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Discurso de Dilma terá pouco efeito prático

14:44 | 29/08/2016
Não se espera que o discurso da presidente afastada Dilma Rousseff (PT) altere significativamente o quadro geral do impeachment, revertendo votos no Senado e a salvando da cassação do mandato aos 45 minutos do segundo tempo. O script do julgamento, grosso modo, deve ser cumprido, com o impedimento sendo confirmado até a madrugada de quarta-feira próxima. E o interino Michel Temer (PMDB) efetivado no cargo poucas horas depois.

Feita essa ressalva, a fala da petista a senadores na manhã de hoje carrega elementos, se não inéditos em conteúdo, ao menos apresentados com ênfase renovada. Se se esperava de Dilma uma apresentação emotiva, marcada pelo apelo ao sentimentalismo e lastreada na função de vítima que lhe atribuíram, a mandatária ofereceu uma argumentação que revisita pontos importantes de sua defesa. Mas fez isso com mais firmeza que o habitual e disposição para rebater as acusações pelas quais se tornou ré: as "pedaladas fiscais" e os chamados decretos de créditos suplementares.

[SAIBAMAIS3]Entre esses pontos, a palavra-chave continua sendo "golpe". E a expressão "golpe de Estado", uma senha para o papel que a presidente afastada julga desempenhar nesta etapa final do processo. Da tribuna do Senado, a presidente ou presidenta, como a chamou alternadamente o ministro do Supremo Ricardo Lewandowski, citou o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha em pelo menos três ocasiões. Em todas, tratou de responsabilizá-lo como pivô da via-crúcis a qual foi submetida desde que o peemedebista aceitou o pedido de impeachment formulado pelos advogados Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e Janaína Paschoal.

Noutros trechos, referiu-se a Temer como "usurpador". Depois, culpou a crise econômica externa pelas turbulências no País. E, mais uma vez, comparou-se a Getúlio Vargas e a João Goulart. Eis o quadro, então: Dilma foi apeada do poder porque, à crise financeira, adicionou-se uma outra, fabricada por agentes políticos insatisfeitos com a sua eleição. É a síntese do que disse a presidente.

O discurso de Dilma, entretanto, cumpre outra função, que é a de registro histórico e de documento que servirá de amparo a sua militância e ao PT, neste e nos próximos anos, sobretudo nas eleições de 2018. A rigor, ela foi ao Senado defender-se pessoalmente menos porque estivesse convencida do poder de sua oratória para evitar o fim anunciado. Tampouco para admitir eventuais erros que possa ter cometido. Dilma foi ao Senado para lutar pelo legado de seu governo e sua biografia. Não disse ou ouviu nada de novo. No cumprimento do ritual fixado pelo STF, que tem uma natureza mais teatral que política, respondeu a senadores no presente, mas com a cabeça e os olhos no futuro. Quem terá razão em suas palavras, se ela ou seus julgadores, apenas o tempo dirá.
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