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Conheça a maior operação anticorrupção do mundo antes da Lava Jato

Operação Mãos Limpas foi uma grande investigação conduzida na Itália entre 1992 e 1996

16:01 | 05/04/2018
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[FOTO1]A Operação Lava Jato é um símbolo no combate à corrupção no Brasil e, após avançar em diversas etapas, se tornou a maior operação do tipo no mundo. Entretanto, há 22 anos, se encerrava a Operação Mãos Limpas, ou Mani Pulite, investigação iniciada em 1992, que visava esclarecer casos de corrupção na política italiana. 
 
[SAIBAMAIS]Coordenada pelo procurador da república Antonio Di Pietro, a operação teve tamanha relevância que marcou uma mudança de ciclo na Itália. As revelações da operação levaram ao fim a chamada Primeira República Italiana, que durava desde o fim do governo fascista de Benito Mussolini.
 
Entre os impactos na vida política do país mais sentidos após a operação estão as extinções de vários partidos. Na Itália pré-operação, dois partidos dominavam: o Partido Socialista (PSI), de centro-esquerda, e o Democracia Cristã (DC), de direita.
 
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Deflagração
 
Após testemunhos do dissidente da KGB - o serviço secreto russo -, Vladimir Bukovski e do ex-mafioso Tommaso Buscetta, foram descobertas fraudes em licitações e o uso da máquina pública em benefício de pessoas e partidos políticos.
 
Empresários - alguns deles envolvidos com a máfia - pagavam subornos para vencer licitações em obras públicas, desde a construção de ferrovias e estradas até obras menores em cidades.
 
Antes de ser chamada de Operação Mãos Limpas, as investigações eram conhecidas como "Tangentopoli", ou cidade do suborno.
 
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Segundo Fabio Gentile, professor de Ciência Política da Universidade Federal do Ceará (UFC) e de pós-graduação em Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Mãos Limpas foi uma "revolução simbólica" que "marcou profundamente a Itália na década de 1990".
 
Foram investigados no total 6.059 pessoas - 872 empresários, 1.978 administradores, 434 parlamentares e 4 ex-primeiros-ministros. Foram expedidos 2.993 mandados de prisão contra acusados.
 
 
"Foi revelado um mecanismo de propinas entre empresários e partidos sobre as licitações  de grandes obras públicas que garantiram a industrialização da Itália como sétima potência mundial na década de 1980", conta conta o professor italiano radicado no Brasil.
 
Mãos Limpas contou com um amplo apoio da opinião pública e conseguiu atender ao clamor popular ao prender industriais, advogados, magistrados e políticos. Uma onda de suicídios também aconteceu: 12 pessoas morreram dessa forma para evitar a prisão, outras tantas conseguiram fugir do país.
 
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A máfia siciliana, que detinha grande poder na época, também se envolveu no caso cometendo vários assassinatos, incluindo contra juízes que colheram depoimentos de testemunhas.
 
Segundo o cientista político Alberto Vannucci, um dos maiores estudiosos da Operação Mãos Limpas, apesar do grande número de investigados e mandados de prisão executados, apenas cerca de um quarto dos investigados foram punidos. "Inquéritos judiciais, mesmo quando bem-sucedidos, podem colocar na cadeia alguns políticos, burocratas e empresários corruptos, mas não conseguem acabar com as causas enraizadas da corrupção", disse ele à BBC Brasil.
 
Para Vannucci, Mãos Limpas foi um fracasso no objetivo de pôr fim a corrupção na Itália. A tese também é defendida por Gentile, que acrescenta: “Mãos Limpas não conseguiu incidir profundamente na corrupção italiana".
 
Após a operação
 
Findada a Operação Mãos Limpas, Antonio Di Pietro iniciou na carreira política. Em 1998, fundou seu próprio partido. Com a fama criada, se elegeu senador na XIII legislatura e é parlamentar na Câmara dos Deputados da Itália.
 
 
Outro personagem importante que ganhou força após a operação foi Sílvio Berlusconi. O magnata da comunicação italiana fundou o próprio partido e conseguiu se eleger ao principal cargo político: primeiro-ministro.
 
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A promessa principal de Berlusconi era "gerir" a Itália. Porém, foi pego em investigações participando de esquemas de corrupção e teve que renunciar, mas até hoje aparece como figura política importante no cenário italiano.
 
Com o fim da Operação Mãos Limpas e a mudança no quadro político, empresários, comunicadores e até mesmo magistrados começaram a surgir como lideranças políticas. Segundo cientista político Cleyton Monte, pode acontecer a mesma coisa no Brasil após o fim da Operação Lava Jato.
 
"Um clima antipolítico criado em torno da operação faz com que a opinião pública acredite que toda política está corrompida. Estamos vivendo um momento em que as figuras do judiciário estão muito politizadas e isso pode ser um problema se o magistrado militar no exercício de suas funções", explica.
 
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Fonte defende que a Operação Lava Jato seja realizada com cuidados, evitando que falhas sejam cometidas "para dar mais legitimidade e evitar com que pareça perseguição (justiçamento)".
 
"Quando a Justiça brasileira tenta ser rápida de forma artificial, sem estrutura para isso, pode acabar por cometer injustiças", diz.
 
Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em 2017, o historiador italiano Giovanni Orsina, da Universidade LUISS-Guido Carli, em Roma, afirmou que a busca por "bodes expiatórios" prejudicou a Operação Mãos Limpas. Para Orsina, a mesma sociedade que "tolerou" práticas de corrupção apoiou a operação com ideia de que a política é "ruim" e que "livrando-se dos bodes expiatórios" tudo ficaria bem.
 
Porém, segundo dados do Tribunal de Contas da Itália, ainda hoje a corrupção dentro da gestão pública no país consome 60 bilhões de euros por ano.
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