O debate sobre a jornada de trabalho no Brasil voltou ao centro das discussões políticas e econômicas, despertando reações intensas de diferentes setores. A proposta que busca encerrar o modelo tradicional de seis dias trabalhados e um de descanso — conhecido como escala 6×1 — ganhou força no Congresso Nacional e provocou apreensão entre empresários e entidades representativas da indústria e do comércio.
O tema, que divide opiniões, vem sendo acompanhado de perto por sindicatos e pela sociedade civil. Enquanto boa parte da população apoia a mudança por enxergar nela um avanço na qualidade de vida dos trabalhadores, representantes empresariais alertam para possíveis impactos negativos sobre a economia, os empregos e a competitividade das empresas brasileiras.
Proposta avança no Senado e divide opiniões
A discussão ganhou novo fôlego após a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2025. O texto prevê que a jornada máxima de trabalho passe a ser de oito horas diárias e 36 horas semanais, distribuídas em até cinco dias por semana, garantindo dois dias de descanso. Atualmente, a Constituição permite jornadas de até 44 horas semanais, o que, na prática, se traduz em apenas um dia de folga.
Pesquisas de opinião apontam que a população está majoritariamente a favor da mudança. Levantamentos recentes indicam que o apoio ao fim da escala 6×1 é maior no Nordeste, onde cerca de 74% dos entrevistados se mostram favoráveis, enquanto no Sul o índice é de 56%. O Sudeste se destaca como a região onde mais pessoas acreditam que a redução da jornada pode aumentar a produtividade, alcançando 59% das respostas.
Por outro lado, entidades empresariais avaliam o tema com cautela. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) defende que qualquer mudança nesse sentido deve ser discutida por meio de negociações coletivas, levando em conta as particularidades de cada categoria. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também demonstrou preocupação com o impacto da redução da jornada sobre os custos de produção e o nível de emprego formal. Para a entidade, a alteração pode comprometer a competitividade das empresas nacionais e afetar o equilíbrio econômico de diversos setores.
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) foi além e divulgou um estudo alertando para o possível fechamento de até 18 milhões de vagas de trabalho caso a PEC seja aprovada sem ajustes. A federação também estimou que a medida poderia provocar uma queda de até 16% no Produto Interno Bruto (PIB), o que representaria uma perda de trilhões de reais na economia.
Sindicatos apoiam e governo sinaliza aprovação
Enquanto o setor produtivo vê riscos, as centrais sindicais enxergam na proposta uma oportunidade de corrigir desigualdades históricas. Para entidades como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a redução da jornada sem diminuição salarial representa um avanço necessário diante das transformações tecnológicas e do aumento da produtividade. O argumento é de que, com máquinas e softwares assumindo parte das funções humanas, é possível reduzir o tempo de trabalho sem prejuízo para a economia.
O governo federal também demonstra apoio à proposta. Integrantes da base afirmam que a medida está alinhada com a política de valorização do trabalho e de melhoria da qualidade de vida da população. Dentro do Palácio do Planalto, a PEC é vista como uma continuação das ações voltadas à proteção do trabalhador, complementando medidas anteriores, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda.
Apesar das críticas do empresariado, o projeto deve seguir sua tramitação regular. Após a aprovação na CCJ, a PEC ainda precisa ser votada em dois turnos no plenário do Senado antes de seguir para a Câmara dos Deputados. Se o texto for mantido sem alterações, a mudança poderá ser promulgada e entrar em vigor nos próximos anos, marcando uma transformação significativa na rotina de milhões de brasileiros.




