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Vida & Arte
Mostra de Cinema

"Os índios não precisam de um cineasta branco", destaca diretor de Ara Pyau

Documentário que evidencia resistência indígena na periferia de São Paulo foi ovacionado pela plateia na Mostra de Cinema de Tiradentes

15:35 | 25/01/2018
Foto: Reprodução
As questões raciais e étnicas têm conseguido protagonismo na Mostra de Cinema de Tiradentes, uma das mais importantes do País. Prova disso é a presença do documentário Ara Pyau – A Primavera Guarani concorrendo na Mostra Aurora como um dos principais destaques da programação do festival. O longa foi dirigido por Carlos Eduardo Magalhães a pedido dos próprios indígenas e narra a mobilização de oitocentos guaranis da periferia de São Paulo que, no ano passado, enfrentaram o poder público na defesa da demarcação de terras. A obra foi exibida na quarta-feira, 24, no Cine-tenda, um dos espaços da 21ª edição do evento.
 
“Os índios não precisam de um cineasta branco para fazer filme, isso foi um presente que eu ganhei, porque tem muitos cineastas nas aldeias”, destacou o diretor em debate sobre o filme no começo da tarde desta quinta-feira, 25. O realizador afirma que o convite veio das lideranças indígenas e que ele buscou suprir as expectativas de quem estava vivendo aquela situação extrema de luta por moradia. “Esse filme é uma encomenda dos índios guaranis, a Geni (Vidal), umas da lideranças, chegou para mim e pediu um filme em que parecia que ia dar tudo errado. ‘Aí de repente, aparece o Batman,  o Homem-aranha, se juntam, e a gente vence. será que você consegue fazer um filme assim?’, ela pediu”, relatou Carlos, arrancando risos do público.
 
Ao mergulhar nessa resistência que foi marcada por mobilizações na Avenida Paulista e pela tomada das antenas de transmissão de TVs do Pico do Jaraguá, Carlos construiu uma narrativa com tons épicos. “A referência de construção do filme foi do cinema pop. Eu não vou ficar inventando uma tese nova, ou uma roda nova, a minha comunicação com eles foi muito direta”, contou.
 
Com experiência em publicidade, o realizador se valeu de técnicas da propaganda para construir o documentário. “Pode parecer um comercial da Eletrobrás, mas é um comercial dos índios. Eu venho da publicidade, eu tenho conhecimento da técnica publicitária e quis usar essa técnica a serviço desse cliente”, afirmou. Segundo Carlos, não havia a intenção de apresentar a tribo com olhos de ingenuidade. “Não tem nada mais moderno hoje em dia do que você saber produzir sua própria comida, você saber plantar é uma modernidade muito maior do que altas tecnologias”.
 
A mesa de debate no Cineteatro Sesi, no Centro Cultural Yves Alves, foi composta também pelo crítico de cinema Victor Magalhães (MG), o mediador foi o jornalista Marcelo Miranda (MG) e uma representante guarani também esteve presente: Pará Vidal. “Estamos na luta desde os 14 anos de idade, na verdade, desde os 10, 11 anos já estavam sofrendo, sem água, sem terra, sem floresta. Aí o jovem fica com medo e, com medo, o jovem tem a força”, apontou a adolescente de 16 anos. 
 
O jornalista viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes*

RENATO ABê