nosso rico folclore que anda quase esquecido por nós. Canções como Leilão de Hekel Tavares e Joracy Camargo que conta a história de um casal de escravos que foi vendido separadamente para escravagistas diferentes arrancou lágrimas de muitos dos presentes. 
 
Já perto do fim, Mônica faz outro dueto, dessa vez com Ayrton, para outra música com letra de Alan Mendonça, a toada O Amor de Margarida Flor para em seguida emendar com Suassuna, composição do grupo feita especialmente para sua voz.
 
A sintonia de todos os músicos entre si foi algo lindo de ver. Perceber como Ednar Pinheiro e Igor Ribeiro se comunicam na cozinha do grupo, ver os sorrisos entre Igor e Mônica que deu muitas sugestões para os arranjos e que tem a percussão como sua segunda linguagem musical foi algo no mínimo didático. A iluminação de Tatiana Amorim, do grupo Bagaceira de teatro, grande parceiro dos Argonautas, abrilhantou ainda mais a noite, literalmente. 
 
A apresentação mostrou toda a potência instrumental e criativa do grupo e tornou a cantora que ainda circula bastante em um caminho mais alternativo mais conhecida do público cearense. Muitas ali conheciam apenas Mônica, outros apenas os Argonautas, mas também havia ali quem não tinha ouvido nenhum dos dois.
 
Esperamos que a cidade e que nossos Teatros continuem sediando espetáculos tão importantes quanto esse.
 
Nílbio Thé, especial para O POVO online
Escritor, professor, arteducador, produtor, Coordenador pedagógico da área de tecnologia do Lato Sensu da Unichristus.

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