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Tem coisa melhor do que risada de criança no teatro?

12:49 | 30/08/2017
Um homem e uma mulher vestidos de branco com um regador na mão em frente a um grupo de crianças que assistem a peça
"D. Menina", do grupo K'Os Coletivo, brincando com a imaginação da meninada (Foto: Fernanda Leal/Divulgação)
Assistir a um espetáculo teatral para a primeira infância é saber que um choro ou gargalhada podem explodir a qualquer instante na plateia. E não faltaram gostosas risadas das crianças de 2 a 5 anos que vieram da ONG Casa Abrigo e do Centro Educacional José Duarte Espinheiro para aproveitar a peça “D. Menina”, do K’Os Coletivo, na última terça-feira pela manhã, no Teatro SESC Emiliano Queiroz, atração do IV Encontro de Realizadores de Teatro Infantil de Fortaleza.
A montagem, com duração de 30 minutos, é a primeira experiência do trio Aldrey Rocha, Aline Campêlo e Chally Nunes, dois atores e um músico instrumentista. Com direção e roteiro de Aldrey Rocha, o resultado agrada de cara aos pequeninos espectadores porque desde a condução para a entrada no espaço cênico – todos vão juntos ao palco, o que realça a intimidade do trabalho – há cuidado, atenção e simpatia. Até mesmo a espera daqueles que foram ao xixi de última hora, acontece.
 
A peça revela o clown que se transforma ao usar um velho camisolão de dormir. A brincadeira de inversão entre papel masculino e feminino só dá mais graça à personagem, que cuida de plantas imaginárias e tem um animal (ave?) como companheiro. Por quase prescindir da palavra, aposta-se nos contrastes, nas repetições, nas trapalhadas singelas e nas expressões faciais sugestivas. A criançada, atenta a tudo, gosta de narrar o que vê e dialoga intensamente com o que acontece à sua frente.
 
Os sons do teclado e da guitarra ajudam ao caráter lúdico da trama, que talvez possa ganhar ainda mais delicadeza se abusar da imaginação, mas sem esquecer da concretude necessária àquela faixa etária de meninos e meninas e da variedade de ritmos musicais. A cumplicidade com a plateia foi tanta que é curioso observar como as crianças não querem ver a personagem lidando com sentimentos de perda e saudade por muito tempo e tentam tirá-la daquele estado o quanto antes. Pena que o desenlace da história seja abrupto e ficamos querendo um pouco mais.
 
Um homem adulto de joelhos com o rosto pintado ao lado de uma criança sentada em uma pequena poltrona rindo.
"Dona Onça Pintada e Seu Bode Cheiroso", da Comédia Cearense, com o veterano ator Hiroldo Serra em destaque (Foto: Fernanda Leal/Divulgação)
À tarde, naquele mesmo palco, chance de ver a Comédia Cearense – um dos grupos teatrais mais antigos do Brasil, prestes a completar 60 anos como grande referência para a história do teatro cearense – no espetáculo “Dona Onça Pintada e Seu Bode Cheiroso”, direção e adaptação de Hiroldo Serra a partir do texto “A Onça e o Bode”, de Kleber Fernandes. A obra original estreou em 1968, com Haroldo Serra e Hiramisa Serra, e já ganhou várias outras versões. A peça discorre sobre uma onça e um bode que resolvem construir uma casa num mesmo terreno da floresta e o que poderia ser uma bela amizade entre animais tão diferentes, transforma-se em confusão.
 
A montagem chama a criançada para estar sempre presente, literalmente, na condução da fábula e aborda com humor os embates de convivência da dupla. No entanto, revela um certo passadismo, as marcas do tempo mesmo, em variados aspectos. Supervalorizando a palavra, a encenação atual ainda carece de maior ousadia para o palco e precisa urgentemente esquecer as lições de didatismo e mensagens edificantes. Religiosamente comportada, a peça tem como maior destaque a presença do ótimo ator Hiroldo Serra, com empatia certeira para lidar com a criançada e improvisos que são uma delícia. 
 
Dois momentos revelaram-se especiais: quando a sua personagem, o Bode Cheiroso, na intenção de construir a casa em que pretende morar, convida crianças da plateia, numa liberdade poética muito bem-vinda, a sentarem elegantemente no seu sofá ou ainda quando, mais à frente, brinca de passar cada menino e menina por uma simples porta vazada. É nestes instantes que o trabalho prima pela brincadeira leve e descontraída, sem muitas regras teatrais a seguir, nem ensinamentos desnecessários.
 
Já a sua parceira de cena, Natali Lima, pode ganhar mais tônus de onça, assim como a execução da trilha sonora e da luz necessita de maior precisão. No mais, é uma honra poder apreciar um grupo que se dedica há tanto tempo ao teatro para crianças em terras cearenses e não demonstrou nenhum receio de repensar o seu lugar hoje, para além de uma história já vivida e fascinante.
 
Detalhe que não pode ser esquecido: na plateia, além da presença ilustre do teatrólogo B. de Paiva, estava a atriz Lourdes Martins (Lourdinha Falcão), que participou da 2ª versão de “A Onça e o Bode”, em 1980, pela Comédia Cearense. Evoé!
 
Por Leidson Ferraz especial para O POVO
Jornalista e pesquisador teatral pernambucano