Primeira prisão de Bolsonaro, em 1986, abriu caminho para a carreira política; entenda

Primeira prisão de Bolsonaro, em 1986, abriu caminho para a carreira política; entenda

À época, punição gerou onda de apoio entre os militares e transformou o então capitão em uma figura conhecida nacionalmente

A prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), decretada nesta semana, rememora um episódio ocorrido há quase quatro décadas, quando o ex-mandatário ainda era capitão do Exército. Em 1986, Bolsonaro foi detido por 15 dias após publicar, sem autorização dos superiores, um artigo na revista Veja reclamando dos salários pagos a militares, caso impulsionou e abriu seu caminho na política.

O texto, intitulado “O salário está baixo”, trazia uma foto de Bolsonaro com a boina da Brigada Paraquedista e relatava o descontentamento de cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), que estariam abandonando a formação por falta de perspectivas. Na última frase, o então capitão escreveu o lema “Brasil acima de tudo”, que anos depois virou seu slogan político.

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A reação dos militares

A publicação gerou reação imediata no comando militar. Em 2 de setembro de 1986, Bolsonaro foi preso em um quartel da Vila Militar, no Rio de Janeiro, por “ferir a disciplina e a hierarquia", considerados dois alicerces da carreira militar.

A punição, no entanto, provocou uma onda de solidariedade. Esposas de oficiais enviaram cartas de apoio e organizaram protestos. Houve tentativas de coletar assinaturas de centenas de militares e Bolsonaro recebeu telegramas de todo o país — inclusive de oficiais conhecidos como o general Newton Cruz e o coronel Sebastião Curió.

Reviravolta

O episódio ganhou novos contornos quando, meses depois, a Veja publicou outra reportagem afirmando que Bolsonaro havia elaborado um plano para explodir pequenas bombas em unidades militares caso o governo não reajustasse os salários.

Segundo a revista, o próprio capitão apresentou à equipe croquis (rascunhos) com o chamado “plano Beco sem saída”. Bolsonaro negou a autoria, mas a denúncia levou o ministro do Exército à época, Leônidas Pires Gonçalves, a tentar expulsá-lo da corporação.

Em 1987, um Conselho de Justificação condenou Bolsonaro por comportamento “aético” e incompatível com o decoro militar. No entanto, em julho de 1988, o Superior Tribunal Militar (STM), em sessão secreta, reverteu a decisão por falta de provas.

Na mesma semana da absolvição, Bolsonaro anunciou que deixaria a farda para disputar a eleição de vereador no Rio de Janeiro. Em novembro daquele ano, aos 33 anos, Jair Bolsonaro foi eleito pelo PDC e passou para a reserva remunerada.

Linha do tempo — A primeira prisão de Jair Bolsonaro

1986 – O artigo que incendiou a caserna

  • Setembro – Revista Veja publica o texto “O salário está baixo”, assinado por Jair Bolsonaro, então capitão do Exército, criticando vencimentos e falta de perspectivas para militares.
  • 2 de setembro – Prisão: Bolsonaro é detido por 15 dias na Vila Militar, no Rio, por “ferir disciplina e hierarquia”.
  • Repercussão e solidariedade:
  • Esposas de oficiais enviam carta ao comando defendendo Bolsonaro.
  • Tentativa de manifesto com 300 assinaturas de capitães.
  • Telegramas chegam de todo o país, incluindo de figuras como Newton Cruz e Sebastião Curió.

1987 – Escalada do caso

  • Veja revela que Bolsonaro teria planejado explosões simbólicas em unidades militares como forma de pressão por reajuste salarial.
  • Revista apresenta croquis (rascunho) do plano, apelidado de “Beco sem saída”.
  • Ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, busca expulsão de Bolsonaro.

1987-1988 – Processo militar

  •  Conselho de Justificação condena Bolsonaro por comportamento “aético” e “incompatível com o pundonor militar”.

30 de julho de 1988 – Absolvição

  • Superior Tribunal Militar (STM), em sessão secreta, absolve Bolsonaro por falta de provas.

1988 – Transição para a política

  • Logo após a decisão, Bolsonaro anuncia candidatura a vereador no Rio de Janeiro.
  • Novembro: É eleito pelo Partido Democrata Cristão (PDC), passando à reserva remunerada.

Assista: Alexandre de Moraes levará recurso de Bolsonaro contra prisão domiciliar a Primeira Turma do STF

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