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Vida e Arte
cinema

Sobre incongruências

Dois longas exibidos na competitiva da Mostra de Cinema de Tiradentes trazem formas distintas de incongruência

26/01/2019 10:54:14
Mostra Aurora, exibida durante a 22ª edição da Mostra de Tiradentes
Mostra Aurora, exibida durante a 22ª edição da Mostra de Tiradentes

Na noite do último dia 24, quarto dia de exibição dos filmes da Mostra Aurora, a principal competitiva da Mostra de Cinema de Tiradentes, a aproximação temporal das sessões do paraibano Desvio, de Arthur Lins, e do goiano Vermelha, de Getúlio Ribeiro, trouxe diversas questões relacionadas à construção de ficções.

O primeiro filme se passa em Patos, interior da Paraíba, e conta a história de Pedro (Daniel Porpino), um detento por volta dos 30 anos que recebe o direito de saída temporária da penitenciária pela ocasião do Natal e, então, reencontra o passado nas figuras da família - sejam os núcleos mais próximos ou aqueles mais distantes - e dos amigos. O segundo mostra o universo singular de Gaúcho, sua família e amigos, num recorte que se dá sem sucessões lógicas ou obviedades.

Desvio se debruça, especialmente, na relação que Pedro constrói com a prima mais jovem, Pâmela, uma jovem de cerca de 18 anos que faz parte de um círculo do hardcore e rejeita a ideia, por exemplo, de fazer o Enem. Há ainda as figuras maternais que rodeiam o personagem: além da própria mãe dele, há ainda a avó. Apesar de estabelecer seus melhores momentos ao dar conta dessas relações - que criam relações paralelas entre o passado de Pedro e o presente que ele encontra, como o fato de que o próprio foi um nome importante da cena que sua prima frequenta, por exemplo -, o filme, como o nome já avisa, aposta em desvios constantes de foco.

Em dado momento há a relação familiar, em outro a busca por uma espécie de redenção e perdão, sem falar de desdobramentos de trama que parecem pouco justificados na relação das sequências. No debate, ocorrido na manhã de sexta, 25, o diretor justificou afirmando que não "daria conta" de todos os desdobramentos e intenções das personagens, procurando ter um olhar não julgador, pautado numa referência explicita por ele no cinema dos irmãos Dardenne, diretores belgas.

A construção de Vermelha, por sua vez, se baseia justamente na não-relação óbvia das cenas e sequências, pelo menos em um primeiro olhar. Na apresentação do filme na exibição de quinta, a equipe explicou que a obra foi filmada na casa do realizador, tendo como atores o próprio círculo afetivo de Getúlio, entre família, agregados e amigos. Mesmo que tenha essa relação direta com o "real", a obra se assume como uma ficção tanto na forma quanto nos discursos do cineasta e da equipe.

O tempo do filme é, em si, um destaque, sendo estabelecido através da decupagem, dos cortes e das frequentes incongruências que constroem o longa - sejam estas de som e imagem, de cena para cena ou mesmo de enquadramentos pouco óbvios. Há uma proposta que, ao mesmo tempo, se baseia na aleatoriedade e no improviso de vários diálogos - como a equipe assumiu no debate, também ocorrida na sexta - e dá conta de refletir concretamente sobre questões formais, como as noções de narrativa, estética e dramaturgia.

Parque Oeste é aqui

Também foi exibido na noite da quinta outro longa goiano, o documentário Parque Oeste, da cineasta Fabiana Assis. O filme mostra os processos de desapropriação e luta por moradia e direitos que acompanham os moradores do bairro estabelecido hoje com o nome de Real Conquista. Essa história é contada tendo como ponto central Eronilde Nascimento, liderança da comunidade.

Em 2005, a ocupação do Parque Oeste foi violentamente desapropriada pelo então governo goiano através da ação policial, o que se desdobrou na morte do companheiro de Eronilde e num longo processo de luta por moradia. No debate, também ocorrido na manhã de sexta, a protagonista lembrou que ações do tipo acontecem diariamente, em diversos locais, há anos. Os paralelos com diversos movimentos semelhantes ocorridos no Ceará - como o do Alto da Paz, para citar um - fazem do filme um registro de importante circulação.

Utilizando imagens de arquivo da época da desapropriação que remetem a um cenário de guerra, o longa ainda dá conta da importância da preservação da memória, posto que Eronilde guarda registros em vídeo, fotos e documentos de todo o processo que os moradores do então Parque Oeste passaram - de criminalização por parte da justiça, mobilização comunitária e posterior conquista de moradias. Real Conquista ainda precisa de escola, serviços básicos de saúde e lazer, mas o filme mostra que não será por falta de luta que essas ausências podem se prolongar.

joao gabriel tréz/ enviado a tiradentes