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Trigo, cereal indispensável e arma diplomática chave na crise alimentar

06:04 | Jul. 05, 2022
Autor AFP
Tipo Notícia

O trigo é um cereal de clima temperado que se tornou em poucos meses uma arma diplomática no contexto da invasão russa da Ucrânia e é um fator em uma crise maior que ameaça a segurança alimentar de milhões de pessoas.

No mundo, mai de 200 milhões de pessoas sofrem com a fome aguda, segundo a ONU, que teme que voltem a ocorrer "furacões de fome" por causa do aumento dos preços dos alimentos, que estão em alta desde o início do conflito.

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O trigo, seja sob a forma de sêmola, farinha ou pão, é um alimento que "todo mundo come, mas que nem todo mundo pode produzir", resume o economista Bruno Parmentier, autor do livro "Nourrir l'humanité" (Alimentar a humanidade).

Hoje em dia, apenas uma dezena de países produz trigo suficiente para poder exportar. A China, por exemplo, que é o maior produtor mundial, importa grandes quantidades para poder alimentar seu 1,4 bilhão de habitantes.

Os grandes exportadores são Rússia, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Ucrânia.

Os preços dos cereais já eram altos antes da guerra, mas a cotação do trigo subiu em todos os mercados a partir do segundo semestre de 2021 e se manteve em níveis altos, sustentada pela recuperação econômica após a crise da covid.

Por trás desta curva ascendente, há várias explicações: por um lado, o aumento dos preços da energia e dos adubos. Também a congestão nos portos e a falta de mão de obra e a meteorologia, pois o Canadá sofreu com uma colheita catastrófica.

Após a invasão russa, iniciada em 24 de fevereiro, o preço do trigo bate recordes e a cotação disparou até os 400 euros a tonelada em maio no mercado europeu, o dobro do que em meados do ano passado.

Esta alta é insustentável para os mais pobres, especialmente para cerca de 30 países que dependem "ao menos 30% da Ucrânia e da Rússia" para suas importações, segundo a FAO.

Ucrânia e Rússia, que historicamente são celeiros da Europa, representam 30% do total das exportações mundiais de cereais.

Nestes últimos anos, a produção esteve em alta e a Rússia chegou a ser o maior exportador e a Ucrânia situou-se em terceiro lugar.

O peso destes atores no mercado pesou na "dinâmica do medo" que se instalou nos primeiros meses de conflito, explicou Edward de Saint-Denis, corretor da Plantureux & associés.

O bloqueio do mar de Azov e dos portos ucranianos do Mar do Norte privaram de forma automática os mercados de 25 milhões de toneladas de grãos, que ficaram encalhados em fazendas, silos ou portos.

Apesar dos esforços para conseguir tirar os produtos do país por terra, as exportações são seis vezes menores do que se conseguia fazer por mar.

Em meio à guerra, os agricultores conseguiram semear até quase o limite de onde fica a linha de frente, mas se projeta uma queda das colheitas de 40% para o trigo e de 30% para o milho, segundo as estimativas da principal associação de produtores e de exportadores da Ucrânia.

"Em tempos de guerra, os grandes países produtores têm literalmente em suas mãos o destino de outros países", destacou Parmentier.

Mas para Arif Husain, economista-chefe do Programa Alimentar Mundial (PAM) episódios de fome extrema "jamais estão ligadas à produção alimentar", sempre "estão provocadas por problemas de acesso".

À medida que o conflito se estendeu, no começo de junho começaram as negociações a pedido da ONU e gerenciadas pela Turquia para estabelecer "corredores marítimos seguros" que permitissem exportar os inventários ucranianos bloqueados. Sem nenhum resultado.

Moscou pediu a suspensão, pelo menos parcialmente, das sanções ocidentais, acusando que estas medidas agravam a crise alimentar.

Para o chefe da diplomacia americana, Antony Blinken, esta demanda foi uma "chantagem".

Uma solução possível teria sido que os países com reservas liberassem cereais aos mercados. Mas a maioria dos inventários está na China, que não manda sua produção para o exterior.

A Índia, por sua vez, se comprometeu a vender por solidariedade aos países mais dependentes, mas pressionada pelos efeitos devastadores de uma onda de calor, impôs um embargo temporário para suas exportações, impulsionando ainda mais os preços.

A Rússia, que projeta uma colheita extraordinária para este ano, "continua vendendo para alguns países, especialmente no Oriente Médio, em troca de que não votem contra ela na ONU", destacou um especialista dos mercados.

No curto prazo, a solução vai chegar quando houver novas colheitas. Com um bom prognóstico na América, na Europa ou na Austrália, em 2022 a colheita de trigo está prevista em 775 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

Nas últimas semanas, os preços têm estado em baixa por várias razões: o início das colheitas, a integração nos mercados da situação na Ucrânia e o temor de uma recessão, explicou Edward de Saint-Denis.

No médio prazo, "é preciso conseguir que se produzam e processem mais alimentos de forma local", pediu em uma conferência Elisabeth Claverie de Saint-Martin, diretora da Cirad, organismo francês de pesquisas em agronomia e de cooperação internacional para o desenvolvimento.

"A parte agrícola da África cobre 80% de suas necessidades. Agora é preciso generalizar as transições agroecológicas para poder fazer frente ao desajuste climático e apoiar transições que devem ser sustentáveis economicamente", destacou.

Claverie de Saint-Martin destacou que no sistema atual, entre o esbanjamento no norte e os problemas de transporte e cadeia de frio no sul, "30% da produção mundial nunca se consomem".

sb/uh/bt/an/mvv

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