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Confira entrevista na íntegra com João Alfredo

01:30 | 09/07/2016
O POVO – Como surgiu o seu nome para a candidatura?

João Alfredo - Dois fatores pesaram muito. Primeiro, o Renato (Roseno) está com um mandato estadual, mais afeito às questões do estado, e com uma demanda importante no interior - a presença ao apoio das nossas candidaturas nos municípios onde vamos disputar. Por outro lado, o fato de eu ter participado nesses últimos oito anos da Câmara Municipal e ter feito oposição, sempre pela esquerda, à segunda gestão da Luiziane e à gestão do Roberto Cláudio me colocam muito próximo aos problemas da Cidade e, portanto, com condições de acompanhar isso e de fazer esse enfrentamento da disputa eleitoral com mais proximidade do que o próprio Renato. Foi um apelo, como o Renato falou, e eu aceitei esse enfrentamento. Temos que renovar os cargos. O partido não pode depender a vida do nome do Renato e do meu. E aí um nome, como o nome do Ailton, da Adelita e de outros companheiros e companheiras que vão se lançar podem muito bem cumprir esse papel.

OP - Como pensa em trabalhar as pautas do partido?

João Alfredo – Quero construir um programa de forma coletiva, com o PSOL e com os movimentos sociais, que as pessoas se identifiquem. Que um morador da periferia, os sem-teto, o militante do movimento ambientalista, as mulheres da luta feminista, os homossexuais com suas lutas pelo direito à diversidade, aqueles que militam no direito da criança e do adolescente, professores públicos, os que defendem e cuidam do nosso patrimônio possam olhar e dizer “esse programa me representa”. Eu não sou candidato de mim. Não tenho nenhuma vaidade e não estou procurando nenhuma projeção, até porque já tenho um tempo de vida de militância e a tranquilidade de saber minhas virtudes e meus defeitos. Trata-se de verbalizar o que muitas vezes não tem voz. Eu quero ser um candidato que represente uma esquerda que continua se reafirmando como anticapitalista, mas que se renova na questão da ecologia, das opressões e na luta feminista, LGBT e em defesa dos direitos humanos. Então, pra mim, o mais importante é começar o processo de colaboração participativa do programa. Nós devemos criar também uma plataforma na internet para receber essas contribuições.

OP - O atual momento do Brasil vai impactar nas eleições municipais?

João Alfredo - O Brasil vive um processo de radicalização e, nesse tipo de processo, é comum que a luta de classe fique mais explícita. Acho que aí se sobressaem figuras mais direitistas, com licença da palavra, como Bolsonasi, e figuras de esquerda com presença muito forte, como Jean Willis. Eu fico feliz porque nosso partido, apesar de pequeno, tem tido um protagonismo muito importante. Acho que o processo eleitoral terá um duplo condicionamento. Um deles é a pauta nacional e o PSOL está bem localizado nela. Ciro Gomes disse em entrevista que o PSOL foi muito generoso. Que, por ter sido expulso do PT, poderia ter lavado as mãos com a questão do impeachment, mas que o pessoal (do partido) foi para a linha de frente da denúncia do golpe. Nós estamos bem em muitas capitais. Estamos bem com o Freixo no Rio de Janeiro, em São Paulo com a Erondina, em Porto Alegre com a Luciana e em Belém com o Edmilson. Isso mostra que essa atuação dos nossos parlamentares tem uma resposta na sociedade. Mas, por outro lado, não podemos abandonar a pauta local. Aí, é que eu acho que nós temos que ousar. Temas que já foram muito caros às esquerdas sociais que foram abandonados, como a questão do passe-livre e da tarifa zero, são uma questão fundamental. A compreensão de que o transporte público é um direito como é a moradia, a saúde e a educação colocam essa questão em pauta. Resgatar a questão do orçamento participativo de outra perspectiva, inclusive. São mecanismos que têm na própria lei. A lei orgânica do município de Fortaleza prevê o veto popular para grandes obras. Então, por exemplo, em uma gestão nossa, um viaduto como os que foram construídos recentemente seriam plebiscitados. A população seria ouvida. As regionais, por exemplo. Acho que se pode pensar em formato de gestão mais descentralizado. Elas não podem ser apenas locais de relação dos seus respectivos secretários com a população. De clientela. Você tem que ter em cada regional mecanismos de participação popular, desde conselhos com representantes até as grandes assembleias. Podem ser adotados mais recursos para as regionais, transformando-as em subprefeituras. Fortaleza é uma cidade imensa. As regiões são muito diferentes. O que tem acontecido é que a regional mais pobre é a regional cinco. A que tem mais recurso é a mais rica, a dois. Então, inverter esse processo com a participação popular é algo fundamental. A legislação do ponto de vista de mecanismo de garantia do direto à moradia é muito boa. Tem o Estatuto da Cidade, o Minha Casa Minha Vida, que prevê instrumentos importantes de regulação fundiária que nunca foram utilizados. A prefeitura regulamentou a outorga onerosa, a transferência do direito de construir, porque é interesse das grandes construtoras, mas ela não regulamentou as ZEI’S, que são as Zonas Especiais de Interesse Social. Inclusive, isso foi um compromisso assinado pelo prefeito Roberto Cláudio há quatro anos e não cumprido. Como se encara a Fortaleza do século XXI em meio a uma crise climática e trabalha essa questão da água? O que é que está acontecendo hoje? A população está sendo penalizada na sobretaxa e no racionamento. Enquanto isso, as indústrias altamente consumidoras de água têm benefícios fiscais (a termoelétrica e a siderúrgica) consomem o equivalente ao que um milhão de pessoas consome. A gente precisa fazer esses debates. Não podemos reduzir a eleição a uma disputa de quem construiu mais viaduto, mais praça. Isso é empobrecer muito a visão de cidades.

OP - A proibição de doações de pessoas jurídicas aos partidos impacta de alguma forma no PSOL?

João Alfredo - A reforma política e eleitoral tem um aspecto extremamente positivo, que nos favorece, que é o fim do financiamento privado, que nós sempre defendemos. Ele poderá fazer essa campanha ser uma campanha mais barata. Por outro lado, nós fomos penalizados pela questão do tempo de rádio e de televisão. Nosso tempo diminuiu muito: são apenas dez segundos e a gente vai ter que ter muita criatividade nas redes sociais durante a campanha para vencer isso. A forma como foi colocada a lei é para excluir o pessoal dos debates.

OP - E a saída do PSTU? Qual impacto na sua candidatura?

João Alfredo - O PSTU não vai estar conosco enquanto partido, mas como em torno de 80% deixaram o partido e que elas estão se agrupando, o que ainda não é um partido, nós estamos conversando para que eles se somem à Campanha. O segundo suplente do Renato, por exemplo, é o Nestor. Ele saiu do PSTU. É uma referência importante no Sindicato da Construção Civil. A perda não é tão grande se nós conseguirmos trazer para o nosso lado a militância que rompeu.
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