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Vencedor do Nobel de Medicina, estudos com "células de grade" seguem em observação para Alzheimer

Segunda parte da pesquisa agora passará a identificar as relações da grade com a doença. A função descoberta pelos especialistas traz a resposta de onde estamos e qual a nossa relação com um lugar, espaço ou memória, dividindo-a entre memórias pertinentes e e temporárias
12:44 | Set. 28, 2020
Autor Marília Freitas
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Marília Freitas Estagiária do O POVO Online
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Tipo Notícia

Na úlltima semana, o Dia Mundial do Alzheimer relembrou uma pesquisa que pode mudar os rumos atuais da doença. O estudo, premiado em 2014 com o Nobel de Medicina, mostra um posicionamento no cérebro humano parecido com um 'GPS' do órgão nervoso.

Três pesquisadores são responsáveis pela descoberta: John O'Keefe e o casal May-Britt Moser e Edvard Moser. O mapeamento traz uma sequência de células coordenadas que reagem ao sistema nervoso, conhecido como células de grade. A função orienta onde estamos e qual a nossa relação com um lugar, espaço ou memória, dividindo-a entre memórias pertinentes e e temporárias.

A segunda parte da pesquisa agora consiste em identificar a relação do mapeamento com o Alzheimer. "A área do cérebro que contém todas essas células especializadas e registra a passagem do tempo costuma ser a primeira região a ser danificada no Alzheimer", disse Edvard Moser à BBC News Mundo.

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O Alzheimer é uma enfermidade que se apresenta como demência, causada pela perda de funções cognitivas como a memória e linguagem. No Brasil, a Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) estima cerca de 1,2 milhão de casos no País - a maior parte deles sem diagnóstico.

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A pesquisa que rendeu o maior prêmio da Medicina ao trio

John O'Keefe possibilitou o início dos estudos da rede neural da memória do hipocampo - principal estrutura no nosso cérebro responsável pela memória. Em 1971, uma pesquisa do médico identificou que a região tem "células locais" que disparam quando um roedor está em um determinado local.

"Mas não estava claro se esses sinais de lugar se originaram no próprio hipocampo ou vieram de fora", explicam os especialistas no site do Instituto Kavli para Sistemas de Neurociência da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, fundado pelos Moser após o início dos estudos.

Durante o processo, logo perceberam sinais emitidos em outro lugar do cérebro, o córtex entorrinal. A região tem importantes conexões diretas com uma das áreas do hipocampo. O caminho até a descoberta principal - em 2002 - foi longo.

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Logo o trio percebeu que muitas células entorrinais aumentavam sua frequência emitida no cérebro cada vez que um rato ia a um determinado local. Os locais formavam um padrão regular, como uma grade hexagonal, e mantinham um relacionamento de disparo de um ambiente para outro, formando uma espécie de mapeamento do cérebro. 

O padrão de grade entre as duas áreas, publicado em 2005, originou outras pesquisas que ajudaram a responder como sabemos onde estamos e por quê nós andamos até aonde vamos?. ''Como o padrão é tão confiável e regular, ele pode nos colocar no caminho certo para entender os cálculos fundamentais do córtex", explicam os ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina.

Entretanto, nada da pesquisa do trio seria possível sem um paciente especial: conhecido como H.M., suas iniciais eram usadas para preservar a identidade de um homem revolucionário para o campo da medicina neurológica.

O paciente H.M.

Ainda criança, H.M. passou a sofrer com convulsões após um acidente de bicicleta. Só aos 27 anos é que ele aceitou fazer parte de um procedimento em que os hipocampos de seu cérebro seriam removidos. Após o procedimento, o homem parou de ter convulsões e seu quociente de inteligência aumentou, de acordo com informações da BBC.

Mas logo os médicos perceberam que ele não conseguia lembrar de atividades recentes - como o que tomou no café da manhã ou se tinha ido ao banheiro. Elas eram passageiras, diferentemente das memórias antigas. H.M. conseguia lembrar de sua infância e de detalhes específicos de sua vida antes da cirurgia, mas todas as lembranças após a cirurgia seriam instantâneas.

Logo o caso intrigou especialistas, no qual trabalharam por quase cinco décadas com o paciente revelado posteriormente como Henry Molaison. Ele foi o único a passar pelo procedimento, considerado um marco. Seu cérebro segue sendo pesquisado para informações mais precisas sobre o funcionamento do órgão e suas patologias, como o Alzheimer.

 

 

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