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Em meio a descontentamento do setor audiovisual, reprogramação de recursos da Aldir Blanc no Ceará é aprovada

Editais de audiovisual e cultura e arte tiveram seus valores modificados e aprovados na 4ª Reunião extraordinária do CEPC-CE nesta sexta-feira, 23

Matheus Facundo
20:28 | 23/10/2020
Festas populares e espaços de culturas originárias, tradicionais e populares podem pedir subsídio para manutenção pela Lei Aldir Blanc. Na foto, apresentação de reisado na Reitoria da UFC (Foto: RAFAEL CAVALCANTE EM 6/1/11)
Festas populares e espaços de culturas originárias, tradicionais e populares podem pedir subsídio para manutenção pela Lei Aldir Blanc. Na foto, apresentação de reisado na Reitoria da UFC (Foto: RAFAEL CAVALCANTE EM 6/1/11)

Por 16 votos a 1, o Conselho Estadual de Políticas Culturais do Ceará (CEPC-CE) aprovou na noite desta sexta-feira, 23, em reunião virtual extraordinária, a reprogramação de recursos de dois editais dos investimentos da Lei Aldir Blanc no Estado. O saldo para o setor de audiovisual passou de R$ 20 milhões para R$ 11,5 milhões, enquanto o de arte cultura teve aumentos e foi para R$ 17,8 milhões. Momento foi marcado por tensionamento no debate e descontentamento de conselheiros do setor de audiovisual.

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Parte do dinheiro que foi realocado do montante inicial do audiovisual foi redistribuído também para editais em andamentos, no valor de R$ 8.787.836,32. O único voto contra a nova proposta foi o do conselheiro João Guilherme, do setor de games. Para ele, apesar do valor do audivisual já ter sido diminuído, ainda seria preciso uma nova realocação de recursos dentro da divisão do setor, a exemplo do recurso alocado para a produção de documentários.

A reprogramação propõe quatro projetos de produção de longas metragens (documentários), com cada um recebendo o valor de R$ 800 mil. "R$ 800 mil para fazer um documentário é muito excessivo. É dinheiro que sobra e sobra muito. Com R$ 300 mil você já faz uma maravilha de documentário, isso é completamente irreal", pondera Guilherme, que propôs a mudança do valor para R$ 300 mil cada.

A fala de João Guilherme foi seguida por uma sequência de pessoas do setor audiovisual, que demonstraram descontentamento com a diminuição do montante destinado ao seu setor. "Espero que todos saibam que o audiovisual tem uma luta. Algumas falas em outras reuniões me preocuparam muito. Me senti um pouco desmerecido. O audiovisual é uma linguagem que agrega muito a todos em vários recortes e sinceramente acho isso descabido. O audiovisual vem de um processo de degradação violenta. Estamos na iminência de encerrar uma agência nacional de cinema e de ver a Cinemateca Brasileira pegar fogo. Estou preocupado com a falta de diálogo interno entre nós conselheiros", afirma Doug de Paula.

Confira a reunião na íntegra:

De Paula votou a favor da aprovação da reprogramação, mas demonstrou preocupação com falta de recursos suficientes e a levantou a possibilidade de haver cortes. "Só gostaria de um pouco de respeito com o audiovisual. Nós estamos parados e sofrendo. Tá complicado e queria que vocês dessem esse crédito pro audiovisual", expressou outro conselheiro do setor, Afonso Celso.

No que toca o tensionamento dos participantes do cinema e audiovisual, a conselheira Monike Abracadra, do design, pediu que se ponderasse o fator de a Lei Aldir Blanc ser de caráter emergencial, devido ao estado de pandemia. "Claro que não é um valor adequado, mas é o que temos nesse momento para poder atender ao máximo todas as linguagens. Precisamos nos adaptar a esses valores. Não dá mais tempo de discutir valor. Todas as linguagens estão sofrendo com a pandemia e não tem quem sofra mais ou menos. Vamos nos apoiar no que já temos para que sigamos em frente e usemos isso como referência para verificar o que deu errado.

Silvia Moura, bailarina e coreógrafa, corroborou e complementou o pensamento de Monike. "A gente precisa parar de pensar só no nosso. Todos nós artistas entendemos que um filme gasta muito. Mas existem outras linguagens. A única coisa que eu disse, e que não é ofensiva, é que todos estamos perdendo. Quantas pessoas nós já perdemos na dança e que fecharam seus espaços por não conseguir pagar seu aluguel? Não tenho raiva de nenhuma linguagem, só não concordo que nesse momento a gente distribua os recursos dessa forma porque a situação é grave para todos nós", avalia.

Para Moura, o setor cultural está na precariedade "desde que o Temer entrou": "Nossa função enquanto conselho é entender como a gente pode juntos equilibrar tudo isso e entenda que se o cinema está perdendo um pouco é para a sobrevivência de outros setores". Graça Castro e Silva complementa: "R$ 20 milhões só para um segmento é irreal. Nós temos 17 segmentos e temos que respeitar todo mundo, não é que o cinema não necessite".

Além dos conselheiros, a 4ª Reunião extraordinária do CEPC-CE teve a participação do secretário da Cultura Fabiano Piúba e de integrantes de coordenadorias da Secretaria da Cultura do Estado (Secult).

Laíze Fracalossi coordenadora de economia e gestora dos projetos de audiovisual da Secult fez um fala sobre o processo de reprogramação dos valores. Ela afirma que os montantes foram definidas em consonância com a Ancine e com editais passados, excluindo o XIV Edital Ceará Cinema e Vídeo, que tem um valor bem abaixo dos anteriores devido ao contexto de cortes. 

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"A primeira coisa é tomar cuidado para não romantizar os valores baixos. Você consegue fazer um documentário com menos dinheiro? Consegue. Mas é justo com a remuneração dos profissionais? A gente entende que é uma referência que não devemos utilizar", explica. Fracalossi afirma ainda que esse é um cenário que deve ser pensado também em outras linguagens e cita ainda que a pandemia, devido à necessidade da adoção de protocolos sanitários, encareceu os custos de produção do audiovisual.