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''Este processo está marcado por desvio de poder'', diz Dilma

A presidente afastada voltou a afirmar que o processo é um ''golpe'' e que não cometeu crimes. Dilma será julgada pelo Senado nesta terça-feira, 30

23:55 | 29/08/2016
“A Câmara dos Deputados não aprovou nenhuma medida desde fevereiro de 2015”, declarou a presidente afastada Dilma Rousseff (PT). “Se isso não é um dos maiores boicotes na história, não sei dizer o que é.” Foi nesse tom de confronto que a petista discursou aos senadores, em dia histórico para o parlamento brasileiro.

Reforçando tese da defesa segundo a qual o impeachment não tem base legal, configurando-se como “golpe”, Dilma adotou fala mais política do que técnica e endureceu com seus julgadores, que votam hoje ainda o afastamento definitivo da presidente.

Sem perspectiva de reverter votos, porém, Dilma culpou Eduardo Cunha, citando-o nominalmente inúmeras vezes, e defendeu-se das acusações que motivaram o processo de afastamento no Congresso.

“Que País do mundo enfrentaria uma crise política baseada em três decretos ou subsídios dados à agricultura?”, contestou a mandatária.

“Este é o segundo julgamento a que sou submetida em que a democracia tem assento, junto comigo, no banco dos réus. Este processo está marcado por clamoroso desvio de poder, que explica absoluta fragilidade das acusações dirigidas contra mim”, continuou.

[SAIBAMAIS 3] Dilma respondeu aos questionamentos feitos pelos senadores durante todo o dia de ontem.  O senador Cristovam Buarque (PPS-DF), um dos que ainda poderiam mudar de voto, reafirmou seu posicionamento pelo impeachment.

Noutra ponta, o senador Hélio José (PMDB-DF), antes favorável ao afastamento, anunciou que votará
contra o impeachment.

Discurso
Para cientistas políticos ouvidos pelo O POVO, a fala da presidente foi essencialmente política e direcionada à defesa do legado de seu grupo político, que governou o País por mais de 13 anos, mas também para reforçar a narrativa petista para a eleição de 2018.

Paulo Baía, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, avalia que o tom da carta lida na tribuna do Senado poderia ter sido mais emotivo, para falar diretamente à opinião pública — o que não ocorreu.

“Ela não falou para a opinião pública, ela falou para os seus aliados. O discurso não tem impacto para o Senado nem para a sociedade brasileira”, analisa.

Baía acredita que o objetivo da defesa feita por Dilma é a tentativa de rearranjar a esquerda e manter a resistência ao governo do presidente em exercício, Michel Temer.

Para Oswaldo Amaral, da Universidade de Campinas, Dilma, em todo o seu discurso, quis reforçar a ideia de que o impeachment se baseia em um processo político, e não técnico. “Eu acredito que (o discurso) tinha que ser do jeito que foi. O jogo foi jogado, não tinha o que fazer.”
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