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Opinião: Os erros que levaram à vitória do MAS na Bolívia

00:03 | 22/10/2020
Partido de Evo Morales não volta ao poder apenas por méritos próprios, mas também pela incompetência de seus adversários, opina o jornalista Johan Ramírez.Há apenas um ano, a Bolívia foi tomada por grandes manifestações que, após três semanas, forçaram a renúncia de Evo Morales. Parecia o fim de uma era construída ao longo de 14 anos de governo dominado pelo Movimento para o Socialismo (MAS). Parecia um revés fulminante para a ideologia socialista do agora ex-presidente, e um golpe definitivo contra a nostálgica esquerda do continente. O surgimento de uma nova geração de lideranças, até então desconhecida, com discursos inéditos e rostos jovens, anunciava o que parecia uma virada importante para o país e um precedente indelével para a região que dizia não à fraude e sim à legalidade. Mas bastaram apenas 11 meses para que essas novas lideranças revelassem seu egoísmo, egocentrismo, inexperiência e desejo de poder – ou, para resumir em uma palavra, sua inépcia. Se hoje o MAS retoma o governo na Bolívia, não é por seus próprios méritos, a meu ver, mas graças a três erros com nomes e sobrenomes: Jeanine Áñez, Luis Fernando Camacho e Carlos Mesa. Repito: neste momento histórico, esses três personagens são um erro. A presidente Jeanine Áñez, que agora está de saída, teve uma oportunidade dos sonhos de se tornar líder de um país que navegava como um barco sem rumo. Após a renúncia de Morales, em 10 de novembro de 2019, toda a cadeia de sucessão masista também se afastou: Álvaro García Linera (vice-presidente), Adriana Salvatierra (presidente do Senado) e Víctor Borda (presidente da Câmara dos Deputados). Então, por casualidade, a presidência chegou ao gabinete de Áñez, então segunda vice-presidente do Senado. Assumir a liderança e ter a coragem de tomar as rédeas de uma crise impossível seriam ingredientes para transformá-la em um mito. Mas sua vergonhosa gestão a converteu num desacerto. Seu governo foi muito curto para o número de escândalos de corrupção que a atormentaram. E sua frustrada candidatura deixou claro que ela não entendeu que seu papel deveria se limitar a guiar o país para uma transição. Já o empresário conservador Luis Fernando Camacho liderou uma onda extraordinária de protestos e, longe das estruturas partidárias, com um discurso irreverente e contundente, deu um ultimato a Morales, deixando sua trincheira no departamento de Santa Cruz para vir a La Paz. Em três semanas, edeixou de ser um completo desconhecido para se converter no homem que, junto com os movimentos civis, tiraria o MAS do poder. Mas então surgiram suas diferenças com Marco Pumari, outro líder dessa cruzada. O vazamento de áudios em que Pumari exigia o pagamento de milhares de dólares e a entrega do controle de dois postos de alfândega em troca de se apresentar como vice na chapa de Camacho deixou claro que, embora fossem recém-chegados à política, os dois traziam consigo as piores vícios dos últimos governos. Carlos Mesa é o terceiro erro da Bolívia. Sua campanha eleitoral foi insípida, como sua própria figura. Ele usou a pandemia como desculpa para ficar em casa e realizar comícios pelo Twitter e Facebook. Seus discursos ficaram a quilômetros de distância de empolgar a população. Ele não viajou pelo país, não abordou os setores populares e, se foi alguma vez a El Alto – a segunda maior cidade da Bolívia, na região metropolitana de La Paz –, só o fez para usar o aeroporto. Ele não parecia entender, apesar de sua carreira jurássica, que a política se faz na rua, mesmo que agora seja necessário usar máscara. O MAS volta ao poder graças a esses três erros mencionados e à ausência de uma liderança independente que pudesse enfrentar um movimento inundado de investigações de corrupção, acusado de tráfico de drogas no aeroporto de Cochabamba e cujo dirigente máximo, o Sr. Evo Morales, enfrenta ele próprio acusações, incluindo um caso infame de pedofilia. Que a sorte esteja com você, apesar de seus erros, Bolívia. Você vai precisar. Johan Ramírez é jornalista da DW. O texto acima reflete a opinião pessoal do autor, e não necessariamente da DW. Autor: Johan Ramírez
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