Dallagnol não confiava em Ramagem, diz Intercept: "ligado ao PT"

Novo vazamento publicado pelo site mostra que o procurador suspeitava desde 2015 do nomeado por Bolsonaro para comando da Polícia Federal

A nova reportagem da série Vaza Jato, do The Intercept Brasil, traz informações sobre a desconfiança da força-tarefa da operação Lava-Jato com o delegado Alexandre Ramagem, nomeado para a vaga de diretor-geral da Polícia Federal (PF). Ex-delegado da PF e atual diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Ramagem irá assumir o cargo deixado vago após a exoneração, na última sexta-feira, 24, de Maurício Valeixo, ato que gerou um conflito entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e Sergio Moro, que deixou o cargo de ministro também na sexta-feira.

A série de reportagens traz vazamentos de mensagens trocadas entre Moro, o procurador da República Deltan Dallagnol, e diversos membros da força-tarefa, entre procuradores do Ministério Público Federal (MPF) e delegados da PF. No material publicado na noite desta segunda-feira, 27, Dallagnol manifesta preocupação de que Ramagem seria “ligado ao PT” e teria amizade com pessoas investigadas e mesmo presas no âmbito da operação. As mensagens são de 2015 e 2017.

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Na primeira ocasião, Dallagnol relatou em um grupo composto por procuradores do MPF e delegados da PF, uma “informação de inteligência”, sobre um “grande amigo” do delegado da PF Mario Fanton, com quem a força-tarefa tinha atritos. Segundo o procurador, o amigo seria “muito ligado ao PT” e estaria “mediando” com o partido em nome de Fanton. Algumas horas depois, Dallagnol confirmou que o “grande amigo” era Ramagem, que à época ocupava um cargo administrativo na Polícia Federal em Brasília.

No segundo caso, o assunto veio à tona após a prisão do procurador da República Ângelo Goulart, acusado de vazar informações sobre a operação Lava-Jato para a JBS. Ele seria o representante do MPF citado por Joesley Batista na conversa com Michel Temer (MDB) em que supostamente o ex-presidente teria acertado a manutenção de propina para evitar delações por parte de Eduardo Cunha. Dallagnol conversa sobre Ramagem, três dias após a prisão, com o procurador do MPF Anselmo Lopes, que estava atuando na operação Greenfield, que investigava fraudes em fundos de pensão. A preocupação seria de que Ramagem, amigo próximo de Goulart, pudesse estar envolvido nesta operação, o que segundo Dallagnol poderia comprometer as investigações.

Embora não tenha trabalhado na Greenfield, em 2017 Ramagem chegou a fazer parte da própria Lava-Jato, voltando a ter cargo administrativo na PF em 2018. Mais tarde naquele ano, após o atentado sofrido por Bolsonaro em Juiz de Fora (MG), o delegado passou a chefiar a segurança do então candidato à presidência da República.

Neste período, Ramagem se aproximou da família Bolsonaro. Ele se tornou amigo de um dos filhos do presidente, Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), ao ponto de passarem juntos a virada de 2018 para 2019. No ano passado, o delegado chegou a ser nomeado superintendente da PF no Ceará, mas não assumiu o cargo. Foi remanejado como assessor especial da Secretaria de Governo da Presidência da República. Em julho, ele foi indicado ao cargo de diretor-geral da Abin, que ocupa atualmente.

Amigo da família

As críticas à nomeação de Ramagem ao comando da PF, por sua proximidade com a família Bolsonaro, seguem a linha defendida por Sergio Moro, que o presidente estaria tentando exercer “interferência política” no órgão, e que pretendia ter acesso a informações sobre investigações em andamento. Este foi o motivo alegado pelo ex-juiz para deixar o Ministério da Justiça. Carlos Bolsonaro, amigo do delegado, é alvo de investigação da PF por supostamente coordenar o chamado “gabinete do ódio”, instalado no Palácio do Planalto para propagar notícias falsas sobre adversários políticos do presidente.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que os delegados responsáveis pela investigação não poderão ser substituídos. A mesma decisão vale para a investigação sobre as manifestações pedindo intervenção militar realizadas no dia 19 de abril. Jair Bolsonaro chegou a discursar no ato ocorrido em Brasília.

Outra questão seria a investigação contra o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) por lavagem de dinheiro com imóveis ligados a milícias do Rio de Janeiro. As alegações estão ligadas ao suposto esquema de “rachadinha” de Fabrício Queiroz, amigo de décadas da família, que teria executado a operação ilegal quando foi assessor de Flávio, então deputado estadual. Embora o processo seja movido pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), a Polícia Federal acompanha as investigações de perto. Este teria sido supostamente o motivo para a troca do superintendente da PF no Rio de Janeiro, em agosto de 2019, que deu início aos atritos entre Moro e Bolsonaro.

Mais duas investigações em curso podem preocupar o presidente. Uma é a denúncia de que o secretário de comunicação da Presidência da República (Secom), Fábio Wajngarten, teria contratos de sua empresa com agências de publicidade e emissoras de TV que receberam recursos de publicidade do Governo Federal.

A outra é o caso do atentado sofrido pelo presidente durante a campanha presidencial, em que o advogado de acusação de Bolsonaro e a Procuradoria-Geral da República (PGR) afirmam que há um mandante, embora a investigação, realizada pela PF em 2018, tenha concluído que Adélio Bispo, autor da facada, tenha agido sozinho e “durante um surto”. O advogado de Adélio, Zanone Manuel de Oliveira Júnior, foi alvo de operação de busca e apreensão da PF, mas o material recolhido não foi usado no processo por decisão liminar. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), autora do pedido junto ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), argumenta que a ação fere prerrogativas do profissional e o direito ao sigilo entre advogado e cliente. O TRF-1 decidiu que a competência para julgar a validade das provas é do STF.

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