PUBLICIDADE
Mundo
NOTÍCIA

Furacões deixam rastro de destruição na Nicarágua

00:01 | 21/11/2020
Em menos de 15 dias, país foi atingido em cheio por dois furacões de categoria 4: primeiro o Eta, depois, o Iota. Ambos causaram grandes estragos em áreas historicamente vulneráveis.Em Puerto Cabezas (também conhecida como Bilwi), capital da Região Autônoma da Costa Caribe Norte, na Nicarágua, os trabalhos de reconstrução e reparo dos danos deixados pelo furacão Eta ainda estavam em andamento quando seus mais de 60 mil habitantes tiveram de procurar abrigo novamente por causa de outro furacão, desta vez com ventos ainda mais fortes. O poderoso Iota tocou o território nicaraguense à 00h40 do horário de Brasília desta terça-feira (17/11), castigando Puerto Cabezas e, mais ao sul, a pequena comunidade indígena de Haulover com ventos de 260 quilômetros por hora. Quase 20 horas após o impacto, pouco se sabia sobre o destino dos habitantes desta área empobrecida, devido à queda dos meios de comunicação. "Há muitas casas sem telhado. O som do vento é intenso e assustador", disse Jayson Kennedy Bermúdez, um morador de Puerto Cabezas com quem a DW fez contato durante os primeiros minutos de terça-feira, antes de todas as comunicações serem cortadas. "O Eta deixou muitas casas danificadas e telhados soltos. Aqueles que não saíram voando com o Eta não tiveram a mesma sorte com o Iota", disse o jovem de 26 anos ao contar como o teto de sua casa rangia sob a força dos ventos dos furacões. Um vídeo reproduzido pelo Unicef mostra ventos castigando a região: "Foi pior que o furacão Eta" Parentes de Bermúdez vieram se abrigar na casa dele, no bairro de Filemón Rivera. A mãe e dois irmãos mais novos preferiram ir para um abrigo, enquanto o padrasto permaneceu no pequeno hospital da cidade depois de sofrer um acidente há duas semanas, durante o furacão Eta. "Dá para notar mais pânico nas ruas. Este furacão é definitivamente mais forte do que o Eta", afirmou Bermúdez. Minutos depois, o telefone dele perdeu o sinal. Ainda na terça-feira, às 20h30 do horário local (23h30 do horário de Brasília) nenhuma fonte oficial havia relatado o que aconteceu em Puerto Cabezas, que ainda estava no escuro e com os serviços de internet e eletricidade suspensos quase 24 horas após o impacto do Iota. O Iota, que atingiu o solo como um furacão de máxima intensidade antes de baixar para a categoria 4, foi a mais poderosa tempestade de que se tem notícia no país centro-americano, segundo o Instituto Nicaraguense de Estudos Territoriais (Ineter). Foi ainda mais intenso do que o furacão Joan, que devastou as cidades de El Rama e Bluefields, no sul da Nicarágua, em outubro de 1988. Chuvas fortes e enchentes afetaram todo o país na terça-feira. Enquanto em Puerto Cabezas e na região de mineração telhados foram derrubados, em Matagalpa, que fica mais a oeste, os rios transbordaram e em Rivas, uma província do sul na costa que dá para o Oceano Pacífico, longe do olho do furacão, veículos ficaram debaixo d'água. No município de Tola, o rio La Zopilota transbordou após várias horas de chuva intensa, arrastando as paredes e pertences de várias casas e deixando diversas comunidades isoladas. Fuga para salvar a própria vida Alba María Guerrero, de 61 anos, disse à DW que fugiu um dia antes, com o restante das mulheres e crianças das oito famílias que vivem juntas às margens do rio La Zopilota. "A chuva começou às 10h da noite. O rio entrou nas casas às 2h manhã e levou tudo. Esta é a quarta vez que o rio transborda aqui", disse ela. Mais afetado ainda foi o filho dela, Maycol: as águas levaram as paredes e o telhado da casa dele, além de tudo o que estava dentro. Desesperada, Alba María disse que eles insistiram várias vezes perante as autoridades municipais para que fossem realocados em um lugar mais seguro, mas seus pedidos não foram ouvidos. Perto dali, na cidade de Rivas, capital da província, a enchente surpreendeu os moradores do bairro de Los Pinos pouco antes do amanhecer. "Meus vizinhos acordaram com a água até os joelhos, por volta das 2h30 da manhã. A enchente chegou à minha casa duas horas depois", disse Martha Rosa Bonilla, moradora deste nas imediações da Rodovia Pan-Americana, que leva à vizinha Costa Rica. "O esgoto entupiu, e tudo ficou inundado. Cerca de 20 famílias sofreram danos e perdas materiais, porque a água estava acima de nossa cintura, e as camas foram danificadas. Os bombeiros vieram para retirar as crianças e os idosos, mas nós da vizinhança conseguimos salvar muitas coisas", disse a mulher quando as águas recuaram. Poucos pensavam que o furacão causaria estragos em Rivas. "Não ouvimos nenhum tipo de alerta de inundação. Vivemos algo similar 32 anos atrás com o furacão Joan, mas desta vez foi inesperado. Mas aqui no bairro nos organizamos para desentupir o esgoto, foi o ativismo dos vizinhos que resolveu isso, e foi a solidariedade que nos salvou", disse Martha Rosa. Danos ainda não mensurados Assim como em Rivas, as imagens das enchentes se repetiram em todo o país. O Iota causou a morte de pelo menos oito pessoas e deixou 35 municípios incomunicáveis no norte e no nordeste da Nicarágua. Enquanto isso, com o passar das horas, as atenções se voltaram mais uma vez para Puerto Cabezas e para as pequenas comunidades indígenas impactadas pelo furacão. Relatórios preliminares indicaram danos significativos. Voaram pelos ares telhados de casas e edifícios públicos, incluindo o de um hospital, os de alguns abrigos e de igrejas que servem de abrigo, e também das instalações locais da Cruz Vermelha. O governo informou que, antes do primeiro furacão, cerca de 30 mil pessoas foram removidas, e, no segundo furacão, o número de refugiados ultrapassou 40 mil. A maioria está alojada em casas de parentes e em igrejas. As primeiras imagens da destruição também mostraram o colapso total do cais da cidade, uma lembrança triste desta terça-feira de caos. Bermúdez expressou pesar pelo que aconteceu em sua cidade. "Puerto Cabezas está em uma área costeira, e a pesca é o motor da nossa economia. Quando vemos os barcos quebrados ou transformados em nada, as lágrimas vêm aos nossos olhos." Autor: Johnny Cajina (da Nicarágua)
TAGS