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Carnaval
sustentável

Taxista cearense usa lixo deixado na Praia de Iracema para fazer fantasias de Carnaval

18:00 | 10/02/2018
Carlos vestido de
Carlos "Careca" da Silva é modelo das próprias fantasias (Foto: Arquivo Pessoal / Francisco Carlos da Silva)
Francisco Carlos da Silva, de 56 anos, sabe a importância do que é descartado todos os dias em Fortaleza. Morador do Centro, nasceu e foi criado na Praia de Iracema. Hoje taxista, já foi comerciante e repórter fotográfico no Piauí, mas a atividade que lhe dá mais orgulho é outra. Ele transforma lixo em fantasias e adereços para o Carnaval.
  
"Procuro enxergar alternativas no lixo, uma terapia para viver melhor", conta o cearense, que é conhecido pelos mais chegados como "Carlos Careca". Adereços como elmos, coroas e máscaras, além das próprias fantasias e vestidos são produzidos a partir de materiais como TNT, canudos, barbante e caixa de leite. Tudo sustentável.
 
"Transformei a garagem da minha casa em um ateliê pra esse momento de Carnaval. Enquanto a coisa vai acontecendo, a gente pega a energia dos foliões", conta. O material para cada fantasia é coletado em cerca de uma semana. Em dois dias, Carlos conclui as vestimentas. Sozinho. "É só lixo e dedicação".
 
"Em um baile que teve essa semana no Dragão do Mar, coletei bastante coisa nas ruas, como latinhas. Higienizo tudo e analiso a melhor forma para transformar em roupas", continua. "Depois de confeccionada, vai para o manequim. Isso tudo para mostrar que se a gente se preocupa, nós temos condição de fazer algo". 
 
 
Bem antes das roupas e fantasias, Carlos começou a confeccionar brinquedos ainda aos 17 anos. Por muitos anos morador da rua dos Cariri, na Praia de Iracema, "Careca" acordava cedo e, na beira da praia, encontrava brinquedos que ele classifica como inusitados. Objetos como recipiente de shampoo e grampo de cabelo virara algo divertido nas mãos do jovem artista plástico.
 
"Já trabalho com isso há 40 anos. Fui vendo que essa era uma possibilidade de brincar, pra gente poder ser feliz como criança", rememora. "Minha família não tinha condições. Quando fui crescendo fui também vendo maneiras de ajudar o planeta".
 
Uma das fantasias que Carlos mais tem apreço é a que ele chama de "Guerreiro do Meio Ambiente". "Ela simula correntes são quatro mil elos feitos de caixa de leite Tetra Pak cortadas em tiras, enroladas uma a uma e grampeadores manualmente", explica. "Deu um trabalhão fazer".
Caminhão de garrafas pet
(Foto: Arquivo Pessoal / Francisco Carlos da Silva)
 
Uma história de busca
Inspirado pelo "poder da sustentabilidade", como ele mesmo gosta de dizer, Carlos procura a mãe biológica. Raimunda, ou Geni, como era conhecida, deu o filho para adoção ainda nos idos de 1960. Ela ganhou até um brinquedo em sua homenagem, o caminhão feito de garrafas pet e caixas que representa a busca.
 
Dona Izaura, matriarca de uma grande família, tornou-se a mãe de Carlos. "Aos poucos as pessoas da nossa família iam morrendo, e quem cuidava da minha mãe era eu. Ela sofria muito essas perdas e eu sofria junto. Foi uma época muito difícil". 
 
Francisco Carlos ainda viveu em Teresina, onde iniciou o curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Piauí (UFPI) e trabalhou como repórter fotográfico e assessor de imprensa, mas precisou voltar para sua cidade natal quando a mãe adoeceu, em 1993. Firmou morada no Centro da cidade, onde mantém seu ateliê.
 
"Quando a gente trabalha com sustentabilidade, não pode acreditar que faz por dinheiro. Faço isso para formar opinião. É um material de domínio público popular. Fácil de fazer se ensinado", pondera. "Para mim, não basta vender. A gente tem sempre que procurar alternativas para a arte".
 
Apesar do trabalho, Francisco Carlos ainda não vende as fantasias, e pretende um dia expôr todo esse trabalho. Por enquanto, é o "Guerreiro do Meio Ambiente" modelo, e garante, quando sai fantasiado "não fica 10 minutos sem alguém pedir foto". 
 

RUBENS RODRIGUES