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Política
Opiniao

A quarentena de Bolsonaro

Carlos Holanda
20:37 | 03/04/2020
Presidente Jair Bolsonaro e ministro Luiz Henrique Mandetta
Presidente Jair Bolsonaro e ministro Luiz Henrique Mandetta (Foto: Sergio LIMA / AFP)

 

O mundo que nos aguarda após a tormenta do novo coronavírus é uma incógnita tão grande quanto a própria crise. O futurismo sempre foi um exercício arriscado. Se aproxima do consenso, porém, a avaliação de que não veremos as coisas como as deixamos. E será assim ainda que aprendamos pouco ou nada com o legado da turbulência. Se serve de exemplo, guardadas as particularidades de cada evento histórico, a experiência da Primeira Grande Guerra (1914-1918) não impediu que houvesse a Segunda (1938-1945).

No contexto político brasileiro, é clara a proporcionalidade entre a evolução da pandemia e a incapacidade do presidente Jair Bolsonaro na condução do problema. A política é um terreno movediço por essência, no qual o presidente já tem os pés imersos. Outra máxima, esta já batida, é de que o poder não aceita vácuo.

Era de Bolsonaro a responsabilidade de liderar e construir entendimentos com governadores e prefeitos, mesmo que a contragosto dos estratos mais ensandecidos que o apoiam, e para quem ele parece exclusivamente governar. Ao fim e ao cabo, Jair em nada se difere ou, pelo menos, muito se assemelha aos apoiadores que se amontoam no cercadinho do Palácio da Alvorada à espera de um cumprimento do presidente Bolsonaro.

Mesmo após mudança de tom, como visto no último pronunciamento em cadeia nacional, no qual apontou para a conciliação ao convocar grande pacto nacional no combate a Covid-19, Bolsonaro não tardou a retomar o ritmo do enfrentamento nas redes sociais, atacando governadores e a escolha deles pelo isolamento como método preventivo mais prudente.

É nesta toada, bravata após bravata, que o presidente estica o tecido da institucionalidade. Até vê-lo romper de vez. Não é novidade. O agravante é o fato de que tudo isso ocorre em meio a um mar revolto. É da natureza dos políticos o interesse pela aglutinação de forças ao redor de si. O capitão reformado, também na contramão desta lógica, implodiu a coalizão como modelo de governança e não pôs coisa melhor no lugar.

Na prática e em partes, é a linha incendiária com verniz antissistêmico cada dia menos convincente que o faz desdenhar do isolamento social como medida eficaz de prevenção ao vírus. Que o isolamento político que já experimenta, então, lhe introduza uma lição. É sintomático da sucessão de erros do presidente o rompimento público do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), um ex-aliado de primeira hora.

Se a linguagem da ciência, com muita coisa escrita, lhe parece dispensável, que a linguagem das panelas faça seu papel e lhe imponha um recado simbólico, com as consequências práticas e drásticas para quem, como ele, possui mandato legítimo conferido pelo voto popular. O Datafolha desta sexta-feira, 3, registra o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, com o dobro da popularidade do presidente.

Neste momento, ignorar apontamentos de estudiosos e recomendações dos técnicos do próprio governo é brincar de ser presidente. O verbo “brincar” se aplica por ser impossível eufemismos ao tempo em que corpos são acomodados dentro de caixões. Até esta sexta-feira, já são 359 mortes contabilizadas. Não podem ser depositadas inteiramente na conta do presidente, é óbvio, mas o presente estado de coisas requer pressa nas ações e dispensa brigas políticas. Crises deveriam borrar divisões partidárias e ideológicas.

Apesar de Bolsonaro, já é possível observar a ascensão da confiança na ciência e no jornalismo profissional. Talvez o descrédito crescente em relação ao presidente seja inversamente proporcional à confiança creditada a estas duas instituições. As consequências disso na arena política poderão ser claras já nas próximas disputas eleitorais.

Outro ensinamento já mensurável, e que ecoará pelo tempo, é o da importância de um estado eficiente e forte no oferecimento de respostas às demandas, sobretudo dos mais financeiramente mais vulneráveis. Reafirmar a importância do Sistema Único de Saúde (SUS), portanto, se tornará cada vez mais um dever de cidadania.

Carlos Holanda é repórter de Política