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Vida & Arte
entrevista

"O conceito de liberdade atual é infantil", diz Leandro Karnal durante palestra em Fortaleza

O pensador comentou ainda a relação entre mídia e liberdade; felicidade; e patologias sociais modernas. Confira entrevista

15:40 | 10/03/2018
Foto: Divulgação
O conceito narcisista e egoísta da liberdade trazido pelas redes sociais é “infantil”, de acordo com o professor, escritor, historiador e pensador Leandro Karnal. Ele deu palestra em Fortaleza, na noite desta sexta-feira, 9, no Teatro RioMar. Com o tema “Felicidade e  liberdade: a busca por um mundo de significados reais”, a palestra analisou valores, transformações e sintomas da sociedade pós-moderna. Confira entrevista:
 
Como as mídias mudaram o conceito de liberdade?
Trouxeram um conceito infantil. ‘Ser livre é me vestir, comer e dizer o que eu quero’. Existe uma confusão profunda. Há o conceito de liberdade estratégica, que pensa a médio e longo prazos e inclusive nega a si para atingir objetivos. E há o conceito infantil de liberdade: ‘eu sou livre quando eu faço o que eu quero’, o que não é verdade.
 
Que questões estimulam este pensamento infantil?
Em todo caso, mídias, internet e computador são técnicas. Técnicas são, a rigor, neutros.
Um martelo pode ser usado para bater um prego ou matar uma pessoa. A técnica não é, em si, algo ruim ou bom. Depende sempre de quem controla. Internet é uma maravilha. As mídias sociais facilitam a vida em vários sentidos. Tudo isso tornou o mundo melhor em muitos sentidos. Mas como lembra Mc Luhan, especialista que definiu a Comunicação no século XX, ‘eu sou também trilhado pela técnica’. Então, minha maneira de registrar influencia minha maneira de perceber as coisas. Somos um mundo mais rápido, de mais imagens, de orações não complexas, que elimina orações subordinadas, já eliminou o pretérito mais que perfeito… uma série de procedimentos gramaticais e de expressão que não fazem mais sentido. Então não se deve atribuir apenas às mídias sociais.
 
A felicidade parece inalcançável, nessas redes. O que se perdeu do conceito de felicidade? É uma frustração constante?
Temos uma novidade: somos a primeira geração da espécie humana que considera felicidade uma obrigação existencial. Se você pegar a foto dos seus avós, nenhum deles está sorrindo. Não se sorria numa foto, porque não se achava que a exibição de felicidade fosse uma obrigação. Pelo contrário, ‘muito riso pouco siso’. Pessoas que viviam rindo eram consideradas um pouco tontas, um pouco infantis. Substituímos essa relativa indiferença à felicidade, essa relativa indiferença ao processo de realização em vida por uma outra coisa: todos são obrigados a ser felizes. Inclusive, ao frequentar o RH para uma entrevista. Você só consegue um emprego, se você demonstra que a sua vida é muito boa, se seu projeto de vida tem a ver com o daquela empresa. Isso é um equívoco. Em primeiro lugar, porque a felicidade tem como condição essencial indispensável a oscilação entre momentos felizes e menos felizes. Você só sabe que é feliz se você não foi feliz no passado. A felicidade contínua, paradisíaca, é improdutiva, ela não tem referência. Eu só valorizo a saúde quando eu tenho doença. Nenhuma criança pensa em saúde. Nós passamos a pensar em saúde quando passamos a ter riscos frequentes em perdê-la. Então uma conversa entre pessoas da minha idade costuma incluir muito: 'que remédio você toma?', 'qual é o seu clínico geral? Porque nós sentimos uma diminuição de forças. Isso vai fazer com que eu valorize a saúde: ‘como eu acordei sem dor?!’. Obrigação de ser feliz é cafona. Ficar sorrindo o tempo todo no Facebook é algo profundamente cafona. Ele pode ser uma forma de contato afetivo com as pessoas que eu quero, desde que eu não acredite que as estátuas gregas representam o homem grego. Elas representavam o ideal de homem grego. As fotos no Facebook não me representam, representam uma vida que eu gostaria de ter. E, no futuro do pretérito gostar, essa vida pode servir de impulso para eu crescer.
 
 
Em algum momento o senhor comentou que hoje os normais são loucos e os loucos são normais…
A ideia é de Erasmo de Rotterdam, do século XVI, no livro O Elogio da Loucura. Ele dizia viver numa época na qual as pessoas desequilibradas pareciam ser as mais normais. E as equilibradas são anormais. Quando você submete a pessoa ao endividamento porque ela foi ao shopping comprar mais do que necessitava, além da sua capacidade de compra, para impressionar pessoas que odeiam porque está bem vestida, temos uma patologia. Quando se faz uma pessoa utilizar recursos, como anabolizantes para que o corpo atinja o máximo da exibição da saúde, quando, na verdade, compromete a saúde, temos uma patologia. Quando uma pessoa precisa só parecer feliz para o mundo, sendo infeliz, talvez os depressivos sejam os maiores representantes século XXI, já que a depressão é uma profunda doença do século. Então, nem todo louco é normal, mas a ‘normalidade’ da sociedade está um pouco patológica.
 
No caos e rapidez modernos, como chegar ao equilíbrio?
Você deve distinguir se você precisa dessa agilidade para atingir um objetivo, senão você entra num círculo vicioso em que você começa a fazer mais coisas e dá conta de cada vez menos. Então, o primeiro procedimento é inspirado no budismo, que considera a distração um dos venenos da alma. Quando eu estou falando e ao celular, ouvindo uma música, comendo e dirigindo, estou fazendo nada bem: me esgotando completamente e sendo incompetente ao arriscar minha vida. Logo, o primeiro passo para o mundo contemporâneo é fazer uma coisa de cada vez. Concentrado, você vai produzir muito mais e mais rapidamente. Evite fazer tudo ao mesmo tempo. 
 
Adailma Mendes