PUBLICIDADE
Vida & Arte
Aniversário de 292 anos de Fortaleza

"Lula livre" e repertório para cantar junto dão tom do show de Caetano na Praia de Iracema

Toques políticos e grandes sucessos da carreira marcaram o bonito e leve show de comemoração do aniversário de Fortaleza

11:04 | 14/04/2018
Caetano no palco, de pé com violão na mão e a marca do aniversário de 292 anos de Fortaleza ao fundo
(Foto: divulgação)
Ao finalizar seu show no aterinho da Praia de Iracema, aos 10 minutos do 14 de abril, Caetano Veloso ergueu a mão direita e disse: "Marielle, presente! Lula livre".
 
No dia que então começava, faz um mês desde o assassinato ainda não esclarecido na vereadora carioca. Na pouco mais de uma hora e vinte minutos anteriores, o músico baiano fez show de aniversário de Fortaleza, em 13 de abril. O tom político atravessou a apresentação.
 
Assista aos primeiros 25 minutos de show:
O encerramento foi a quarta menção a "Lula livre" por Caetano. Começou antes do show, com a plateia gritando instantes antes de o antigo compositor baiano subir ao palco. O animador que se preparava para chamá-lo pediu ao público para gritar e demonstrar empolgação enquanto a imagem do show era transmitida ao vivo pelo Facebook. Então, parte considerável da plateia começou a gritar "fora Temer". O brado gradualmente mudou e passou a ser entoado o pedido de liberdade do ex-presidente, preso desde 7 de abril. Na varanda de um apartamento em frente, a faixa: "Volta Lula".
 
 
Caetano fez menção ao petista pela primeira vez após Tigresa, quarta música da noite. O público começou a gritar. Ele deixou, escutou e, quando as manifestações diminuíram, ele completou: "Lula livre, fora Temer", para comemoração de parte significativa do público.
 
Ele voltou a repetir o mantra após o primeiro verso de Terra: "Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia". Então interrompeu e repetiu: "Lula livre". Uma terceira menção ocorreu depois da apresentação de Força Estranha.
 
Na área vip, estava o pré-candidato a presidente Ciro Gomes (PDT). O músico havia declarado voto no pedetista em post no Instagram na última segunda-feira, 9, quatro dias depois de ter sido anunciado atração principal da festa promovida pelo prefeito Roberto Cláudio (PDT), aliado do ex-ministro. Ao longo do ano passado, em pelo menos duas oportunidades Ciro declarou voto em Caetano.
 
 
 
O show
 
A apresentação foi diferente da que havia sido inicialmente anunciada. Originalmente, estava previsto o show de Caetano ao lado dos filhos Zeca, Moreno e Tom Veloso. Porém, a participação dos três foi cancelada - O POVO Online apurou que o motivo foi problema de saúde de Moreno.
 
Sem as companhias no espetáculo que tem levado pelo mundo - e que trouxe a Fortaleza em 11 de janeiro - o baiano fez um espetáculo diferente, de clássicas, para o público cantar junto. Pelas reações, a mudança de planos não foi mal recebida.
 
Caetano estava bem-humorado, leve, simpático - o que nem sempre ocorre em seus shows. Abriu com Luz do Sol e emendou Um Índio. Seguiu com Meu Bem, Meu Mal. Cantou Os Mutantes - Baby, com Diana incidental ("Oh, please stay by me, Diana").
 
Como futebol é uma presença constante e inevitável, ao cantar Tigresa, teve torcedor do Ceará se divertindo com o "E a tigresa possa mais do que o leão".
 
Na sequência da música, o artista deixou o público agitado com sua primeira referência pró-Lula e contra Temer.
Caetano Veloso canta Menino do Rio na Praia de Iracema: 
 
A empolgação dos espectadores ficou ainda maior com Menino do Rio. "Assim fica bonito, vocês cantando", agradeceu divertindo-se com o calor da plateia. Continuou com Nosso Estranho Amor e a delicada Leãozinho.
 
 
Cariri 
 
Num dos momentos mais singelos, Caetano homenageou Violeta Arraes. Ressaltou a importância para o Brasil da cearense de Araripe. Irmã de Miguel Arraes, secretária da Cultura do Ceará no primeiro governo Tasso Jereissati (PSDB), ela foi, no exílio, uma das principais vozes a denunciar no Exterior os crimes cometidos pela ditadura militar no Brasil.
 
O baiano improvisou. Disse que gostaria de cantar a música até o fim, que talvez não soubesse toda. Apresentou Meu Cariri, de Rosil Cavalcanti e Dilu Melo. "Lá no meu Cariri, quando a chuva não vem não fica mais ninguém”" entoou lindamente, acompanhado pelas palmas.
 
Após prosseguir por parte considerável da canção, desculpou-se por não completá-la e diz que gostaria de conseguir ir até o fim. "É tão bonita", encantou-se, enquanto tentava, com ajuda do público, recordar quem gravou pela primeira vez - lembraram a versão de Marinez, mas ele retrucou que havia uma anterior. Era de Ademilde Fonseca.
 
Na sequência, algumas das que mais tocaram em rádio: Você é Linda e Qualquer Coisa. Prosseguiu com Terra e a poderosa Gente (foi aplaudido sobretudo no trecho: "Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome"). Então, Cajuína.
No aniversário de Fortaleza, Sampa não deixa de ter certo toque de desaforo saborosamente recebido. Homenagem tão bonita a uma cidade que é como se celebrasse todas.
 
Foi marcante ver o público cantar junto É Proibido Proibir. "Essa canção faz 50 anos", recordou. A primeira apresentação foi em 15 de setembro de 1968, no terceiro Festival Internacional da Canção. Diferentemente da apoteose desta sexta-feira, a música foi recebida com vaias enfurecidas. Caetano discutiu com o público e fez discurso que ficou marcado.
 
"Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir este ano uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado. São a mesma juventude e vão sempre matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem".
 
O show prosseguiu com Desde que o Samba é Samba. Reconvexo foi mais um grande momento, com direito a manifestação do público no "quem não rezou a novena de dona Canô". Em Força Estranha, ele enfatizou o "no ar", inclusão feita a pedido de Roberto Carlos, que inspirou a canção ("Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista. O tempo não pára e, no entanto, ele nunca envelhece"), mas se incomodava com o "estranha". Incluir "força estranha no ar" foi jeito de essa carga negativa ficar "para fora" e não ficar com ele.
 
A seguir veio Sozinho, de Peninha. E saiu do palco com A Luz de Tieta. Para quem conhece a gravação ao vivo com a Timbalada, foi divertido ver de perto a plateia cantar "Eta, eta, eta" fora de tempo - alguns certamente de propósito. No bis, Odara, Lua de São José para fechar uma noite que deliciou os fãs.
 
Assista ao webdoc Riqueza das Favelas, parte do especial de aniversário de Fortaleza:
 
 
 
Érico Firmo