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"Não há evidência de novo ciclo de microcefalia", diz ministro da Saúde

Em entrevista ao O POVO Online, o ministro Ricardo Barros fala sobre a redução de casos de microcefalia no Brasil. Ele também faz balanço sobre o combate ao mosquito Aedes aegypti

19:26 | 06/12/2016
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São 66 novos casos de microcefalia registrados no último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, em comparação com a semana anterior. A curva da microcefalia no País desde o surto da má-formação indica que os casos vem diminuindo a cada semana.
 
[FOTO1][SAIBAMAIS]
 
O ministro da Saúde, Ricardo Barros, diz que, neste momento, "não há evidência científica de um novo ciclo de casos de microcefalia" no País. A sazonalidade do vírus da zika, que está associado ao processo de má formação dos recém-nascidos, é um dos fatores que podem ter contribuído para essa redução.
 
Porém, em entrevista exclusiva ao O POVO Online, Barros enfatiza que não se pode baixar a guarda contra o mosquito Aedes aegypti, transmissor do vírus da zika, dengue e chikungunya. O ministro faz um balanço das ações do Governo Federal para o combate do mosquito e fala das pesquisas relacionadas aos impactos do vírus zika na população brasileira.
 
O POVO Online - Sobre o controle do Aedes aegypti, há algum alerta específico para o Ceará, que está no quinto ano consecutivo de seca e, sem chuvas, a população pode achar que não há razão para se preocupar com os focos do mosquito?
 
Ricardo Barros - A preocupação com o mosquito Aedes não deve ser abandonada devido à seca. Devemos lembrar que os ovos que carregam o embrião do mosquito podem suportar até um ano a seca e serem transportados por longas distâncias, grudados nas bordas dos recipientes e esperando um ambiente úmido para se desenvolverem. Essa é uma das razões para a difícil erradicação do mosquito.
 
É muito importante a mobilização permanente de ações de combate e controle do vetor, mesmo nos períodos que não há grande circulação do mosquito. Por isso temos nos preocupado, especialmente, com a chegada do verão. No entanto, é importante lembrar que as ações de prevenção e combate ao mosquito - que são permanentes e contínuas – devem ser intensificadas.
 
Estamos realizando mobilizações nacionais para coleta de pneus em diversos municípios. Outra medida será reafirmar o Pacto da Educação Brasileira contra o Zika e sensibilizar os governadores e gestores municipais sobre a importância da continuidade das ações de combate ao mosquito. Também é essencial a conscientização de toda a população para o reforço nos cuidados para eliminar possíveis criadouros.
 
Na última sexta-feira, 2, por exemplo, ministros de Estado e outras autoridades federais visitaram todos os estados com a missão de conscientizar a população sobre a importância do engajamento de todos na luta contra o Aedes aegypti.
 
Em Fortaleza, tivemos o ministro do Turismo Marx Beltrão acompanhando de perto a mobilização na capital cearense. A ação fez parte do Dia Nacional de Combate ao Mosquito, que acontece em todo o Brasil.
 
Programamos atividades integradas e simultâneas, desenvolvidas em articulação com prefeituras, governos estaduais e população. É importante que a população do Ceará se integre conosco em ações permanentes de combate ao mosquito, o apoio e a mobilização de cada cidadão potencializam os resultados das ações propostas pelos governos.
 
O POVO Online - Está planejado envio de tropas federais para ajudar no controle do mosquito no Ceará? Se sim, como será a ação?
 
Ricardo Barros - Sim, teremos militares das Forças Armadas, agentes de saúde e de defesa civil, além de outras autoridades, nas ruas de todas as capitais brasileiras nessa sexta-feira, 9, para promover o enfrentamento ao Aedes. O mutirão de hoje (segunda-feira, 5) será realizado em órgãos públicos e estatais, unidades de saúde, escolas, residências, canteiros de obras e outros locais, marcando a intensificação das ações de combate e, consequentemente, impedindo a proliferação do mosquito.
 
A ideia é que, a partir desse Dia D sejam dedicadas para verificação de possíveis focos, incentivando todos os segmentos da sociedade à sua parte. Essa campanha traz como foco “Sexta sem mosquito. Toda sexta é dia do mutirão nacional de combate”.
 
Além disso, sabemos que o período do verão é o mais preocupante, do ponto de vista epidemiológico, em relação à transmissão da dengue, chikungunya e Zika. O aumento de casos dessas doenças é esperado nos próximos meses, devido ao calor e às chuvas, condições ideais para a proliferação do Aedes aegypti.
 
Historicamente, o pico dos casos de dengue ocorre entre dezembro e abril. Esse comportamento também é previsto para as outras doenças transmitidas pelo mosquito, como chikungunya e Zika.
 
O POVO Online - Já se passou mais de um ano desde o início do surto de microcefalia associada ao vírus zika. Qual projeção o Ministério da Saúde faz para o número de casos em 2017, há alguma sinalização de redução ou estabilização dos números?
 
Ricardo Barros - O Ministério da Saúde tem tratado o tema como prioridade dentro da pasta. Desde a identificação do vírus Zika no Brasil e sua associação com os casos de má formações neurológicas, no segundo semestre de 2015, o Governo Federal mobilizou todos os órgãos federais para atuar conjuntamente, além de contar com a participação dos governos estaduais e municipais.
 
No final do ano passado, com o aumento do registro de casos das doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti e suas complicações, o Ministério da Saúde decretou Situação de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional e criou o Plano Nacional de Enfrentamento ao Aedes aegypti e à Microcefalia, com medidas emergenciais que estão sendo colocadas em prática para intensificar as ações de combate ao mosquito.
 
Vale ressaltar que o Brasil tem um programa permanente de prevenção e controle do mosquito, com ações compartilhadas entre União, estados e municípios, durante todo o ano.
 
Desde os primeiros casos, em novembro de 2015, o Ministério da Saúde publica regularmente o Informe Epidemiológico Nacional de Monitoramento dos casos de Microcefalia e/ou Alterações do Sistema Nervoso Central.
 
Considerando o número de casos suspeitos notificados no ano de 2016, segundo as semanas epidemiológicas de notificação, o maior número de casos novos foi notificado na semana de 6 a 12 de fevereiro de 2016, totalizando 603 casos suspeitos. Desde então, foi observado uma redução gradual dos casos novos suspeitos notificados semanalmente. Neste momento, não há evidência científica de novo ciclo de casos de microcefalia, já que os números são menores quando comparado com os dados de 2015.
 
É importante esclarecer que diversos fatores podem ter influenciado a redução observada no número de notificações ao longo do tempo, como a redução de casos de vírus Zika em grávidas (especialmente no primeiro trimestre de gestação) há nove meses.
 
Além disso, a sazonalidade da febre pelo vírus Zika no Brasil pode ter influenciado a curva epidêmica das complicações relacionadas a essa doença. Os números reforçam, mais uma vez, que os resultados das ações de enfrentamento ao mosquito Aedes aegypti, intensificadas pelo Governo Federal desde o final do ano passado, contribuíram para a queda nos casos de Zika e, consequentemente de microcefalia.
 
Vale destacar que ainda existem lacunas no conhecimento na literatura internacional, pois a mudança no padrão de ocorrência de microcefalia e alterações do sistema nervoso central é um evento inusitado, com pouco mais de um ano do relato dos primeiros casos. Por isso, a formulação de hipóteses sobre o comportamento epidemiológico de ocorrência dessas anomalias ainda necessita de estudos mais aprofundados. Nesse sentido, o Ministério tem participado e financiado diversos estudos, o que permitirá a tomada de decisão baseada em evidências.
 
O POVO Online - Há um edital lançado pelo Ministério da Saúde para a realização de pesquisas sobre zika. Ao mesmo tempo, a rede de saúde precisa se estruturar para acolher e acompanhar estas crianças que têm algum comprometimento associado à zika. Qual tem sido a prioridade de destinação dos recursos pelo Ministério da Saúde?
 
Ricardo Barros - A pesquisa de novas tecnologias relacionadas ao combate do mosquito Aedes Aegypti e o zika é uma prioridade dentro do ministério. A pasta já se comprometeu, desde novembro do ano passado, com cerca de R$ 130 milhões para o desenvolvimento de vacinas e novas tecnologias nesta área.
 
Desse total, R$ 100 milhões são para custear a terceira e última fase da pesquisa clínica da vacina da dengue que está sendo desenvolvida pelo Instituto Butantan. Essa vacina tem potencial para proteger contra os quatro vírus da dengue com uma única dose, além de poder ser aplicada em pessoas de todas as idades, inclusive em crianças e idosos, consideradas as populações mais vulneráveis.
 
Outra pesquisa em que estamos investindo é da vacina contra o vírus Zika. Liberamos R$ 11,6 milhões para o desenvolvimento de vacina contra o vírus Zika pela Fiocruz. Do total, cerca de R$ 6 milhões (US$ 1,5 milhão) serão destinados para projetos de cooperação bilateral para pesquisas sobre o vírus zika e microcefalia entre a Fiocruz e o National Institutes of Health (NIH). Os outros R$ 5,6 milhões serão para o desenvolvimento da vacina contra o vírus Zika.
 
Há também a pesquisa para a vacina contra zika que está sendo  desenvolvida pelo Instituto Evandro Chagas  em parceria com a Universidade Medical Branch do Texas, Estados Unidos. Os testes pré-clínicos (em primatas e camundongos) foram antecipados e serão realizados já em novembro deste ano.
 
O estudo conta com o investimento de R$ 10 milhões. Além disso, encontra-se sob avaliação jurídica o projeto de desenvolvimento de soro contra o vírus Zika pelo Instituto Butantan, o qual o ministério destina R$ 8,5 milhões. Mas, ainda é cedo para definição do calendário de vacinação.
Redação O POVO Online
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