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Política
NOTÍCIA

Entenda por que Cuba vive um dos maiores protestos dos últimos 60 anos

Manifestantes ocuparam as ruas da capital de Cuba, Havana, neste domingo, 11, para se manifestar contra a gestão do presidente Miguel Díaz-Canel

Filipe Pereira
16:05 | 12/07/2021
Manifestantes cubanos ocupam as ruas para protestar contra governo: https://bit.ly/3kbdEkr
Manifestantes cubanos ocupam as ruas para protestar contra governo.
 (Foto: (Fotos: Yamil Lage e Adalberto Roque/AFP))
Manifestantes cubanos ocupam as ruas para protestar contra governo: https://bit.ly/3kbdEkr Manifestantes cubanos ocupam as ruas para protestar contra governo. (Foto: (Fotos: Yamil Lage e Adalberto Roque/AFP))

Centenas de cubanos saíram às ruas neste domingo, 11, em vários locais de Cuba, em um dos maiores protestos na ilha nos últimos 60 anos. Antes deste domingo, o maior protesto ocorrido na região desde 1959 aconteceu em 1994, em frente ao Malecón em Havana. Porém, o ato aconteceu apenas na capital e com o número bem reduzido de pessoas. 

Até as redes sociais da ilha têm servido, nos últimos tempos, para que os cubanos expressem seu mal-estar em relação ao governo e à situação no país. Durante o fim de semana, além do atos presenciais, com manifestantes gritando "liberdade" e "abaixo a ditadura", as páginas do governo cubano receberam centenas de hashtags, como #SOSCuba e #SOSMatanzas.

Agora, também foi pelas redes sociais que os cubanos transmitiram ao vivo os diversos atos que começaram na cidade de San Antonio de los Baños, a sudoeste de Havana, e se espalharam para outras cidades, de Santiago de Cuba, no leste, até Pinar del Río, no oeste.

Entenda os principais pontos que explicam as manifestações cubanas:

Coronavírus

Na ilha, cujo turismo encontra-se praticamente paralisado, a pandemia do coronavírus teve um profundo impacto na vida econômica e social. Além disso, os manifestantes pretendem denunciar o crescente colapso dos hospitais e o crescente aumento do número de casos da Covid-19. Vários cubanos já afirmaram que seus parentes morreram em casa sem receber atendimento médico ou em hospitais por falta de remédios.

Embora o vírus tenha ficado sob controle nos primeiros meses de 2020, um aumento sucessivos de casos nas últimas semanas levou a região ao patamar dos locais com mais casos registrados em relação à população na América Latina. Apenas no último domingo, Cuba registrou oficialmente 6.750 casos e 31 mortes por Covid-19. Grupos de oposição alegam que os números não são reais e que vários óbitos aconteceram por outros motivos. 

Com as hastags #SOSCuba e #SOSMatanzas, a população vem solicitando ajuda internacional e uma "intervenção humanitária" diante da situação. Na internet, também circulou vários vídeos de hospitais lotados em situação de colapso. 

 

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Economia

Sem grande movimentação econômica, a população cubana começou a enfrentar uma crescente inflação. A crise econômica já superou a mair que Cuba já vivenciou desde o conhecido "período especial" (realizada no início dos anos 1990 após o colapso da União Soviética). Não demorou para que a ilha começasse a presenciar apagões elétricos, escassez de alimentos, medicamentos e produtos básicos. Até o corte de energia tornou-se mais comum. 

No início de 2020, o governo cubano propôs um novo pacote de reformas econômicas. A iniciativa fez disparar os salários e, logo depois, os preço dos produtos. Economistas estimam que os valores podem subir 500% e 900% nos próximos meses. Além disso, devido à pandemia, a população enfrenta longas filas para comprarem produtos básicos como, sabonetes, óleo ou frango.

Nas últimas semana, relatores apontam que inúmeras províncias realizaram a venda de pães à base de abóbora por falta de farinha de trigo. Recentemente, o governo cubano decidiu abandonar "temporariamente" dólares à vista, política considerada como a mais restritiva imposta desde o governo de Fidel Castro. A moeda, contudo, é a principal recebida pelos cubanos. 

Redes sociais

O maior acesso à informação com a disseminação da Internet e das redes sociais na ilha também foi fator decisivo para o grande alcance que a manifestação tomou nos últimos dias. Os novos canais e as variadas possibilidades de meios de comunicação fez o discurso oficial da mídia estatal perder força e influência.

Com grande parte da população, principalmente os jovens, possuindo acesso ao Facebook, Twitter e Instagram, são destes canais que várias denúncias contra o governo e convocações para atos são feitas. Até as autoridades utilizam seus meios de comunicação oficiais para emitir posicionamentos oficiais.

A blogueira cubana de oposição Yoani Sánchez é uma das principais ativistas. Em sua conta no Twitter, ela acusou o governo de irresponsabilidade e reclamou que a reação aos manifestantes "é o apelo à guerra civil". 

Agora, destacam-se vários meios de comunicação independentes, com ferramentas antes restritas à mídia oficial. Nas mesmas plataformas, artistas, jornalistas e intelectuais tornaram-se os principais personagens e acabam por ser tornar um modelo por reivindiquem seus direitos.

Manifestações do governo

A reação do regime cubano diante da crise vem colaborado para intensificar as manifestações. A repressão policial e as falas do presidente Miguel Díaz-Canel, que pediu aos apoiadores do governo que saíssem às ruas para "enfrentá-los", demonstra a dificuldade de se lidar com opositores que, aos gritos, pedem "liberdade" e "pátria livre". O presidente do país chegou a se pronunciar na TV para convocar seus apoiadores a tomarem as ruas para "confrontar" os manifestantes.

Nesta segunda-feira, 12, o presidente cubano afirmou que os protestos aconteceram por problemas derivados das sanções econômicas aplicadas pelos EUA.

A ilha é governada pelo Partido Comunista há várias décadas. No local, não são permitidas manifestações. Em seu pronunciamento à nação, Díaz-Canel defendeu que a situação atual é igual à de outros países e que o vírus chegou tarde a Cuba porque antes o governo havia conseguido controlar a pandemia. 

O presidente disse que muitos manifestantes são sinceros, mas manipulados por campanhas de rede social orquestradas pelos EUA e "mercenários" em solo cubano, e alertou que novas "provocações" não serão toleradas.