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Cronica

"F de Saudade": Candice Machado reflete sobre a memória

Na crônica "F de Saudade", a jornalista e cronista Candice Machado aborda a relação entre mãe e filha

17:48 | 29/04/2021
A jornalista e cronista Candice Machado aborda as relações entre mãe e filha (Foto: Divulgação)
A jornalista e cronista Candice Machado aborda as relações entre mãe e filha (Foto: Divulgação)

Reza a lenda que às quintas-feiras, a internet se dedica à saudade. Aos 38 ou 39 anos, quase 40 com certeza - não sei dizer, porque esqueço a minha idade - acho difícil que o sentimento de uma vida caiba todinho em um único dia. Também penso que saudade deveria ser escrita com F, porque a dor dela é fina, e mora funda, lá no peito. Faudade. É o que sinto toda noite, no côncavo da rede que estendi perene, nos aposentos da mamãe, para pedir que ela me conte histórias do passado, porque o presente dói demais, e dói com P, de pesado.

Aproveito que tem chovido, abro a porta da varanda do quarto, sinto o vento me lamber e deixo algumas gotas brincarem de tocar meu rosto e sair correndo. São gotas com T de travessas, e eu gosto de ouvi-las. Enquanto elas chiam no asfalto, eu me aqueço na fogueira de lençóis para escutar mamãe contar as lendas das nossas vidas, como se a criança fosse eu e não ela.

Algumas histórias se redizem, encadeadas em si, função "repeat" pressionada. Acho que é porque mamãe já sabe quais são as minhas canções preferidas. É que sua memória começa com i, de intimidade. "Já contei?" Ela recomeça. 'Não". Eu minto. "Pode cantar". E ela entoa a lembrança do céu mais estrelado que a gente já viu. No mundo. Até hoje.

A quinta de hoje foi diferente, comecei pedindo história, mas ela seguiu negando. Calada, alegou tristeza. Extraviadas, ouvimos o canto gélido do silêncio soprar por todo o quarto.

"Já falei da viagem que faremos quando tudo isso passar?" Interrompi, tremendo de frio. "Não". Mamãe respondeu sincera, e pediu pequena. "Pode cantar". Então peguei minha capa de adulta, cobri a criança que me ouvia e reavivei a chama. Cortei na carne um conto fantástico. Ausente de esperança, inventei uma coisa chamada futuro. É um mundo feito de saudade, só que ao contrário e que começa com D, porque essa dor é densa e mora difusa, dentro da cabeça. "Já te contei?" A criança quis recomeçar, agora sorrindo. "Já, sim". Dessa vez eu assumi e arrematei: "mas você nunca ouviu sobre a viagem que faremos em breve". Acionei minha função "repeat", só que ela começa com A, de amor.

Candice Machado é jornalista e cronista

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