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No aniversário de Fortaleza, artistas falam sobre suas saudades da Cidade

Hoje a capital cearense comemora 294 anos, mas não será possível comemorar o aniversário com show e se espalhando pelas ruas.

13/04/2020 09:26:06
Movimento de pessoas ao pôr do sol na praia do Mucuripe. Fim de tarde na avenida Beira Mar, antes da quarentena
Movimento de pessoas ao pôr do sol na praia do Mucuripe. Fim de tarde na avenida Beira Mar, antes da quarentena (Foto: CHICO ALENCAR, em 28/07/2015)

Qual foi a última vez que você passeou pela Beira Mar? Saiu com os amigos para beber no Benfica? Assistiu a um filme no Cineteatro São Luiz? Foi para uma festa na Praia de Iracema? Há três semanas, no dia 30 de março, o movimento comum da Cidade parou com o decreto da quarentena. Fortaleza, que hoje comemora 294 anos sem programação presencial, deixou nos moradores a saudade de viver em seus espaços.

O fortalezense, porém, mantém os lugares afetivos na memória. “Eu gosto muito de bar, livraria e café. Estou sentindo muita falta do Vilarejo 84, nosso barzinho preferido. É muito aconchegante, quase toda semana a gente estava lá”, recorda o ilustrador, Daniel Brandão. Para diminuir um pouco o sentimento, pediu delivery do bar.

Livraria Cultura, localizada no Shopping RioMar Fortaleza
Livraria Cultura, localizada no Shopping RioMar Fortaleza (Foto: Reprodução/Instagram )

Cafeterias, como o Bleecker Café, e livrarias, como a Cultura, também são ambientes que guardam as saudades. A primeira coisa que irá fazer depois deste período, porém, não é visitar esses locais. Pretende ver seu pai e seus amigos. “Todo contato está sendo por videoconferência e Whatsapp. Não pode tocar nas pessoas, não tem olho no olho, brinde de chopp, eu sinto falta desse contato real com as pessoas”, diz.

 

Essa sensação é compartilhada por milhares de fortalezenses. Para quem antes apreciava os caminhos que percorria diariamente, o olhar vai estar atento. “Embora eu já valorizasse esses espaços, agora vou com uma afetividade ainda mais potencializada”, afirma a escritora e professora universitária, Tércia Montenegro. O primeiro lugar que passou por sua mente é onde trabalha: no campus de Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC).

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“Em seguida, a Beira Mar, o sol. Livrarias e bibliotecas também. Apesar de termos esses artifícios da presença dos livros em casa, não é como você estar em uma biblioteca, em uma livraria, em que você tem um café, em que você encontra amigos, em que você conversa”, diz. Nesse momento, ela só se arrepende de não ter visto mais quem gostava. “Agora tenho contato apenas por e-mail, por Whatsapp. E não é a mesma coisa. Então, a gente fica sempre se arrependendo dos encontros que não aconteceram”, completa.

O modo de se relacionar migrou exclusivamente para os meios tecnológicos, mas não supre a necessidade de ver o outro. A artista visual, Simone Barreto, gosta de passear pelas pracinhas da Cidade 2000. Comer pratinho e pastel da “Loura” com os amigos e os vizinhos é uma de suas fortes lembranças e desejos para daqui a pouco.

É tomar um banho na praia da Sabiaguaba o que mais deseja fazer com sua mãe e sua filha. Depois, visitar suas tias. Ao falar desses lugares, sabe também que esse momento se assemelha muito aos primeiros meses da maternidade, quando não saía de casa. “Cada pessoa tem uma percepção. Eu sou mãe de uma criança de um ano e meio. Então essa situação me lembra esse período de ficar no ninho”, afirma.

Mesas de bares na praça do bairro Cidade 2000 antes da quarentena (Foto: Camila de Almeida/O POVO)
Mesas de bares na praça do bairro Cidade 2000 antes da quarentena (Foto: Camila de Almeida/O POVO) (Foto: CAMILA DE ALMEIDA)

Para o roteirista, Samuel Brasileiro, o que recorda com intensidade são os centros culturais. “Diversas pessoas estão se articulando para levar arte e cultura para as pessoas nesse período de isolamento social, mas com certeza o Centro Cultural do Grande Bom Jardim, os Cucas, o Dragão do Mar e outros estão fazendo falta”, comenta. O que deseja fazer logo depois da quarentena, entretanto, é abraçar seus avós.

Nem todos tiveram a oportunidade de viver a cidade enquanto podia. A artista Beatriz Soares, por exemplo, estava estudando na Espanha, quando teve que voltar para o Brasil por causa do novo coronavírus. Por isso, começou o processo de isolamento antes do que os outros. "Por estar fora, minha saudade é antiga e sinto falta de muitos lugares na Cidade. Desde as casas de pessoas queridas aos lugares da cidade em que as encontro", conta.

Como Samuel Brasileiro, também sente saudades dos espaços culturais. "Museu da Fotografia, Dragão do Mar, Porto Iracema das Artes, Museu de Arte da UFC, Centro Cultural Unifor, entre outros. Quero conhecer e usufruir mais, agora à luz do que aprendi na Faculdade de Belas Artes de Granada, da nossa arte local, que é bastante rica", diz Beatriz. Nesse momento, percebe também a mudança na arte, que se modifica com o uso mais constante e intenso das tecnologias. 

Bia Soares no Museu da Fotografia
Bia Soares no Museu da Fotografia (Foto: Arquivo pessoal)

Sem a possibilidade de comemorar o aniversário de Fortaleza da maneira habitual, os moradores celebram os 294 anos de uma cidade que, mesmo de perto, nunca fez tanta falta.

Sobre mudanças

Apesar de estar sendo um período marcante para a geração, Samuel Brasileiro não pensa que as relações irão se transformar “Isso nos reposiciona de muitas maneiras. Teríamos que repensar mudanças estruturais, que são complexas e não podem ser romantizadas. Por isso, não acho que as relações com a cidade e com os outros mudarão, mas deveriam”, afirma.

Para Tércia Montenegro, esse é o momento de repensar prioridades. “Eu acredito que, depois dessa experiência de quarentena, a maioria de nós vai mudar a visão do mundo. Vai deixar de ter tantas ambições que pareciam ser grandiosas, mas que estão se revelando miudezas. Tudo é tão passageiro, tudo é tão frágil”, observa.

O sonho de Simone Barreto também é de reflexão acerca da relação que a sociedade tem com a natureza e o outro. “Reinventar o nosso modo de existir, respeitando a natureza sendo menos extrativista”, idealiza. Para isso, porém, é necessário um pensamento coletivo, em que todos estão dispostos a ajudar e a construir juntos. “A gente vai ter que mudar para sair dessa situação”, finaliza.

"Embora os fortalezenses tenham descoberto que o belo pode ser visto da própria janela, nada como apreciar o pôr do sol, um céu mais limpo ou uma boa música, das ruas e praças de Fortaleza. Aprendi com os espanhóis que a vida acontece nas ruas e, portanto, sonho com ruas, calçadas e praças mais vivas e seguras", espera Beatriz Soares. Com esperança para o futuro, tem a expectativa de que, em breve, novos caminhos traçados e telas serão pintadas.