Entre generais, bispos e acusadores: a democracia em xeque Notícias de Política
PUBLICIDADE
Notícias


Entre generais, bispos e acusadores: a democracia em xeque

18:06 | 11/09/2018
O comandante do Exército brasileiro Eduardo Villas-Bôas não se furta à chance de se manifestar publicamente quando o assunto é democracia e crise. Em entrevista ao Estadão veiculada no último domingo, quando perguntado sobre a participação de Lula no pleito, foi enfático ao reafirmar o compromisso das forças armadas com a legalidade, indicando que o Exército não aprovaria a participação de candidatos sub judice. Fardado, justificou a resolução contrária à candidatura petista no risco de instabilidade e na supremacia da lei.
 [SAIBAMAIS]
Apesar de reconhecer a simpatia do Exército por um candidato com passado militar, Villas-Bôas teve o cuidado de garantir certa impessoalidade, dizendo-se imune a “fulanismos”. A entrevista revela muito da visão que as forças armadas têm de seu papel nas eleições e nos fornece ótimo retrato da disfunção que está no cerne da crise nacional. No Brasil pós-impeachment, a disputa de poder mais relevante se dá entre instituições supostamente apartidárias: o que está em jogo é seu protagonismo na formação da opinião e dos consensos públicos. 
 
À verborragia do Exército se somam manifestações do Poder Judiciário e do Ministério Público, um embate que, não raro, se rende à vulgaridade da troca aberta de ofensas, seja em sessão solene ou via manchete de jornal. Parecem comungar um mesmo propósito, reproduzido por meio de discursos que variam do testemunho autobiográfico de Dallagnol à midiática sentença condenatória de Moro, com poucas variações de tom ou de técnica: é preciso salvar a república. O Brasil reassume sua identidade de país de corruptos a ser resgatado pelos homens bons, movidos pela inspiração de Deus.
 
A disputa pelo protagonismo não indica apenas a crise de representatividade de um Legislativo acossado por escândalos de corrupção, como uma leitura rápida pode sugerir. Desde a queda da presidente Dilma Rousseff, é notória a ausência de um líder capaz de sustentar, na chefia do Executivo, níveis de aprovação popular que garantam governabilidade. Tal ausência não se deve a circunstâncias históricas excepcionais. A falta de espaço para formação de uma liderança é efeito da interferência nos processos deliberativos que as instituições apartidárias deveriam assegurar, não conduzir. Não há jogo possível num xadrez com tantos príncipes.
 
Ao colocar toda a classe política sob escrutínio moral, os autoproclamados protagonistas aprofundaram a polarização da esfera pública, fragmentando de forma profunda o tecido social. Para além do desencanto, alimentaram uma incômoda sensação de desconfiança generalizada. O inimigo, simbolizado abstratamente pela ideia de corrupção, pode aderir a qualquer candidato, a depender das preferências do eleitor. A crise é desalentadora e deve resistir a outubro, seja qual for o resultado. Ao vencedor pesará a dúvida da ilegitimidade e a imensa tarefa de invocar a separação de poderes para reordenar o tabuleiro e reabilitar a política.
 
Juliana Diniz
Doutora em Direito e professora da UFC 
 
TAGS