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Do Pirilampo ao Ogroleto: as sensações que o teatro para a infância pode oferecer

No hall do Teatro SESC Iracema, o Grupo Ânima recepcionou o público com o espetáculo "Circo Pirilampo", na linguagem do teatro de sombras.

28/08/2017 12:58:00
Homem sentado com um prato na mão olhando diretamente para uma mulher sentada a sua frente também com um prato, mas olhando para outro lugar
Homem sentado com um prato na mão olhando diretamente para uma mulher sentada a sua frente também com um prato, mas olhando para outro lugar
[FOTO1]A programação de espetáculos do IV Encontro de Realizadores de Teatro Infantil de Fortaleza foi aberta no último domingo, 27, com duas propostas cênicas bem diferentes, ambas com entrada franca. No hall do Teatro SESC Iracema, o Grupo Ânima recepcionou o público com o espetáculo “Circo Pirilampo”, na linguagem do teatro de sombras. É partindo da existência fugaz do inseto que consegue emitir clarões que uma breve história nos é apresentada, entre luzes, sombras e silhuetas em miniatura. O enredo mostra a chegada de um circo em uma cidade e as paixões que pode despertar no público por suas inusitadas atrações.
 
A trama é apresentada dentro de uma instalação lambe-lambe que lembra os “retratistas” de antigamente (quando estes se posicionavam atrás de seu equipamento cobertos por um pano), com uso de figuras recortadas em papelão e atreladas a varetas que lhes permitem movimentos. Dois ou três espectadores por vez, sentados em banquetas, podem assistir ao desenrolar dos quadros com duração breve de apenas 4 minutos. A ideia parte dos números de variedades no picadeiro, numa sequência que vai do palhaço malabarista à exímia bailarina, até o domador de leões e o mágico. Tudo é singelo por nos remeter a dois universos oníricos: o circo e o cinema de outrora.
 
A execução do sombristaCleomir Alencar, também diretor da montagem, é eficaz, pois as cenas desenrolam-se com fluência e um gostinho de delicadeza nos faz querer mais. No entanto, por apostar apenas numa sucessão de tipos, animais e habilidades circenses, o espetáculo não traz um dado importantíssimo, o conflito, e a previsibilidade é mantida. Isto não significa um problema na obra, mas é bom lembrar que o elemento surpresa deve ser sempre considerado no teatro. E a historieta se encerra como um pirilampo, de vida efêmera, mas, no mínimo, cativante.
 
Já no Palco do Teatro SESC Iracema, “Ogroleto”, produção do Grupo Teatro da Magnólia, fez surgir outras sensações na plateia de adultos e crianças. O texto da dramaturga canadense Suzanne Lebeau, com tradução de Jorge Bastos e algumas adaptações da própria equipe cearense, é o que podemos chamar de uma grande ousadia no panorama do que se costuma ver como arte teatral direcionada à infância, no caso, indicada para maiores de 8 anos. A protagonista desta história sombria e cheia de suspenses é uma criança grande, ou melhor, enorme, mas apenas no tamanho, pois continua pequenina e cheia de desejos e dúvidas como qualquer outra de 6 anos. Chama-se Ogroleto por ser um ogro e vai à escola pela primeira vez, “o lugar que recebe a todos”.
 
A mãe, ou melhor, a supermãe, protetora ao extremo, incentiva o filho a dialogar com o mundo, mas cheia de cuidados, carinhos e receios, pois nunca se sabe o que esperar de alguém no despertar de sua “ogrisse”. A obra toca em questões importantes sobre diferenças, ausência da figura paterna e os instintos escondidos no íntimo de cada um. O carioca Miguel Vellinho, diretor convidado, conduz a encenação com muito esmero, bem assessorado especialmente pelo figurino de Yuri Yamamoto, a iluminação de Wallace Rios e o cenário, com alguma mobilidade, de Carlos Aberto Nunes. E o que poderia redundar numa fábula apenas macabra, ganha contornos mais afetivos, sem desmerecer o lado sombrio do que está por vir.
 
Silvianne Lima e Nelson Albuquerque interpretam mãe e filho, ela mais à vontade na enxurrada de frases longas que são ditas, onde não há receio da palavra nem dos tempos mais dilatados. O excesso de narração na dramaturgia – sim, quase tudo é muito mais contado ou lido do que vivido – vai na contramão daqueles que buscam ação o tempo todo no teatro direcionado à infância, mas as doses de lirismo e graça que pontuam a escrita dão um resultado muito singelo aos diálogos travados em família. O silêncio da plateia foi uma prova de que é possível chamar a atenção da criança e até deixá-la se surpreender com o inusitado da trama, sem medo de se deparar com o desconhecido e o estranho. Afinal, por que ter medo de ter medo?
 
Ogroleto é um garoto que, tentando compreender a relação que pode manter com o mundo, ganha a adesão de uma criança para defrontar-se consigo, e acredito que os outros meninos e meninas do público também embarcaram nesta sua aventura. O resultado da montagem, então, é um estímulo à imaginação pelas possibilidades do vir a ser, já que ninguém para de se transformar o tempo todo. Não é mesmo?
 

Por Leidson Ferraz especial para O POVO
Jornalista e pesquisador teatral pernambucano

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