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Como o nacionalismo de vacina ameaça a economia global

00:05 | 26/02/2021
Ao priorizar suas campanhas de vacinação contra covid-19, países ricos colocam em risco o próprio crescimento. Imunização em países em desenvolvimento é essencial para recuperação econômica global, afirmam especialistas.Nesta quarta-feira (24/02), Gana se tornou o primeiro país a receber vacinas como parte do programa Covax, liderado pelas Nações Unidas e que tem como objetivo ajudar 92 países de baixa e média renda a enfrentar a pandemia dia covid-19. Enquanto isso, nações ocidentais são acusadas de nacionalismo de vacina: em meio à corrida para reabrir dezenas de milhares de empresas que foram forçadas a fechar repentinamente e hoje estão à beira da falência, países ricos estariam dando prioridade a suas próprias campanhas de vacinação. Nesta semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu que os países desenvolvidos não prejudiquem a Covax, que visa garantir que países em desenvolvimento tenham acesso a um total de 2 bilhões de doses de vacinas. A Alemanha, por exemplo, que enfrenta críticas por um início lento da vacinação no próprio país, prometeu 1,5 bilhão de euros adicionais (cerca de R$ 10 bilhões) para a Covax na semana passada. Outros membros do G7 também anunciaram mais ajuda. No entanto, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, advertiu que "o dinheiro é irrelevante se não houver vacinas para comprar". Segundo a OMS, alguns países ricos continuam a fechar novos contratos com fabricantes de vacinas, prejudicando os acordos feitos pela Covax ao reduzir o número de doses disponíveis para o programa. Embora especialistas em saúde tenham recorrido a argumentos morais para garantir a distribuição equitativa de vacinas, foi o argumento econômico que ganhou destaque recentemente no último Fórum Econômico Mundial, realizado no formato digital devido à pandemia. Em umas das sessões do evento, o ministro sênior de Cingapura, Tharman Shanmugaratnam, disse que a recuperação global vai depender da força econômica dos países em desenvolvimento, responsáveis por cerca de um terço do crescimento global na última década. "Se olharmos para os próximos dez ou 20 anos, é aí [nos países em desenvolvimento] que estão as maiores oportunidades de crescimento", prevê, acrescentando que é do interesse de todos garantir que o mundo em desenvolvimento não fique para trás. Recuperação ameaçada Um relatório independente da Câmara de Comércio Internacional (ICC, na sigla em inglês) publicado no mês passado foi ainda mais além, alertando que uma fraca campanha de vacinação nos países em desenvolvimento prejudicaria o crescimento econômico nas nações desenvolvidas. O documento prevê que, caso as nações de baixa e média renda não se recuperem totalmente da pandemia, os países ricos poderão perder entre 4,3 trilhões e 9 trilhões de dólares em PIB nos próximos anos. "O maior golpe viria das importações, com a interrupção das cadeias de abastecimento podendo representar um grande entrave para a maioria das economias do G7, de cerca de 5% do PIB", disse à DW o diretor de política global da ICC, Andrew Wilson. No caso da Alemanha, a ICC pintou três cenários com uma queda do PIB de entre 3,05% e 6,46%. O órgão calcula que, para cada euro que o país gastar com o fornecimento de vacinas para as nações mais pobres, haverá um aumento de 20 euros no PIB alemão. Para Wilson, a Alemanha tem um risco duplo. Por um lado, o fato de ter uma economia voltada para as exportações pode ser prejudicado por uma "fraca demanda nos mercados emergentes". Por outro, um entrave na produção doméstica também poderia ser sentido em setores que dependem de importações, incluindo varejo e construção. De acordo com a ICC, os custos de doações para a Covax são muito menores do que os custos econômicos decorrentes da manutenção prolongada de um lockdown parcial no países de baixa renda. Pesadelo logístico Apesar de um aumento das contribuições financeiras para a Covax, especialistas ainda veem enormes problemas logísticos em torno da campanha de vacinação global. Atrasos anunciados por fabricantes de vacinas, neste caso, seriam apenas a ponta do iceberg, pois a produção está apenas começando. "A cadeia de suprimentos dos fabricantes de vacinas é, na melhor das hipóteses, ineficiente. Certamente, ela está sendo colocada à prova de uma maneira sem precedentes", disse Wilson à DW, chamando a atenção para o temor de líderes empresariais de que a cadeia não seja suficientemente resiliente para lidar com a fabricação de bilhões de doses. Wilson alerta ainda para o risco de novas interrupções na fabricação à medida que mais vacinas recebem aprovação regulatória. Com o aumento da produção, aponta, haverá também uma demanda sem precedentes por certos ingredientes usados para produzir os imunizantes. A distribuição é outro fator capaz de dificultar a vacinação ao redor do mundo, sobretudo devido a questões geográficas e problemas de infraestrutura em muitos países em desenvolvimento. Neste sentido, a ICC pede por uma participação cada vez maior do setor privado no transporte de vacinas. Enquanto isso, União Europeia e Estados Unidos também enfrentaram críticas por impor controles sobre a exportação de vacinas para ajudar a impulsionar suas próprias campanhas de vacinação. O fato foi destacado por Ngozi Okonjo-Iweala, a nova chefe da Organização Mundial do Comércio (OMC), que disse que a pandemia seria sua prioridade. Em uma entrevista à agência de notícias Reuters na semana passada, por exemplo, a chefe da OMC destacou a importância de acelerar os esforços no sentido de suspender as restrições às exportações que travam o comércio de medicamentos e suprimentos necessários. Autor: Nik Martin
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