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Casa do Barão de Camocim recebe mostra de Descartes Gadelha

Nossas Janelas, em cartaz na Casa do Barão de Camocim, reúne seis décadas de trabalho de Descartes Gadelha. O artista acompanhou nossa equipe em uma visita pela mostra

09:36 | 03/10/2018
Foto: Alex Gomes/O POVO

Filho de Xangô, orixá da justiça e do fogo para religiões de matriz africana, Descartes Gadelha é um inquieto. "É coisa de Xangô, eu nunca paro de me movimentar", reflete para si o renomado pintor, desenhista, escultor e músico cearense. Os epítetos, entretanto, não dão conta da grandiosidade de vida e obra do artista de 75 anos que esboçou seus primeiros trabalhos ainda na infância. Suas seis décadas dedicadas à arte são representadas na exposição Nossas Janelas, em exibição no Centro Cultural Casa do Barão de Camocim até dia 30 de outubro.

 

Assinada pela produtora cultural Norma Paula Moreira, a curadoria reúne 45 obras do artista em cinco eixos temáticos: Janelas Sociais, Janelas da Terra, Janelas da Cultura, Janelas da Fé e Outras Janelas. "Eram janelas que estavam fechadas na história... É como se a sociedade fosse uma casa cujas janelas estão fechadas para os problemas sociais que estão lá fora. Meu desejo é abrir essas janelas para dentro de uma casa, em vez de ser para fora", explicou Descartes em visita guiada com a equipe do O POVO pela mostra visual. O ensejo foi certeiro - no último mês de agosto, a exposição inaugurou a Casa do Barão de Camocim como equipamento integrado ao Complexo Cultural Vila das Artes.

 

"A janela tem uma simbologia muito grande, né? Todas as aspirações ficam na janela. O preso, pra onde vai, leva a janela na cabeça", pondera Descartes. Desnudando a memória, o artista percorreu as salas do centro cultural narrando com admirável precisão as histórias retratadas em cada um dos quadros. A obra de Descartes é tão vasta que ele perdeu as contas de quantas pinturas, xilogravuras, peças em bronze e argila ou composições musicais já produziu, mas não esquece o nome de nenhuma das personagens imortalizadas por suas tintas e pincéis. Lembra-se do grande amor do amigo Paulinho (O Baliza, óleo sobre tela, 1990), que voltou da Europa após contrair o vírus da aids para morrer perto da mãe; do olhar curioso de dois meninos preparando o jaraguá em algum folguedo folclórico no interior do Estado (Aprontando o Jaraguá, óleo sobre tela, s/d); ou mesmo das cores vivas do picadeiro do circo que passou pela Cidade em algum ano perdido e despertou sua vontade de fugir com a trupe. O que sobrou da frustrada empreitada se transformou em arte (O Circo Pangolar, óleo sobre tela, s/d).

 

A paixão de Descartes pela tradição oral, aliás, rendeu-lhe o título de griô do Maracatu Solar. O termo designa o guardião - ou "distribuidor", como prefere colocar - da memória coletiva de uma comunidade. Ao lado do amigo e parceiro Pingo de Fortaleza, Descartes divide seu tempo entre a Orquestra Solar e Instituto do Câncer do Ceará, onde trata regularmente da doença adquirida após contaminação com chorume enquanto retratava a rotina dos catadores de lixo do Jangurussu, em 1978. Mesmo doente, Descartes mudou-se para um barraco alugado no Lixão e realizou um mergulho etnográfico na região durante dois anos.

 

"A arte, de um modo geral, é um fenômeno inesperado. Existe um estilo de música que eu gosto muito, o jazz de Nova Orleans, sul dos Estados Unidos. A música é feita na hora, o cara chega no piano e não sabe o que vai fazer, mas sabe que vai tocar. Ele começa a dar uns acordes e aí pronto, essa música nunca mais vai ser tocada, a não ser que alguém grave. Nunca mais vai sair uma música igual. Assim é a minha arte. Eu não sei inventar, eu não tenho capacidade criativa. Eu preciso observar, mergulhar sem água na piscina e me estraçalhar para transformar em arte. Eu pinto por necessidade, eu não pinto por glória, sabe? Eu não ganho dinheiro com isso, não. Não tem obra de arte na minha casa, só tem muito é santo de macumba", ri-se Descartes. "Pra mim, a arte é uma necessidade moral, espiritual", conclui.

 

Exposição Nossas Janelas 

Quando: Visitação até 30 de outubro (terça a sexta de 9h às 19h, sábado e domingo de 10h às 17h)

Onde: Centro Cultural Casa do Barão de Camocim (Rua General Sampaio, 1632, Centro)

Gratuito