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Política
NOTÍCIA

Moro orientou Lava Jato a apontar contradições na defesa de Lula, diz site

O então juiz da operação justifica a sugestão dizendo que a defesa já havia feito o "showzinho" dela

00:10 | 15/06/2019
O então juiz da operação justifica a sugestão dizendo que a defesa já havia feito o "showzinho" dela.
O então juiz da operação justifica a sugestão dizendo que a defesa já havia feito o "showzinho" dela.(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Mais um capítulo que mostra a interferência do então juiz Sergio Moro sobre a operação Lava Jato foi publicado na noite desta sexta, 14, pelo portal The Intercept Brasil. Nele, conversas do atual ministro de Bolsonaro orientando procuradores do Ministério Público Federal (MPF) pelo Telegram a apontar contradições no depoimento do ex-presidente Lula à imprensa foram vazadas.

"Talvez vocês devessem amanhã editar uma nota esclarecendo as contradições do depoimento com o resto das provas ou com o depoimento anterior dele,porque a Defesa já fez o 'showzinho' dela", diz em conversacom o ex-procurador da operação,Carlos Fernando dos Santos Lima, viaTelegram, em10 de maio de 2017. No dia em questão, mais cedo, o ex-presidente Lula depôs naJustiça sobre a acusaçãode recebimento depropina por meio do triplex no Guarujá.

A mensagem foi enviada às 22h12min. Antes disso, os dois conversavam sobre o evento jurídico do dia envolvendo o ex-presidente. 

"Achei que ficou muito bom. Ele começou polarizando conosco, o que me deixou tranquilo. Ele cometeu muitas pequenas contradições e deixou de responder muita coisa, o que não é bem compreendido pela população. Você ter começado com o Triplex desmontou um pouco ele", disse Santos Lima, às 22h10min. Moro então respondeu, no minuto seguinte: "A  comunicação é complicada, pois a imprensa não é muito atenta a detalhes e alguns esperam algo conclusivo".

Dez minutos depois, o procurador solicita no grupo "Análise de clipping", em que estavam assessores de imprensa do MPF do Paraná, uma "entrevista com alguém da Globo em Recife" para o dia seguinte. O assunto: a audiência daquele 10 de maio. Um dos assessores pergunta o motivo. Por isso, logo em seguida, ele entra em conversa privada com Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato no MPF, para desenvolverem uma resposta ao assessor. 

"Então temos que avaliar os seguintes pontos: 1) trazer conforto para o juiz e assumir o protagonismo para deixá-lo mais protegido e tirar ele um pouco do foco; 2) contrabalancear o 'show' da defesa. Esses seriam porquês para avaliarmos, porque ninguém tem certeza. O 'o quê' seria: apontar as contradições do depoimento. E o formato, concordo, teria que ser uma nota, para proteger e diminuir riscos. O JN (Jornal Nacional) vai explorar isso amanhã ainda. Se for para fazer, teríamos que trabalhar intensamente nisso durante o dia para soltar até lá por 16 horas", disse Deltan.

Os dois últimos pontos foram apresentados por Deltan ao grupo "Análise de clipping", minutos depois.

Pouco antes desta ação, o procurador enviou, em conversa privada com Moro, a seguinte mensagem:

"Caro, parabéns por ter mantido controle da audiência de modo sereno e respeitoso. Estamos avaliando eventual manifestação. A GN (Globo News) acabou de mostrar uma série de contradições e evasivas. Vamos acompanhar."

Moro responde: "Beleza. Também tenho minhas dúvidas da pertinência de manifestação, mas é de se pensar pelas sutilezas envolvidas".

Reação

Carlos Fernando dos Santos Lima publicou em sua página no Facebook um texto em que declara desconhecer as mensagens citadas e cobra explicação de como o Intercept BR teve acesso ao material em questão.

Contradição de Moro

As mensagens vazadas vão de encontro à versão do então juiz da Lava Jato de que as interações com os procuradores eram banais e não de forma que interferissem no trabalho da acusação. Segundo Moro, em entrevista ao Estadão, “existia às vezes situações de urgência, eventualmente você também está ali e faz um comentário de alguma coisa que não tem nada a ver com o processo”.

 Redação O POVO Online