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REPRODUÇÃO ASSISTIDA

Importação de sêmen teve aumento de 97% em um ano; 91% preferem doadores brancos

Relatório da Anvisa também aponta que importação de oócitos, células germinativas femininas, teve aumento de 1.359% entre 2016 e 2017

22:28 | 28/01/2019
Bancos da região Sudeste foram os que mais receberam material importado (Foto: AFP)
Bancos da região Sudeste foram os que mais receberam material importado (Foto: AFP)

O número de importações de sêmen de doadores anônimos para realização de procedimentos de reprodução assistida aumentou 97% no Brasil. Só em 2017 foram 860 autorizações, quase o dobro quando comparado a 2016, ano que registou 436 importações. Já o número de importações de oócitos, células germinativas femininas, subiu 1.359%, levando em conta que em 2017 foram importados 321 oócitos, ante 22 entre o período 2015-2016.

A maior parte das importações, em 2017, foi destinada a Bancos de Células e Tecidos Germinativos (BCTGs) de São aulo, 479 ao todo. O estado do Ceará recebeu apenas 15 amostras. Os dados fazem parte do 2º Relatório Dados de Importação de Células e Tecidos Germinativos para Usos em Reprodução Humana Assistida e foram divulgados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em dezembro do ano passado.

De acordo com o especialista em medicina reprodutiva Daniel Diógenes, os casais que buscam importar células germinativas em bancos internacionais têm mais acesso às informações dos doadores. “Em alguns bancos dos Estados Unidos, por exemplo, é possível ter acesso a fotos dos doadores, algo que não é permitido aqui no Brasil”, afirma.

Para além disso, os bancos internacionais, de acordo com o relatório, também costumam divulgar dados sobre cor dos olhos e cabelos, formação profissional, tipo sanguíneo, faixa etária e perfil psicológico. Entra na lista, também, informações sobre o estilo de vida, como signo, religião e hobbies.

Segundo o médico ginecologista Fábio Eugênio, especialista em reprodução humana, os bancos norte-americanos costumam, inclusive, promover o contato entre doadores e importadores. “Muitas vezes (quem importa as células) pode ser colocado em contato telefônico com essa pessoa (que doa as células), eles podem trocar e-mails, podem trocar informações, WhatsApp. É permitido um acesso direto aos doadores”, relata.

Preferência por doadores brancos

Outro ponto que chama atenção no relatório diz respeito às características fenotípicas dos doadores de sêmen. A maioria (91%) possui pele branca, sendo 45% com olhos azuis e 67% com cabelos castanhos. Já as doadoras de oócitos são 88% de ascendência caucasiana, com olhos e cabelos castanhos – 49% e 65% respectivamente.

Por outro lado, a preferência por doadores brancos, de acordo Anna Erika Lima, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), esse comportamento reflete o preconceito racial que resiste na sociedade brasileira. "Isso demonstra que há uma busca pelo branqueamento social. As pessoas acreditam que esse perfil seria o mais ideal, o mais bem aceito. Para muitos, ter descendentes brancos ainda significa aos filhos a garantia de melhores oportunidades de emprego e relacionamentos sociais", avalia.

Valores

De acordo com o relatório divulgado pela Anvisa, não existem bancos de oócitos congelados para adoção no Brasil, o que acaba encarecendo o processo de importação dessas células germinativas. Segundo Daniel Diógenes, um conjunto de cinco células desse tipo, vindos da Espanha, chega a custar cinco mil euros, de acordo com o especialista.

Esses valores não estão inclusos no custo total do tratamento de reprodução assistida, que pode chegar a R$ 20 mil nos casos de fertilização in vitro (FIV), custo mais alto do que o tratamento de inseminação artificial, que sai em torno de R$ 5 mil.

Perfil dos casais

Em relação ao perfil dos solicitantes, a pesquisa indica que casais heterossexuais realizaram a maior parte dos pedidos por amostras de sêmen, seguidas de mulheres solteiras e de casais homoafetivos formados por mulheres, em 3º lugar. Quanto à importação de óvulos, todas as amostras foram destinadas a casais heterossexuais.

Distribuição regional

Os Bancos de Células e Tecidos Germinativos (BCTGs) da região Sudeste foram os que mais receberam esse tipo de material, com 73% das anuências de sêmen emitidas em 2017, seguidos pelos da Região Sul (13%), Nordeste (8%) e Centro-Oeste (6%). Em relação à importação de oócitos no ano passado, 100% das amostras foram enviadas para a região Sudeste, que concentra 57% dos BCGTs nacionais.

Nut Pereira