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Política
NOTÍCIA

Morte do presidente do Haiti reforça fracasso do Brasil em missões pela paz na região

O Brasil, no Haiti, forneceu colaboração na missão conhecida como Minustah. Em janeiro de 2010, um terremoto fez a missão retomar, porém, dentro de uma série de polêmicas envolvendo abuso de autoridade por parte de militares

Filipe Pereira
14:58 | 07/07/2021
Ex-presidente Lula visita tropas brasileiras atuantes na MINUSTAH em 2004 

 (Foto: (Foto: Ricardo Stuckert | Agência Brasil))
Ex-presidente Lula visita tropas brasileiras atuantes na MINUSTAH em 2004 (Foto: (Foto: Ricardo Stuckert | Agência Brasil))

A morte do presidente do Haiti, Jovenel Moïse, e da primeira-dama, Martine Moïse, após ataque à residência oficial do governo na capital Porto Príncipe, nesta quarta-feira, 7, coloca holofotes no fracasso, tanto do Brasil quanto das missões de paz da Organizações das Nações Unidas (ONU), em tentar pacificar a instabilidade política que o país em frente ao longo dos anos. 

Apesar dos esforços da comunidade internacional, cujas ações já tiveram participação do Brasil, os resultados práticos parecem ter sido frustrados. Nos últimos meses, autoridades haitianas chegaram a colocar em prática uma "tentativa de golpe" de Estado contra o presidente, que teria sido alvo de um atentado mal sucedido em fevereiro.

Com as instituições instáveis e uma interminável turbulência desde sua independência, em 1804, foram diversas as tentativas da ONU em promover missões de paz na região. O Brasil, no Haiti, forneceu colaboração na missão conhecida como Minustah. Durante as presidências de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), as tropas brasileiras estiveram presentes durante a missão entre 2004-2017. 

Ex-presidente Lula visita tropas brasileiras atuantes na MINUSTAH em 2004
Ex-presidente Lula visita tropas brasileiras atuantes na MINUSTAH em 2004 (Foto: (Foto: Ricardo Stuckert | Agência Brasil))

Segundo site do Ministério da Defesa, no total, participaram 30.378 homens e mulheres. Durante os 13 anos seguintes, excetuando-se breves intervalos, generais brasileiros comandaram um contingente internacional que chegou a reunir mais de 7.000 militares, vindos de 22 países.

Desde o início, a missão esteve sob o comando brasileiro e assim permaneceu até seu encerramento, mas outros 15 países também integraram a operação. Mesmo com a participação de outros Estados, dados levantados sobre a Missão de Paz mostravam o destaque do Brasil. A despesa para os cofres brasileiros é calculada em R$ 2,5 bilhões. No período, 37 mil brasileiros foram enviados ao país caribenho.

Em janeiro de 2010, um terremoto causou a morte de mais de 200 mil pessoas e levou o Conselho de Segurança a renovar a Minustah. Um total de 2.187 brasileiros estavam no país, o que representava 25,4% do total de tropas da ONU. Ao todo, a Defesa afirma que 37.449 militares brasileiros participaram da operação – que durou 13 anos e 137 dias.

Escombros em Porto Príncipe após o terremoto de 2010
Escombros em Porto Príncipe após o terremoto de 2010 (Foto: (Foto: Marcello Casal Jr | Agência Brasil).)

Após os acontecimentos, o Conselho de Segurança da ONU encerrou a Missão de Paz no Haiti. Por meio da Resolução 2350, assinada em abril de 2017, o órgão da ONU estendeu a missão pelos últimos 6 meses. O sentimento de sucesso foi reforçado com a realização das eleições em 2016, que colocou o empresário Jovenel Moise à frente do governo haitiano. Um relatório feito pela ONU decretou que:

"O sucesso das eleições e a transição suave de poder a um novo presidente mostram a maturidade das instituições haitianas e o crescente compromisso dos agentes políticos e sociais com a resolução de diferenças pelo diálogo e pelos canais legais".

Para além da problemática, investigações da ONU não apontaram responsabilidade dos militares, no entanto, o que apenas reforçou a imagem dos brasileiros como invasores fazendo o serviço sujo impunemente em nome dos americanos. Neste cenário, a morte deste dia 7 de julho prova que a violência política a instabilidade institucional na região não encontrou seu fim, mesmo após as diversas missões realizadas.

Na época, entre os integrantes da ação, está o primeiro comandante da tropa, o general Augusto Heleno Ribeiro, atualmente ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência. Apesar de ter sucesso em suas missões naquele momento, sobraram relatos de abusos e exageros nas operações. 

General Augusto Heleno, hoje ministro-chefe do GSI, quando comandou as forças de paz da ONU no Haiti, em 2004.
General Augusto Heleno, hoje ministro-chefe do GSI, quando comandou as forças de paz da ONU no Haiti, em 2004. (Foto: Reprodução)

Além da polêmica envolvendo o rastro de abuso sexual no país, Heleno também é acusado de ter permitido a morte de até 60 civis em uma operação em uma favela em Porto Príncipe, capital do Haiti, em 6 de julho de 2005. O fato é que a ação de ocupação da ONU deu algum semblante de normalidade ao país pelos anos seguintes.

Desde a saída da ONU, contudo, o pais retomou sua instabilidade política e institucional. Os fatos levam para a falta de êxito da comunidade internacional em cumprir com a busca pela democracia na região. O preço foi pago nesta quarta, com a morte do presidente eleito democraticamente.