Crônica: Ao meu paiNotícias de Política
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Crônica: Ao meu pai

10:16 | 07/10/2018
Fortaleza, 7 de outubro de 2018
 

Papai, peço a sua bênção.  
 

Escrevo estas linhas, pois estou precisando falar com o senhor, que me incentivou a gostar de política. Por aqui estão acontecendo coisas esquisitas. Num tempo em que as mensagens correm rapidamente, via redes sociais, voltou à moda escrever cartas e bilhetes. Talvez uma forma de se aproximar, de escapar de um mundo que a gente não entende mais ou tem dificuldade de decifrar. 
 
Tenho lembrado, ultimamente, das histórias que o senhor contava, quando a gente sentava na calçada à noite, com o terreiro iluminado pela lua cheia. Uma lamparina colocada no armador levava um pouco de luz para o alpendre da casa. Eu ficava deitada com a cabeça na sua perna que balançava e me embalava. Devo dizer ao senhor que essa é uma mania que também carrego até hoje e que reproduzi para colocar o meu filho para dormir. 
 

[SAIBAMAIS]Por esses dias, papai, tenho recordado de um desses relatos. O senhor me narrou como o pai Dindim foi obrigado a sair do terreno onde era morador, após o dono descobrir que não tinha votado no candidato apoiado por ele. Sem ter para onde ir, foi pedir e conseguiu abrigo com o coronel adversário. Ficou naquela terra, que também não era dele, até findar. Nunca fez questão de alardear aquele episódio do voto de cabresto. Em sua sabedoria, fez o que devia ser feito. Ao me contar sobre isso, o senhor criou em mim um enorme respeito por meu avô.   
 

Pensei, papai, que voto de cabresto era algo inconcebível no nosso tempo. Não é. Nessas eleições, esta atitude voltou. Retorna com ares de modernidade, quando empresários ameaçam seus funcionários a votar no candidato que preferem. Volta quando pastores e padres tentam obrigar fiéis a andar e olhar de uma só maneira, deixando os que têm fé tristes, sem rumo, pois não entendem como os líderes podem ter mudado tanto de 2014 para cá. 
 

Quando um amigo, essa semana, veio me contar sobre isso, fiquei quase sem palavras. Talvez o senhor por aí saiba melhor explicar o que está acontecendo, porque aqui a gente não alcança. Ao mesmo tempo, não queria que o senhor se preocupasse tanto. De vez em quando, a gente consegue uma frestinha de luz. Encontra força em coisas que a gente lê, guarda como se fosse sem serventia e, de repente, entende que precisa enviar para um amigo que também pediu socorro em forma de carta. Encontra esperança em músicas que ouve como se fosse oração e também em abraços de pessoas queridas.  
 

Para terminar, quero dizer que o senhor e mamãe me ensinaram muito sobre amor. A gente está do lado certo quando ama. Estes dias, abri um livro e encontrei algo que dizia assim: "Amar uns aos outros para ser feliz. Tratar, sobretudo, de amar aos que provocam indiferença, ódio e desprezo. O Cristo, que deve ser modelo, deu exemplo dessa abnegação: missionário do amor, amou até dar o sangue e a própria vida. Não esqueça, amor nos aproxima de Deus e o ódio nos afasta dele". Acho que o senhor entende melhor disto que eu. 
 
Oceli e Artur mandam um abraço para o senhor. 

Beijo da filha,


Tânia Alves
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