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Banco suíço viu movimentação suspeita de ex-Dersa já em 2008

21:20 | 20/02/2019
As movimentações financeiras feitas pela offshore do ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza levantaram suspeita do banco suíço Bordier & Cia já em 2008.
Documentos enviados pelo Ministério Público da Suíça ao Brasil mostram que o engenheiro, preso na terça-feira, 19, acusado de ser operador financeiro do PSDB e da Odebrecht, acumulou R$ 10,9 milhões (em valores da época) em uma das contas no exterior entre 2008 e 2010, período em que foi diretor de engenharia da estatal.
E-mails trocados entre funcionários do banco suíço em maio de 2008 revelam que a suspeita começou a partir de uma série de depósitos feitos na conta do engenheiro por offshores com sede em Hong Kong e nas Bahamas um mês antes, no valor total de US$ 1 milhão. Uma das mensagens ressalta que é preciso "aumentar a vigilância" porque o beneficiário da conta é uma Pessoa Exposta Politicamente (PEP), termo universal usado para identificar políticos e dirigentes de estatais.
O material foi anexado ao pedido de prisão de Vieira de Souza feito pela força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. A Polícia Federal também fez buscas e apreensão em imóveis do ex-senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), que teria recebido um cartão de crédito em dezembro de 2007 vinculado a uma das contas do engenheiro, de quem é amigo. Após a operação, Aloysio pediu demissão da presidência da Investe SP, agência de investimentos do governo João Doria (PSDB).
Após a primeira suspeita, o funcionário do banco pediu ao colega que produzisse um relatório explicando a ligação entre as empresas que fizeram os depósitos e Vieira de Souza, o contexto econômico das transações e o perfil do cliente. No documento, o funcionário afirma que o então diretor da Dersa não tinha relação com as offshores e que os depósitos vinham das "várias atividades" dele como investidor em imóveis, proprietário de um hotel e outras funções em empresas públicas.
O funcionário do Bordier & Cie diz ainda que conhecia Vieira de Souza desde 1993 e que "ele é amigo de vários importantes clientes brasileiros do nosso banco". Segundo os documentos enviados pela Suíça, o suposto operador do PSDB abriu a offshore Groupe Nantes no Panamá em outubro de 2006, quando já era diretor de Relações Institucionais da Dersa, estatal responsável por obras viárias em São Paulo.
A abertura da empresa foi feita por um procurador canadense por meio do escritório de advocacia Mossack Fonseca, especializado em abrir empresas em paraísos fiscais e peça central do escândalo dos Panama Papers, que revelou, em 2015, uma série de offshores usadas por políticos, empresários e celebridades em todo o mundo para ocultação de patrimônio.
Em março de 2007, dois meses antes de Vieira de Souza assumir a diretoria de engenharia da Dersa, a Groupe Nantes abriu quatro contas no banco suíço. Segundo o Ministério Público Federal as contas foram usadas para receber propina das construtoras Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Odebrecht até 2010, quando ele deixou a Dersa.
À época, o banco suíço enviou um funcionário ao Brasil para investigar a atuação do cliente. Um memorando de 2011 concluiu que "a conta foi alimentada regularmente" e que "a fortuna está alinhada com as muitas atividades profissionais do cliente". A defesa de Vieira de Souza foi procurada mas não se manifestou até a conclusão desta edição.

Agência Estado

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