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Política
NOTÍCIA

100 mil mortes: reveja as frases de Bolsonaro sobre os óbitos de Covid-19

De "gripezinha" a "vamos tocar a vida": declarações de Bolsonaro acompanharam evolução de mortes em decorrência da pandemia no Brasil

Leonardo Maia
19:12 | 08/08/2020
O presidente chegou a ser contaminado pela doença, no dia 7 de julho. (Foto: Mauro Pimentel / AFP)
O presidente chegou a ser contaminado pela doença, no dia 7 de julho. (Foto: Mauro Pimentel / AFP)

O comportamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem gerado críticas entre diversos setores da sociedade desde que primeiras mortes em decorrência da pandemia do novo coronavírus foram registradas no País. “Gripezinha”, “resfriadinho” e “histeria” são alguns do adjetivos que a doença, que já vitimou mais de 100 mil vidas, recebeu do presidente. No mundo, já foram perdidas mais de 722 mil vidas, segundo a universidade Johns Hopkins.

Os números superam previsões iniciais feita por Bolsonaro. Em vídeo nas suas redes sociais, há quatro meses, o presidente comparou a doença com o H1N1 e disse que o número de mortos seria inferior ao que foi ocasionado pela doença no ano passado. “O número de pessoas que morreram de H1N1 no ano passado foi na ordem de 800 pessoas. A previsão é não chegar a essa quantidade de óbitos no tocante ao coronavírus”, projetou.


Com a persistência da evolução do número de mortes, Bolsonaro seguiu dando afirmações polêmicas sobre a crise. Ao ser questionado sobre então recorde de mortes pela Covid-19 em um único dia, o presidente afirmou que não comentaria o caso. "Ô, cara, quem fala de... Eu não sou coveiro, tá certo?", disse ao repórter na entrada do Palácio do Planalto. Nesse dia, 20 de abril, o País atingia a marca de 2.575 óbitos.

Uma semana depois, quando o Brasil atingia novo recorde de mortes, Bolsonaro disse “não ter o que fazer”. O País já ultrapassava a marca de cinco mil mortes. "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, disse. Na mesma entrevista, ele também afirmou: “Mas é a vida. Amanhã vou eu. Logicamente, a gente quer ter uma morte digna e deixar uma boa história para trás". Na ocasião, o presidente disse que não dá parecer e não obriga ministro a fazer nada, referindo-se às decisões do então ministro Nelson Teich, que assumiu a pasta após a queda de Mandetta.

O presidente se isentou em distintas ocasiões da responsabilidade pela condução da crise. Ele se baseou na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que ressaltou a autonomia de estados e municípios para definir formas de combate à crise, como as restrições de locomoção, por exemplo. No dia 10 de junho, Bolsonaro ignorou a manifestação de uma apoiadora no Palácio da Alvorada ao ser questionado das 38 mil mortes registradas no País. "Cobre do seu governador. Sai daqui", disse Bolsonaro. Ele voltou a minimizar a pandemia e afirmou, em outro momento, que "mortes estão havendo no mundo todo, não apenas pela Covid".

Ao ser contaminado pela doença, no dia 7 de julho, o presidente intensificou sua exaltação da hidroxicloroquina para tratamento da doença, mesmo sabendo sobre a falta de evidências científicas que comprovem sua eficácia. “Sabemos que não tem comprovação científica, mas deu certo comigo”, declarou. Bolsonaro disse ainda que não fez campanha para o medicamento. “Não estou fazendo nenhuma campanha, o custo é baratíssimo. Deve ser até por isso que existem algumas pessoas contra. Outras, pelo que parece, é uma questão ideológica”, criticou.

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Em sua live semanal nessa quinta-feira, 6, o presidente comentou a iminência do País de chegar a marca de 100 mil mortes: "A gente lamenta todas as mortes, já está chegando ao número 100 mil, talvez hoje. Vamos tocar a vida. Tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema", declarou. Ele falou ao lado do ministro da Saúde, o militar Eduardo Pazuello. No vídeo, com cerca de 55 minutos de duração, o presidente frisa que, ao lado de seus ministros, estão atuando com total eficiência no combate ao vírus no País. Neste sábado, Bolsonaro destacou o número de recuperados em suas redes sociais.

Autoridades públicas lamentaram a marca de 100 mil mortes

O governador Camilo Santana (PT) lamentou em suas redes sociais a marca de 100 mil vidas perdidas em decorrência da pandemia do novo coronavírus. “O Brasil chora diante de um dos momentos mais tristes de sua história. Mas precisa ser forte para continuar lutando. Por mais dignidade, amor e respeito à vida”, disse o chefe do Executivo Estadual, forte crítico do trabalho do governo Bolsonaro durante a crise na saúde.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, decretou luto oficial de três dias na Corte em homenagem aos 100 mil mortos pela Covid-19 no Brasil. "Os reflexos e as dores oriundas da pandemia são inúmeros e imensuráveis. Mas a maior de todas as dores é, sem dúvida, a perda de alguém que amamos. Isso é algo que jamais pode ser restituído ou compensado", afirmou Dias Toffoli na mensagem.

Com novos casos se alastrando pelo Interior, duas a cada três cidades brasileiras já perderam alguém para a Covid-19. Toffoli classificou a pandemia como a maior da humanidade e pontuou que o País "jamais" viveu uma tragédia com essa dimensão. O presidente da Corte declarou que "a esperança, o espírito de fé e a Ciência sejam nossos guias para que possamos encontrar meios de superação" e destacou o exercício de "solidariedade e o espírito fraternal" diante das perdas humanas.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), se manifestou pelas redes sociais classificando como "absurda" a marca de 100 mil mortos por coronavírus no Brasil. "Estamos convivendo diariamente com a pandemia, mas não podemos ficar anestesiados e tratar com naturalidade esses números. Cada vida é única e importa", escreveu Maia no Twitter.

O Congresso Nacional decretou luto oficial de quatro dias após o País registrar 100 mil óbitos pela Covid-19. Maia usou as redes sociais para pontuar que o número de mortes havia sido previsto durante a gestão do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, filiado ao DEM. Mandetta foi demitido em abril e, após a passagem do ex-ministro Nelson Teich, a pasta está sem titular.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta disse que Bolsonaro foi “preponderante” para o número atual de mortes. “Foi uma somatória de fatores, mas principalmente liderados pela posição do governo, que trocou dois ministros e botou um terceiro que fez uma ocupação militar sem técnicos na Saúde. A impressão que tenho é que literalmente não quiseram ouvir a gravidade do problema”, considerou.

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