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Áudios confrontam versão de Bolsonaro

21:32 | 19/02/2019

A demissão do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno, pelo presidente Jair Bolsonaro foi precedida por uma discussão longa por meio do aplicativo WhatsApp, com troca de acusações entre eles, relacionadas à TV Globo, a uma viagem à Amazônia, revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo, e a suspeitas de que haveria candidaturas "laranjas" no PSL, partido de ambos.

Os áudios, datados de 12 de fevereiro, foram publicados na terça pelo site da revista Veja. O teor das mensagens coloca em xeque a versão inicial do presidente, de que eles não haviam conversado naquela data. Bolsonaro disse em entrevista à TV Record que era mentira que eles tivessem mantido um diálogo antes da alta hospitalar. A acusação foi o estopim para a crise que culminou com a demissão de Bebianno, na segunda-feira, 18.

As mensagens dão ideia do conjunto de razões para a saída do ex-ministro, que, segundo a Presidência da República, foram de "foro íntimo" de Bolsonaro. O presidente é chamado por Bebianno de "capitão" ao longo do diálogo.

Na conversa, Bolsonaro trata a TV Globo como "inimiga" e manda o agora ex-ministro cancelar uma audiência com um representante da direção da empresa, no Palácio do Planalto. Segundo a revista, o presidente encaminhou a mensagem a Bebianno no dia 12, com a agenda do ministro. Ele receberia o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet Camargo, e respondeu: "Algo contra, capitão?".

"Gustavo, o que eu acho desse cara da Globo dentro do Palácio do Planalto: eu não quero ele aí dentro. Qual a mensagem que vai dar para as outras emissoras? Que nós estamos se (sic) aproximando da Globo. Então, não dá para ter esse tipo de relacionamento. Agora… Inimigo passivo, sim. Agora… Trazer o inimigo para dentro de casa é outra história", diz o presidente na mensagem.

Após a divulgação dos áudios, o Grupo Globo emitiu uma nota a respeito. "O Grupo Globo considera que não tem nem cultiva inimigos. A própria natureza de sua atividade jamais permitiria qualquer postura em contrário. Hoje, como sempre, sua missão é levar ao público jornalismo independente - dando transparência a tudo o que é relevante para o País - e entretenimento de qualidade."

Nos áudios, Bolsonaro também relata restrições a uma viagem de Bebianno à Região Norte, que era articulada enquanto ele ainda estava internado em recuperação de uma cirurgia com os ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos). A viagem foi antecipada pelo jornal O Estado de S. Paulo e tinha como missão tratar com líderes locais obras do governo na região.

Em outra mensagem, o presidente revela preocupação com a investigação da suspeita de desvio de dinheiro público no PSL. Ele sugere que havia uma intenção de "empurrar essa batata quente" para o seu colo. Bebianno tenta se explicar e afirma que o presidente está "envenenado", em uma referência ao filho do presidente, Carlos Bolsonaro, seu desafeto.

‘Lealdade’

O vazamento na semana passada de uma pequena parte dos diálogos já havia irritado Bolsonaro - e pavimentado a exoneração de Bebianno. Ontem, após a divulgação do teor integral das gravações, a equipe de auxiliares mais próximos do presidente ainda avaliava a estratégia para conter os "estragos" da fala do ex-ministro.

O vice-presidente Hamilton Mourão criticou e responsabilizou Bebianno pela divulgação de conversas com o presidente. "Não resta dúvida de que o ex-ministro, ao divulgar uma conversa dele com o presidente, está faltando com a lealdade."

Os interlocutores do Palácio também não esconderam o temor de que Carlos volte a colocar "lenha na fogueira" com mensagens nas redes sociais.

Questionado ontem, o porta-voz da Presidência, general Otávio do Rêgo Barros, afirmou que as explicações do Planalto sobre o caso já haviam sido dadas no anúncio da exoneração de Bebianno e em um vídeo do presidente no qual ele fez elogios ao ex-ministro.

Agência Estado