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China luta para limitar dívida corporativa enquanto tenta sustentar crescimento

30/12/2018 16:30:00
A tentativa da China de controlar os crescentes níveis de endividamento corporativo ficou em segundo plano diante da necessidade de apoiar o crescimento de curto prazo, num momento em que as tensões comerciais com os EUA alimentam temores dos investidores em relação ao compromisso de Pequim de desalavancar a segunda maior economia do mundo.

Autoridades chinesas dizem que cortar dívidas em empresas nacionais - em particular em empresas estatais inchadas - é uma prioridade nacional necessária para sustentar a saúde econômica e financeira de longo prazo.

Na prática, confrontados com metas anuais de crescimento e as atuais tensões comerciais nos EUA que podem exaurir as exportações lucrativas, líderes chineses - incluindo o presidente Xi Jinping - enfatizaram o apoio à demanda doméstica e pediram aos governos locais que acelerem os projetos de investimento para garantir o crescimento adequado.

Em vez de elevar as taxas de juros - o que alguns economistas dizem ser necessário para a China ser bem sucedida na desalavancagem -, o banco central da China liberou mais dinheiro para os bancos emprestarem. Reduziu as exigências de reserva dos bancos quatro vezes em 2018, liberando várias centenas de bilhões de dólares para empréstimos.

"Se eles fossem realmente sérios sobre a desalavancagem, teriam de apertar a política monetária, algo que eles realmente não parecem dispostos a fazer", disse Maximilian Kärnfelt, analista econômico do Instituto Mercator de Estudos da China, em Berlim.

O presidente do banco central chinês, Yi Gang, defendeu a posição da China, dizendo que política monetária "relativamente frouxa" é necessária para estabilizar a economia em um ciclo de baixa.

O fácil crédito a empresas estatais ajudou a impulsionar o boom econômico da China, especialmente depois que a crise financeira global levou as autoridades a injetar meio trilhão de dólares em estímulos para manter a economia em movimento. Entre 2008 e 2016, o crédito total para empresas não financeiras cresceu de menos de 95% do produto interno bruto (PIB) para mais de 150%, segundo o Banco de Compensações Internacionais.

Em meio a um aperto na regulação sobre empréstimos arriscados, esse número caiu para cerca de 147% no final de 2017, antes de subir no primeiro semestre de 2018, de acordo com os dados mais recentes disponíveis. Os países do G-20, em comparação, ficaram em cerca de 94% do PIB no final do ano passado. O financiamento social total - uma medida mais ampla do crédito na economia chinesa, que também inclui dívida não bancária - continuou a crescer em 2018, embora mais lentamente.

"O compromisso do governo chinês em controlar e evitar riscos financeiros ainda está lá", disse Dominik Peschel, economista do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB), em Pequim. Entre os sinais positivos, estão os esforços para reduzir o excesso de capacidade em setores inflados, como forma de melhorar a lucratividade das empresas e reduzir o endividamento, disse.

Em alguns indicadores, a saúde corporativa na China melhorou. Os índices de solvência aumentaram nas empresas listadas de vários setores, incluindo o automotivo e o siderúrgico, de acordo com o provedor de dados Wind Information Co. O lucro das empresas pertencentes ao governo central também cresceu a uma taxa de dois dígitos.

Mas as tensões comerciais dos EUA complicam a questão em 2019. Embora os dois lados tenham concordado com uma trégua temporária em dezembro, muitos economistas consideram que uma solução de longo prazo é mais difícil de alcançar - e uma fonte de grande incerteza para o crescimento da China.

Embora economistas digam que a China pode atrasar a desalavancagem no curto prazo, enfrentar o acúmulo de dívidas em seu sistema financeiro é inevitável. Quando o fizer, os efeitos podem ricochetear globalmente.

A Fitch Ratings afirmou em junho que a desalavancagem poderia fazer a economia da China crescer um ponto porcentual a menos que seu caso base. Os efeitos sobre os parceiros comerciais de mercados emergentes da China seriam semelhantes, afirmou a agência de avaliação de risco, prevendo que o crescimento no Brasil, Rússia, Coreia do Sul e África do Sul poderia ser cerca de um ponto porcentual menor em 2022 se a China avançar na redução da dívida. O preço do petróleo Brent poderia ficar cerca de 10% menor, segundo a Fitch.

Tolerar os efeitos do crescimento mais lento pode ser difícil para a China, onde a manutenção de altos empregos continua sendo uma prioridade para o Partido Comunista. "Até agora, parece que a regulação começa a produzir resultados, desacelerando o crescimento do crédito, mas não revertendo de forma conclusiva qualquer coisa", disse Kärnfelt.

Fonte: Dow Jones Newswires

Agência Estado

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